Que Liberdade, Liberdade – o samba de enredo de 1989 da Imperatriz Leopoldinense – é um clássico do gênero, não se questiona. A melodia sinuosa, a cadência do ritmo, emoldura uma letra que retrata os últimos anos do Império e a proclamação da República no Brasil.
Certo trecho do samba, o que nos interessa neste momento, diz o seguinte:
A imigração floriu de cultura o Brasil
A música encanta e o povo canta assim
Pra Isabel, a heroína
Que assinou a lei divina
Negro, dançou, comemorou o fim da sina…
O verso “a imigração floriu de cultura o Brasil” sintetiza uma visão, particularmente forte nas primeiras décadas da história republicana e ainda hoje entranhada no cordial racismo brasileiro, de que a chegada do europeu ao Brasil – branco e cristão – foi, sobretudo, uma aventura civilizatória. O europeu trouxe, basicamente, cultura para uma terra de bárbaros ameríndios e africanos.
O trecho seguinte do samba atribui a libertação dos escravos ao heroísmo da Princesa Isabel. A função do negro no processo foi a de dançar para comemorar o fim da sina. Dispensa comentários.
Um outro samba clássico – Martim Cererê – da mesma Imperatriz Leopoldinense (1972), diz em certo trecho:

Tudo era dia
O índio deu a terra grande
O negro trouxe
A noite na cor
O branco, a galhardia
E todos traziam amor

Além da visão do Brasil como um paraíso racial – discurso que se adequava aos ditames ufanistas do regime militar – o samba vincula o índio (terra) e o negro (noite) aos elementos da natureza. O branco entra com a galhardia – um atributo de fidalguia vinculado à ideia de civilidade, indo além do mundo natural.
Exemplos similares não faltam, e é proposital que eu use as escolas de samba – originadas entre as populações negras – para indicar a força entranhada da ideia de missão civilizatória do branco na formação do Brasil. É evidente que, no mesmo universo das escolas de samba, encontraremos exaltações vigorosas aos africanos e – em menor escala – aos índios.
Chamar a atenção para o óbvio parece tarefa redundante, mas continua sendo necessária. Não há ambiente no Brasil – e penso nas universidades, nas escolas de ensino fundamental e médio, nos meios de comunicação, na intimidade das famílias de todas as classes – em que a ideia de missão civilizatória do europeu / cristão / ocidental não esteja entranhada como metástase daninha, muitas vezes invisível, e por isso ardilosa e mais devastadora.
Somos ensinados, nos colégio e universidades, a pensar com a cabeça e os cânones do ocidente. A escola brasileira é reprodutora de valores discriminatórios e inimiga radical da transgressão necessária. Não adianta a adoção de cotas para negros e índios se o ambiente escolar continuar reproduzindo uma visão de mundo branca, cristã, européia, fundamentada em conceitos pré-concebidos de civilização que negam os saberes ancestrais e as invenções de mundo afro-ameríndias. Se até escolas de samba reproduzem, em sambas compostos por negros, estes preconceitos, imaginem o que acontece na maioria das escolas em que o samba não entra.
Reproduzo trechos de um texto em que abordei, em outra perspectiva, este assunto, a partir da minha criação dentro de um terreiro de Xambá e Encantaria (sou orgulhoso neto de uma analfabeta dotada de sabedoria – uma yalorixá):
Não existe redenção para as grandes tragédias, mas a vingança sublime e a única forma de transcendência dos homens ao desmazelo da vida é transformar a má fortuna e a dor em beleza, civilização e arte. Os meus heróis civilizadores não frequentaram bibliotecas, não discutiram a alta filosofia nas academias e universidades, não escreveram tratados iluministas, não pintaram os quadros do Renascimento, não escreveram romances, não compuseram sinfonias, não conduziram exércitos em grandes guerras, não redigiram leis, não fundaram empresas, não elaboraram tratados e constituições e não planejaram monumentos, edifícios e pontes.

 

Os homens que me civilizaram chegaram às praias do meu país nos porões infectos dos tumbeiros e foram vendidos e marcados feito gado no mercado.

 

Eu fui civilizado pelo rufar dos tambores misteriosos, pelo toque de São Bento Grande no berimbau de cabaça, pela dança desafiadora do Obá dos Obás, pelo bailado da dona do afefé – sagrado vento – e pelo xaxará do senhor da varíola, a quem reverencio e peço a calma para não estranhar o mundo – Atotô!

 

Aprendi a olhar com admiração os homens ao conhecer os dribles de Mané, a ginga de Pastinha, a sabedoria de Menininha, a força de Candeia, os versos de Silas, o miudinho de Argemiro, as esculturas de Mestre Didi, as toalhas rendadas de Tia Prisciliana, o cachimbo de Dona Eulália, o canto de Anescar, o tempero da Iyá Bassê, o lamento dos vissungos, o machado do jongo, as folhas de Ossain e os cantos de evocação de Oxupá, dindinha lua.

 

Quem me criou não tinha educação formal e não me deu o Dom Quixote, o Crime e Castigo, o Dom Casmurro, o Grande Sertão e outros tantos grandes livros que, como esses, eu li um dia e passei a amar. Quem me criou, porém, me contou das artimanhas de Exu, da flecha certeira de Oxóssi, dos amores de Ogum, das mulheres de Xangô, do tronco forte de Tempo e do pano branco de Lemba – e eu passei a gostar de ouvir e inventar histórias, no alargamento da vida.

 

Quem me criou não me levou aos teatros, não me apresentou a grandes óperas e não me presenteou com discos de sublimes sinfonias – que dessas coisas quem me criou não sabia. Mas quem me conduziu cantou, para confortar as minhas noites, sambas, toadas, jongos, afoxés, cirandas, maracatus, alujás, calangos, xibas e xotes – e eu fui apaziguando a alma com os sons do meu povo.

 

E é por isso, por essas áfricas que me fizeram como sou, que gosto da rua, do mercado, dos amigos, da gente miúda feito eu, do porre, da bola, do beijo, da troça, da raça, do sol, da cachaça, da carne, da alegria, da subversão, da insubmissão, da guerrilha, do vento, da aldeia, do mistério, da mistura, do dendê, das pernas tortas, do português torto, da língua do Congo e do pranto do banzo.

 

A tarefa é, portanto, enorme. À guisa de reflexão no dia dos professores, é com o olhar de um educador que faço estas colocações, até mesmo para que eu não perca a dimensão da função transgressora de mundos que o magistério deveria assumir como sua. A educação, afinal, está cada vez mais solapada por uma realidade em que o colégio é visto como empresa modeladora de condutas e visões de mundo, o aluno é encarado como cliente e o professor é um adestrador de gente; tocador de gado para os currais do mercado e do consumo destituído de humanidade.

A educação precisa, urgentemente, assumir a única tarefa hoje digna deste nome: Deseducar. Aos professores cabe a condução da tarefa desafiadora de deseducar as gerações. É ela que me estimula.
E já que comecei com samba, nada melhor do que terminar em samba. A dupla Didi e Aurinho mandou, em Rituais Afor-Brasileiros, samba-enredo de 1971 da União da Ilha do Governador, um recado:
Quem diria
Que o negro iria
Há tempos atrás
Ver um dia
O branco escravo
Dos seus rituais.
Que se subvertam os mundos…
Abraços

 

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