Em edição extra pré eleitoral, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, escreve sobre as coligações proporcionais e algo que pouca gente se atina: que votamos em partidos, não em candidatos.
Ainda os vereadores: o que ninguém gosta de lembrar
Logo depois que escrevi o texto defendendo que escolher um candidato a Vereador deveria ser algo mais simples e pragmático, descobri que a edição dominical da Zero Hora faria uma espécie de cartilha para instruir os leitores a como lidar com essa tarefa. A imprensa brasileira tem dessas coisas, a pretensão de ensinar a população a votar.
Fui lá conferir se tinha alguma semelhança com o que escrevi e não achei nada. Era o mesmo blá-blá-blá de sempre, orientando o pessoal a procurar candidatos íntegros, experientes, limpinhos, cheirosinhos, etc. E para amparar seu raciocínio, o jornal ouviu 10 “especialistas”, como cantor sertanejo ou publicitário descolado.
Para meu espanto, nem a extensa reportagem, nem os renomados “especialistas” chamavam atenção para um detalhe sutil, mas decisivo: o sistema da proporcionalidade eleitoral.
É até com certo constrangimento que explicarei algo que imagino ser de conhecimento de todos, mas, vamos lá: os vereadores não são eleitos pelos votos que angariam, mas sim pela ordem que alcançam na soma de todos os votos do seu partido ou coligação.
A  maioria da população – vá lá, a maioria das pessoas com quem convivo – conhece amplamente esse mecanismo. Afinal, não é de hoje que há Eneas elegendo Havanir ou Tiririca elegendo Valdemar da Costa Neto (foto). Todo mundo, bem ou mal, sabe que para ser eleito o candidato precisa figurar entre os primeiros de seu partido (ou coligação).
Vou até pedir licença para ser didático e citar um exemplo hipotético. Digamos que uma cidade tenha 1 milhão de eleitores e uma câmara municipal com 50 cadeiras. É dividindo o número de eleitores pela quantidade de cadeiras que se descobre o chamado quociente eleitoral, ou seja, quantos votos são necessários para que um partido conquiste uma vaga.
Só que um partido qualquer tem em suas fileiras um autêntico campeão de votos, capaz de ter 300 mil votos, sozinho.  Bom, ele garantiu 15 cadeiras, mas só usará 1. As outras 14 vão para seus colegas de partido. Normal, essa é a regra do jogo. Que a maioria de nós sabe bem como funciona, afinal estamos aí há décadas participando desse sistema.
Agora me digam: se a gente sabe que o nosso voto vai servir para eleger tanto o nosso candidato quanto os coleguinhas dele do partido ou da coligação, por que a gente não dá a mínima para saber quem são os acompanhantes daquele que escolhemos?
Eu morro de rir quando alguém diz que não vota “em partido”, mas sim “em candidatos”.
Pode até ser uma frase bonitinha, mas que revela uma ignorância profunda do nosso sistema eleitoral. Afinal, a verdade é exatamente o oposto: ninguém vota em candidato, mas sim em partidos. São esses que conquistam as cadeiras, só ao final distribuídas entre os melhores colocados de suas listas internas.
É espantoso como os brasileiros não estão nem aí para os candidatos que vêm a reboque do nosso voto. E os partidos não tem o menor pudor em aceitar as figuras mais abjetas para compor a chapa.
À exceção de partidos muito ideológicos e que por isso mesmo quase não elegem ninguém, podem conferir as maravilhosas listas de candidatos à nossa disposição. Tem intelectual misturado com analfabeto funcional, pacifista junto de miliciano, ateu colado com evangélico, humanista com defensor do “mata-e-esfola”, enfim, uma bagunça generalizada. Tem até Patricia Amorim lado a lado de Leonardo Dinamite. É mole? Vote em Patricia e eleja o Dinamite!
Por isso é que a gente olha para o baixo nível do parlamento e fica pensando quem colocou aquele povo lá dentro e não encontra uma resposta convincente. Fomos nós mesmos, com a nossa crônica desatenção com as minúcias eleitorais, com o nosso descaso com essa falta de vergonha dos partidos políticos de não deixar claro os critérios que empregaram para montar suas chapas – se é que houve critério.
Eu que já me aventurei a dar palpites em favor de uma escolha mais pragmática, sigo dando sugestões. O velho Brizola dizia que eleição não é corrida de cavalo para a gente escolher quem vai vencer. É que ele não viveu tanto para ver a degradação dos partidos brasileiros. Logo, para dar um voto mais ou menos consciente, é necessário avaliar com detalhes quem são os favoritos do partido que você vai votar, para depois não reclamar que a Mulher Pera ou a Tia do Funk chegaram lá com a sua ajuda, ainda que involuntária.
É dura a vida do eleitor brasileiro.