Amanhã, dia 12 de outubro, feriado da Padroeira do Brasil, a Portela irá escolher o samba enredo que será o hino oficial da escola para o carnaval de 2013.
Devido ao feriado e ao fato de que a feijoada oficial será realizada no dia 13, sábado, a final será realizada em horário alternativo: irá se iniciar às 19 horas, com o resultado previsto para algo em torno de uma hora da manhã. Pessoalmente, faria ainda mais cedo, mas achei uma boa iniciativa da diretoria da escola.
Como escrevi nos dois posts de agosto, após a primeira eliminatória, a safra de 23 sambas acabou se revelando aquém do que se poderia esperar pelo enredo. Como também escrevi naquela ocasião, o afastamento de vários dos principais compositores da disputa portelense acabou se refletindo diretamente na disputa de samba deste ano.
Temos quatro composições nesta grande final de amanhã. Já digo ao leitor que pelo menos duas delas, a meu ver, não apresentaram desempenho para estarem presentes nesta final, mas temos de respeitar o critério utilizado.
Ainda assim a Portela tem tudo para levar um samba extraordinário para a avenida. Um a um, vamos aos concorrentes, lembrando que tudo que está escrito neste post é minha opinião pessoal em cima do que vi na quadra nas duas eliminatórias a que estive presente e em demais fatores que observei.
Vamos aos finalistas, um a um.
1) Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Tuninho Nascimento e André do Posto Sete.
A parceria atual campeã (no alto em gravação das oitavas de final e acima, da semifinal), como já escrevi aqui outras vezes, conseguiu fazer uma composição ainda melhor que o espetacular samba de 2012. Remetendo à curimba e ao partido alto em sua melodia, trilha um caminho diferenciado em sua melodia. A letra descreve o enredo sem se prender à descrição da sinopse.
Não diria que a fatura está totalmente liquidada, mas a meu ver é a franca favorita à vitória, pela altíssima qualidade do samba e por suas últimas apresentações. Abaixo o leitor pode ver a letra:
“E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios
Por onde me deixo levar
Laiá
Nossa história começa por lá
No engenho da fazenda
Dos cantos de “canaviá”
Bate o sino da capela
Ôi… Que é dia de santo, sinhá
Tem mironga de jongueiro
O tambor me chamou pra dançar
Tempo rodou na roda do trem e veio
A inspiração do partideiro
Que versou no mercadão
Foi nesse chão
Que a estrela brilhou no tablado
O “madura” pisou no gramado
O malandro charmoso dançou
No pagode com outro gingado
Quando o bloco chegou
Agitou o suingue do black
E a nega baiana girou
Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia
Vai como pode quem quer
Surgiu a Serrinha imperial
Em outros caminhos para o mesmo ritual
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar
É a capital de um sonho que me faz sambar
Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar
O batuque ginga ioiô
Ginga iaiá”
2) Neyzinho do Cavaco, Flavio Viana, Charles Braga, Celso Lopes e Fadico
Este é o outro samba que pode se sagrar vencedor, embora a meu juízo com menores chances que a parceria anterior. Segundo a “rádio corredor”, na verdade a composição seria de autoria de uma das maiores firmas de samba enredo do Rio de Janeiro. Embora obviamente nada se fale de forma oficial, faço o registro do burburinho – coisas de disputas.
Além disso, seu refrão principal é muito semelhante ao de um outro samba (parceria de Marquinho Marino), que é finalista na Mocidade Independente também para 2013 e que tem os seguintes versos, bastante semelhante ao do samba em questão:
“Eu sou Mocidade e quero respeito!
São cinco estrelas bordadas no peito
Nós vamos à luta… Fazer diferente
É rock in rio… Sou a ”tribo independente”
O refrão do finalista portelense é o seguinte:
“Vinte e uma estrelas gravadas no peito
Com todo respeito, meu nome é Portela!
A majestade, celeiro de bambas !
Cantando a capital do samba”
Estão presentes duas ideias comuns, a alusão ao número de títulos “bordada no peito” e o pedido de respeito. Quem “se inspirou” em quem não sabemos, mas faço o registro.
É o samba apoiado pelo Diretor de Carnaval Júnior Scafura e pelos segmentos da escola a ele ligados. É um samba bastante convencional, com diversos clichês em sua letra, embora não seja ruim. Tem algo que particularmente me incomoda: sua melodia parece de samba da Mangueira.
Pode até sair com a vitória, em especial devido aos seus apoios políticos. Mas está distante de ser favorito – é zebra.
Passemos à letra:
“Lá… Onde o samba faz morada
Lá… Encontrei o meu lugar
Um manto azul e branco em fantasia
Riscando todo o chão de poesia
Por tão rara beleza o meu coração… Se deixou levar…
Viajo pelos trilhos do passado
De novo o coração bate apressado
Lembrando a minha escola a desfilar… E o povo a cantar…
Naquela batucada brasileira
De Paulo Benjamim de Oliveira
Ao longe ouço o som de um tambor… Quando alguém anunciou…
Madureira… Num jardim de poesia a fina flor
Dos malandros e mulatas…
Do mercado à boemia
A minha eterna mania de amor
Teatro, cinema
Tem jongo à luz do luar
Bom futebol, cerveja no bar
Um charme pra gente dançar
Na fé… Dos meus orixás
Seguindo caminhos de paz
De um povo que tem a alma guerreira
E leva o samba na veia
Império de poetas imortais
Não posso conter a emoção
Orgulho que sinto ao pisar nesse chão
Ah meu lugar! Difícil é saber terminar
Vinte e uma estrelas gravadas no peito
Com todo respeito, meu nome é Portela!
A majestade, celeiro de bambas !
Cantando a capital do samba”
3) Jurandy Santanna, Almir Lua, Dico da Portela, Carlos Alberto e Barriga
O terceiro samba da final manteve uma regularidade durante toda a disputa, sem se destacar mas também sem ter defeitos evidentes. Eu pessoalmente faria a final com apenas três sambas, mas com quatro esta composição e o samba do compositor Naldo – eliminado nas oitavas de final – disputariam a quarta vaga.
É composição correta, com uma segunda parte a meu ver como o ponto alto do samba. Mas a meu ver faz figuração na disputa.
Passemos à letra.
“Se um dia…
Um dia, esse manto azul e branco
Entrou em minha vida e me fez marejar
Conquistou meu coração, fez o povo delirar
Qual Paulo Benjamim já fez um dia
Peguei o trem da alegria fui parar em Madureira
Chegando lá, senti a força dessa gente
A raiz vem da semente, cultura, fé e devoção
Cantando fui, me embalar na batucada
Para trilhar a caminhada, sem o samba não posso ficar…
Na ginga o malandro, levou a mulata
Mercadinho virou mercadão
Teatro, cinema, mistura de raças
Tem futebol e religião
Caminhando…
Caminhando nos caminhos da folia
Vesti a fantasia e fui me acabar
Nos blocos, coretos e cordões
Pierros e colombinas
Envolvendo os salões
No carnaval…
Sem ter orgulho nem vaidade
Hoje o sonho é realidade
Portela e Império em plena comunhão
Portela…
Tu és, amor, felicidade
No samba és a majestade
Madureira sempre foi teu lugar
A minha Portela me fez viajar
O meu coração se deixou levar
Encontrei meu lugar, celeiro de bambas
Eterna capital do samba”
4) Gérson PM, Beto da Portela, Marlene Flôres, Pepita Abrantes e Marcos Glorioso
Fechando os finalistas, um samba que a meu juízo deveria ter sido cortado ainda na primeira eliminatória, dois meses atrás: o da parceria de Gerson PM.
É uma composição cuja melodia está mais para música sertaneja que para samba de enredo, o que lhe valeu o apelido de “sambanejo” nas redes sociais. A vontade que ele suscita é de se dançar quadrilha de São João e não desfilar na Sapucaí.
Sinceramente não entendo como ele está na final, ainda mais quando se sabe que o bom samba da parceria de Edson Batista, que cresceu muito durante a disputa, caiu na semifinal. Menos mal que, ao que tudo indica, somente fará número.
Vamos à letra.
“Nesta linda noite de magias
Emoções e fantasias
Bailam poesias no ar
Portela…
Minha paixão virou mania
Nesse encanto em harmonia
Deixa a águia guerreira te levar
Que amor é esse que me faz sambar?
Veste o azul e branco, você vai gostar
Vem no trem da alegria
Da senzala ao dia a dia
Nesse balanço vou me apaixonar
Assim lá vou eu…
Pelos caminhos dessa rica trajetória
A arte e a cultura dessa gente
E o comércio envolvente
Engrandecem o meu lugar
Das boêmias ao luar
Dádivas da inspiração
Recanto da coroa imperial
Reduto de bambas
E da majestade do samba
De Paulinho da Viola
Poetas e sambistas geniais
De orgulho e tradição dos carnavais
Me leva…Madureira!
Deixa o meu coração festejar…festejar!
Noventa anos de histórias
Lindas páginas de glórias
Portela faz o povo cantar”
Termino acreditando que a diretoria da escola leve para a avenida o samba da parceria de Wanderley Monteiro, por ser o melhor da disputa e ter totais condições de repetir o sucesso do samba de 2012. Outro resultado, a meu ver, seria bem inesperado.
Não poderei ir à final amanhã por estar com problemas de saúde na família, mas ao leitor que se animar a ir, um conselho: chegue cedo. De qualquer forma, sites especializados farão a cobertura em tempo real e colocarei aqui o resultado.
(Vídeos: Carnavalesco)
Óbvio que os sambas são semelhantes: tudo indica que a fonte primária seja a mesma…