Em meu último final de semana, que foi bastante tumultuado, entre o show da Marisa Monte – que, aliás, só recomendo aos muito fãs – e idas ao hospital – estou com um problema de saúde na família, fui fazer a barba como sempre faço aos sábados.
Quase em frente ao salão – que já foi alvo de um post antigo deste blog sobre a extinção dos barbeiros – fica uma espécie de empório, ou delicatessen, onde costumo me abastecer de ótimos queijos e outros frios nos quais a casa é especializada. Inclusive a casa tem um ótimo queijo defumado que recomendo bastante.
Pois é. A casa tem um pequeno portfólio de cervejas, nacionais e importadas. Calculo que tenha cerca de 30 a 40 rótulos, mais para complementar a compra de quem leva pães, embutidos, frios e outros produtos típicos deste tipo de estabelecimento.
Qual não foi a minha surpresa ao ver um rótulo inglês, a Bombardier, pela bagatela de R$ 9,90. Acostumado que estou com os preços de cervejas aqui no Brasil, olhei logo para a data de validade para ver se estava próxima. Não estava: era 2013.
Outros dois rótulos do mesmo fabricante, com ‘sabores’ de mel e banana, estavam com o mesmo preço do exemplar que citei acima. Ainda havia outros dois a R$ 11,99.
Levei apenas três garrafas (meio litro cada uma), pois estou com meu estoque bastante grande. Contudo, muito me surpreendeu o preço cobrado, bastante abaixo do encontrado em lojas especializadas. Em uma delas, vi a mesma cerveja ontem a R$ 23.
Isso me levou a pensar sobre a formação de preços deste mercado aqui no Brasil.
O mercado de cervejas artesanais e importadas é relativamente recente aqui no Brasil, e vem vivendo um verdadeiro boom de dois anos para cá. Hoje até mesmo o empório de um bairro de classe média na Zona Norte, como o que eu moro, tem alguns exemplares.
Obviamente, o lado positivo é que o consumo de boa cerveja está se popularizando no Brasil e isto é ótimo: temos mais opções de boas brejas para se sorver, além dos insípidos exemplares oferecidos pelas grandes fábricas. Aliás, é até um debate interessante se devemos considerar estes exemplares como cerveja ao pé da letra, mas este é um tema para outro post.
Um segundo parêntese: os mercados das cervejas de massa e das especiais são complementares, não excludentes. Também voltarei ao tema em outra ocasião.
Entretanto, me parece claro que o fato observado de que o consumo de boa cerveja “está na moda” gera uma espécie de “sobrepreço” nos produtos. A sensação que eu tenho é de que a margem praticada é muito mais alta do que seria razoável tendo em vista a dinâmica dos processos.
Evidentemente, sei de algumas dificuldades: o giro não é tão alto (o que gera custo de estoque), há um investimento inicial considerável e o consumo, apesar de crescente, ainda é restrito às classes A e B.
Contudo para mim até como economista está claro que existe um efeito de demanda empurrando as margens: devido ao “efeito novidade” se colocar uma Chimay, por exemplo, a R$ 15 ou a R$ 32 (como já vi em diferentes lugares aqui no Rio, lojas físicas e virtuais) não vai impactar muito no preço.
Ou seja: como o consumo de cervejas especiais é uma “novidade” e “está na moda”, quem oferta estes produtos eleva sua margem de forma (quase) indefinida a fim de ganhar dinheiro “surfando” nesta onda. Que fique claro que não estou acusando os donos de lojas e restaurantes especializados de serem desonestos: estão apenas se adaptando a uma condição de mercado.
Vejo por outro lado importadores e produtores nacionais reclamando do peso dos impostos. Ok, eles realmente são altos. Mas grosso modo o sobrepreço para o produto desembarcado no Brasil (imposto de importação, IPI, ICMS e PIS/COFINS) é de aproximadamente 130%, já contabilizando o efeito cascata.
O leitor pode ver na foto que abre o post – do blog TravelandBeer – uma gôndola de um Carrefour na Bélgica. Uma Chimay Grand Reserve custa lá, para o consumidor final, 3,99 euros – arredondando, R$ 10.
Aqui no Brasil, no lugar mais barato onde encontramos a mesma cerveja ela é vendida por aproximadamente R$ 44. Isso em lojas virtuais, que não tem estrutura física – basicamente é um galpão com estoque e estrutura de entrega muitas vezes cobrada à parte ao cliente.
Em lojas especializadas a mesma cerveja chega a custar R$ 70. Ora, se ao consumidor custa R$ 10 na Bélgica, para o importador sai mais barato, talvez os mesmos R$ 10 ou um pouco mais – já desembarcada no Brasil. Somando-se os impostos e a margem do importador pode-se estimar algo em torno de R$ 25 por garrafa.
Cobrar R$ 45 até vai, porque ainda tem custo de estoque, empregados, outras despesas, margem de lucro e etc – isso daria aproximadamente 80% de margem bruta estimada. Mas R$ 70?
Ressalvo que são cálculos estimados, porque nunca tive chance de ver uma nota fiscal destas. Mas pelo o que converso com gente do setor a estimativa é bem próxima da realidade.
Outro bom exemplo de como a margem está elevada neste segmento é o que algumas lojas e restaurantes fazem: se beber gelada é um preço, levando quente para casa há um desconto de 20%. Lembro aos leitores que o custo a mais para servir a bebida gelada se resume à energia elétrica da geladeira ou freezer – o serviço do garçom muitas vezes é cobrado à parte nos 10% da gorjeta.
A meu ver, claramente estes 20% são uma espécie de “margem moda”, ou seja, o preço que se paga por ser “chique” beber cerveja especial. Enquanto isso quem realmente aprecia a bebida – modestamente me incluo neste grupo – acaba tendo de se sujeitar a estas condições.
Mais um ponto que deve ser verificado é que com o aumento de consumo e de escala de compra e importação os preços deveriam baixar: maior escala, maior compra, maior poder de negociação e menor preço por unidade. Mas a evolução de preços de dois anos pra cá é bastante tímida, e observada apenas para alguns produtos.
Vi um bom exemplo disto na semana passada: um restaurante especializado no Centro do Rio comprou uma quantidade maior de outra cerveja inglesa, a “Spite Fire” (da qual pessoalmente gosto muito, recomendo). Eles fizeram uma promoção onde o preço normal de R$ 25, encontrado em média, caiu para R$ 17, desde que se levassem duas garrafas. E o preço era o mesmo quente ou gelada.
Também deve se perceber é que em muitas cervejas, especialmente as belgas, o preço da garrafa maior, de 750ml, é mais que o dobro do exemplar de 330ml. Se eu tenho uma garrafa maior ela deveria ter algum tipo de desconto para incentivar o maior consumo, mas aqui não é o que ocorre: a garrafa menor custa R$ 18, por exemplo, e a maior R$ 45.
Mais um exemplo de “margem moda”. A garrafa é mais bonita, chama mais a atenção, impressiona mais – então pode-se cobrar mais caro. Economicamente não faz o menor sentido. E olha que nem me refiro a exemplares de 1,5 litro que chegam a custar R$ 150 – quentes.
Parecido também é a mesmíssima cerveja custar em garrafa R $ 16 e em lata R $ 10, com a mesmíssima quantidade. A diferença de preço é porque as latas são menos aceitas como “qualidade” de bebida – o que, pessoalmente, considero bastante duvidoso, para se dizer o menos.
Também é curioso se perceber que o câmbio em relação ao dólar sofreu uma desvalorização de aproximadamente 20% no último ano – o que elevaria os preços de exemplares importados – mas estes ao consumidor final mantiveram-se em média constantes. Isto é sinal de que ainda há gordura para queimar nas margens e ainda assim deixar o negócio extremamente lucrativo.
A propósito, sei que as cervejarias artesanais brasileiras tem o problema da necessidade da importação de quase toda a matéria prima, mas queria entender como vários exemplares nacionais chegam a custar mais caro que ótimas cervejas importadas do mesmo tipo.
Ou então, casos como a da cerveja Colorado Vixnu (outra ótima breja, por sinal), que originalmente era mais cara porque precisava ser mantida toda refrigerada na cadeia de produção e logística devido à não pasteurização. Ok, só que a Vixnu passou a ser pasteurizada para alcançar maiores públicos e o preço continua exatamente o mesmo.
Ressalte-se, também, que as cervejarias artesanais brasileiras vivem reclamando que seu regime de impostos é diferente das grandes cervejarias, sendo mais alto. Só que toda vez que se fala em uma união entre eles a fim de fazer pressão por isonomia tributária os interesses pessoais e a vaidade falam mais alto. A causa é justa, mas sem união não se chegará a lugar nenhum.
Na verdade, minha impressão é que esta desunião vem muito do fato de que conseguem repassar ao consumidor todas as elevações de custos proporcionadas pelo aumento de impostos e outros insumos necessários.
Ao fim e ao cabo, quem deve estar errado é o senhorzinho que vende a cerveja inglesa a R$ 10 e outras a um preço bem justo. Ele não deve entender nada de cerveja…
P.S. – Abaixo, outra prateleira de preços em um mercado na Espanha. Reparem nos preços das cervejas americanas, importadas.
A tributacao atual, torna as cervejas importadas mais competitivas que as artesanais nacionais. Eu pago em
Media 63% de tributos, enquanto que uma importada paga em media 43%. A nossa legislacao é tão estranha que não podemos produzir cervejas com ingredientes especiais ( frutas, especiarias etc) , mas as as importadas podem. O governo apenas ve o mercado cervejeiro como uma otima fonte de impostos, e nao pensa em fomentar a cerveja artesanal.