Nesta coluna “Orun Ayé” de domingo, o compositor Aloísio Villar conta uma história que acompanhei de perto: a disputa de samba do Boi da Ilha para 2008.
Foi a última vez em que estive presente a uma final de samba (era dirigente da agremiação, embora não votasse na escolha) e, ao contrário do colunista, minha impressão é que a decisão foi tomada no dia. Enfim, opiniões e versões.
A doce revolta de Gaia
Semana passada escrevi aqui sobre o “fracasso nosso de cada dia”, falando que o que nos move é o fracasso e ele é mais habitual no nosso dia a dia que a vitória. Contei como foi a nossa disputa para o carnaval 2013 da União da Ilha, onde considerei como meu maior fracasso no samba: mas não foi a pior derrota, nem a mais doída.
Essa citação me fez lembrar a derrota mais doída, não só essa citação como estar sábado retrasado com alguns diretores do Boi da Ilha na entrega dos sambas concorrentes do carnaval 2013. O diretor do Conselho Fiscal Lourival Alves, um dos caras mais íntegros que já conheci no samba e um dos principais alicerces do Boi desde quando entrei na escola em 1997 sempre cita esse samba e citou no sábado.
Ele até hoje não se conforma com a derrota desse samba. Disse que o resultado foi o que mais lhe entristeceu nesse período e que não consegue esquecer.
Também não consigo e por causa disso pela primeira vez, depois de ter feito várias colunas para sambas meus vencedores, faço para um derrotado.
Talvez para dar um pouco de mídia e audiência a este samba, que realmente considero injustiçado. Sou um compositor e pessoa coerente. Entrei até hoje em noventa disputas de samba de enredo e sei exatamente quando posso vencer ou perder. Tem gente que adora dizer que foi roubada em concurso de samba, reclamar de firmas, panelas, diretorias ladras etc quando às vezes o problema reside nele.
Não sei se fui roubado alguma vez. Minha ingenuidade e crença no ser humano, além do que vi nesses concursos, diz que não e dos sessenta e três sambas que perdi apenas dois eu posso dizer que fui extremamente injustiçado.
Um é o tema de hoje e para isso volto seis anos no tempo.
Volto ao ano de 2006, quando o Boi promoveu seu concurso para o carnaval de 2007. O enredo era “alô, alô, se liga tem boi na linha”. Não vou me alongar muito porque ainda quero fazer uma coluna para esse samba, mas posso dizer que foi uma daquelas vitórias avassaladoras, acachapantes. Talvez a mais acachapante desses quinze anos de samba e com uma parceria quase imbatível para a época, formada por mim, Cadinho da Ilha, Walkir, Barbieri e Marquinhus do Banjo.
Ganhamos com extrema facilidade pelo nível de nossa parceria que compôs um grande samba e por haver apenas quatro sambas no concurso. Durante o período pré-carnavalesco por indicação minha e do Cadinho o presidente Eloy Eharaldt contratou o Cadu, compositor campeão da Mangueira em 2005 e diretor geral de harmonia do Tuiuti em 2006 para comandar a harmonia do Boi.
Cadu chegou já próximo do carnaval, um carnaval de muitos erros e dificuldades do Boi e fez o que pôde. O Boi acabou se salvando em samba-enredo da queda para o grupo C e a partir dali muita coisa mudou para o carnaval 2008.
Eloy descobriu estar com câncer e, mesmo não deixando a presidência, se afastou. Nomeou Cadu diretor de carnaval com plenos poderes para conduzir a escola e o Cadu trocou o intérprete, trazendo de volta Roger Linhares, meu parceiro nas vitórias de 2002 e 2003 e cantor da escola em 2002. Também trouxe de volta Guilherme Alexandre, carnavalesco da escola entre 1997 e 2001 e depois 2005.
Guilherme sempre foi adepto de enredos grandiosos, com grande profundidade e decidiu fazer o enredo chamado “Gaia, a reação da mãe Terra – Uma história que deve ser contada de outra maneira”.
O enredo era sobre a “teoria de Gaia” que tratava o planeta como um ser vivo que ficou doente por nossa causa e com a finalidade de se livrar dessa doença criava anticorpos pra expurgar o agente causador (nós). Esses anticorpos seriam os tsunamis, terremotos, furacões e que teríamos que fazer algo antes que o planeta morresse ou nossa raça fosse extinta.
Pelo problema ocorrido no ano anterior de só haver quatro sambas da disputa, Cadu limitou em três a quantidade de integrantes por parceria, o que nos trouxe problemas. Com essa determinação tivemos que abrir a nossa.
Marquinhus foi compor com seu primo Junior. Walkir com Djalma Falcão e Nando Pessoa enquanto eu, Barbieri e Cadinho compomos o nosso time.
Fiquei encantado com o enredo e sua explanação em vídeo e pensei que ali poderia fazer algo que sempre sonhei. Um samba mais ousado, diferente e passei essa idéia para nossos parceiros.
Cadinho era o parceiro da melodia e topou a empreitada. Barbieri letrista como eu, mas um compositor sem arrogância e totalmente aberto e acolhedor de idéias. Ele praticamente foi o autor de toda a letra do nosso samba do Acadêmicos do Dendê, que se tornou campeão naquele ano; então decidiu deixar que eu viajasse na minha loucura.
E eu viajei. Compus uma letra totalmente sem rimas que deixou o Cadinho louco e dizendo ser impossível fazer melodia. Refiz a letra colocando algumas rimas pra lhe enganar, mas mantendo a minha viagem.
Ele colocou uma melodia e fomos à casa de Barbieri nos reunir com ele e Ito Melodia que seria nosso cantor. Ali o samba nasceu.
Boi da Ilha 2008 (samba concorrente)
Gaia, a reação da mãe Terra – Uma história que deve ser contada de outra maneira
Compositores: Aloisio Villar, Barbieri e Cadinho
(Participação especial: Toninho Z10, Jair Turra e Ito Melodia)
Quando a humanidade
Ouvir o clamor que vem da mãe Terra
Espero não estar perto do fim
Senhor olhe por nós, tire essa cruz de mim
O ser vivo que moramos está doente (lágrimas)
Chora, padece, provocando reação
Para impedir o juízo final
Só o juízo afinal
Derrubem fronteiras, todos juntos pra salvar
Vamos dar as mãos na união apostar (refrão)
Cidadania é a nossa fé
Eu tenho fé
Vejam é o Sol que vem chegando
Traga boas notícias nesse novo amanhecer
Vejam, é o Sol anunciando um novo tempo
Esperança sempre teima em nascer
Esperança sempre teima em renascer
Desenvolver sustentando no ambiente
Nova história, outra maneira de contar
Quero água limpa pra beber, água limpa de viver
Meus netos conhecendo a fauna e a flora
Sonhos de um louco como eu
No meu enredo esse sonho aconteceu
Vai meu samba vai levar
Nossa voz ao mundo inteiro
Vai meu samba viajar
Seja nosso mensageiro
Gaia, quero ver você feliz
Azul mais azul na beleza das cores
Jardim do Éden voltou, obra prima do criador
E a minha escola vem cantando em seu louvor
Basta amor pra preservar mudar
O planeta no pulsar de um coração (refrão)
Basta amor pra preservar curar
Meu carnaval é emoção
Samba grande, trinta e cinco linhas. Dois refrões e um falso refrão para grupo B. Ousado, fugindo de todos os padrões atuais. Mas com essa loucura que fomos para a disputa.
Entregamos o samba e o Cadu me ligou dizendo maravilhas dele, emocionado; mas pedindo para tirar o começo da segunda dizendo que não tinha a ver com o enredo e alongava demais o samba. Argumentei que tinha a ver com a escola desfilar com o dia amanhecendo, mas aceitei a ponderação e mexemos, começando a segunda com “desenvolver sustentando no ambiente”.
Nosso palco foi formado por Ito Melodia, Igor Vianna, Cadinho e Bruno Revelação e o Boi teve quantidade de inscrições recorde nesses meus quinze anos: quatorze sambas, por vários motivos. Principalmente o excelente enredo, a limitação em três por parceria e a União da Ilha estar reeditando “É hoje” e seus compositores terem colocado samba no Boi.
Três sambas se destacaram de início. O nosso pela poesia, melodia, o do Marquinhus pela alegria e juventude do palco e correndo por fora o do Walkir com o formato mais tradicional. Os dois primeiros sambas aos poucos foram tomando ares de favoritos e até uma junção entre eles foi cogitada, mas na última semana a coisa foi pro nosso lado.
Walkir foi até a casa de Cadinho cumprimentar pela vitória no Boi e três dias antes da final recebemos uma ligação de um membro influente da escola que estava naquele instante deixando uma reunião no Leblon da diretoria. Nessa reunião nossa vitória fora sacramentada.
Com toda confiança fomos para a final no domingo, 23 de setembro de 2007. O samba do Marquinhus se apresentou e não foi tão bem, veio o samba do Magrão que estava mais para completar a final e o do Walkir.
Walkir teve problemas com os ônibus e ficou sem torcida, sozinho no meio da quadra chorando e cantando o samba. Eu, Cadinho e Barbieri por sermos amigos dele fomos para o meio dar uma força e cantar junto. Quando fomos ver boa parte da quadra se juntou ao canto.
Depois o nosso se apresentou de forma excelente.
Subi ao palco na hora do resultado recebendo parabéns de algumas pessoas, esperando por minha quarta vitória na agremiação quando veio o resultado. Cadu disse algumas palavras e pediu para o puxador oficial Roger cantar o samba campeão.
O cavaco começou a tocar e reconheci que não era o nosso. Não conseguia decifrar qual samba era e assim veio a surpresa. Era o samba do Walkir.
Fiquei zonzo na hora: uma derrota inesperada, doída. Nem a própria parceria do Walkir esperava e começaram a comemorar timidamente. Marquinhus saiu enfurecido com a derrota, Cadinho não quis cumprimentar o Cadu e foi embora, eu fiquei ali zonzo.
Recebi cumprimentos da diretoria e do Cadu, que sempre foi meu amigo e me senti traído ali e minha namorada da época me puxou pra irmos embora.
Não consegui dormir naquela noite, primeira e única vez que isso ocorreu comigo em samba até hoje. No dia seguinte o orkut do Boi da Ilha estava em guerra pelo resultado. Não escrevi nada, Cadu me ligou umas trinta vezes, não atendi. Submergi, queria ficar sozinho.
Deixando meu amor pela escola falar mais alto, no dia seguinte apareci na reunião do Boi para prestar apoio. Cadu me pediu que assumisse a presidência da ala de compositores. Assumi e assim o carnaval de 2008 do Boi foi feito.
A escola estava linda na avenida, mas o samba não aconteceu. No ano seguinte a Unidos de Padre Miguel resolveu fazer um samba pesado, de quase quarenta linhas em uma grande ousadia e ganhou todos os prêmios de melhor samba-enredo e subiu para o grupo A. Até hoje lembro ao Cadu e aos diretores do Boi que poderia ter sido conosco.
[N.do.E.: acredito que haja um pequeno equívoco do colunista, pois o grande samba da Unidos de Padre Miguel foi no mesmo 2008, onde a escola inacreditavelmente não subiu de grupo. Em 2009, inclusive, foi o próprio Aloisio Villar que conquistou o prêmio Sambanet, e o samba da aí sim campeã Padre Miguel era horroroso, para se dizer o menos.]
Cadu é um grande amigo até hoje. Respeito Djalma Falcão como ídolo, um dos melhores que conheci, Walkir é um grande sujeito e vencedor em tudo que faz, Nando é um dos meus cantores preferidos…
…mas aquele samba eu não perdia.
Até hoje considero a melhor letra que fiz e acho nosso melhor samba, melhor até que Orun Aye. Cadinho acreditou na minha loucura e fez uma melodia espetacular mostrando o imenso talento que tem, Barbieri um excelente letrista mostrou e mostra sempre que é o parceiro que todos querem ter, guerreiro, decente e talentoso e temos esse filho que não veio ao mundo, mas que nos dá grande orgulho.
Algumas pessoas alegam que perdemos por apoiar o samba do Walkir na final. Falácia. Quem entende um pouco de disputa de samba-enredo sabe que samba não é escolhido em final e escola que depois de dois meses ouvindo os sambas semanalmente na quadra ou quando quiser em Cd deixa para escolher no último dia é que algo vai errado.
Não sei o que aconteceu e nunca vou saber, penso que foi apenas um medo de ousar.
O fantasma desse samba concorrente me persegue até hoje. Nunca mais ousamos dessa forma em um samba, nunca nem cogitamos reutilizar a melodia em outro samba, nunca mais ouvi o cd e raramente cantarolo, mas ele sempre está presente.
Uma grande dor, uma grande felicidade, por mais incoerente que possa parecer porque esse samba é para mim e tenho certeza que também a Cadinho e Barbieri um grande orgulho. Ele é um dos meus maiores orgulhos no samba e como escritor, seja qual for o gênero.
Links do youtube onde pode ouvir esse nosso concorrente, mesmo não estando 100% em áudio e visibilidade.
Pedaço da apresentação da final
A vida continuou, outra disputa veio, mas essa é uma outra história. Só posso dizer que não desistimos, até porque…
… Boiadeiro tem raça, se esmera. Orun Ayé!