No segundo texto da série sobre as eleições americanas, o colunista Rafael Rafic traça um panorama das eleições presidenciais americanas e arrisca alguns prognósticos.
Também escreverei post sobre o assunto mais perto do pleito, mas voltado à política externa – que, ao fim e ao cabo, é o que afeta diretamente a nós brasileiros.
Eleições Americanas – Parte II
Retomando a coluna de ontem, hoje falemos um pouco sobre o panorama eleitoral nos estados.
De modo geral, os estados são divididos em três grupos: os tradicionalmente republicanos, tradicionalmente democratas e os estados indefinidos (ou os ‘campos de batalha’, como os americanos gostam de chamar).
Por isso é que se diz que a eleição americana, apesar de ser nacional, na prática é localizada. Os candidatos não gastam tempo nem dinheiro em estados nos quais eles sabem que qualquer esforço não irá alterar os resultados. Com isso, as campanhas eleitorais acabam se concentrando em poucos (ou pouquíssimos) que são classificados como campos de batalha.
A classificação dos estados é fluída e de tempos em tempos muda de acordo com mudanças demográficas ou com resultados eleitorais totalmente inesperados. Mas são mudanças lentas, que demoram três ou quatro eleições para se concretizarem.
Como exemplo, tome-se o pequeno estado de Vermont. Até a década de 60, o estado era claramente republicano, tendo sido inclusive um dos dois únicos estados em que Franklin Roosevelt (D) perdeu na sua eleição consagradora de 1936. Aos poucos ele foi se “democratizando” e hoje é um dos estados mais ferrenhamente democratas.
Para essa eleição de 2012, o mapa eleitoral da CNN (quem quiser pode conferir aqui http://www.cnn.com/election/2012/ecalculator#) mostra que os estados que os democratas devem levar somam 238 delegados. Já os estados que os republicanos deverão levar somam 191 delegados.
Os estados que sobram serão os campos de batalha, com o número de delegados entre parênteses: Flórida (29), Ohio (18), North Carolina (15), Virginia (13), Wisconsin (10), Iowa (6), Colorado (9), Nevada (6) e New Hampshire (4).
Quem já acompanhou outras eleições americanas deve estar sentindo a falta da Pennsylvania na lista acima. Mas não foi uma omissão, é uma particularidade dessa eleição com esses candidatos.
A Pennsylvania é um estado rachado entre o leste liberal-citadino, bastante antenado com as posições modernas – sendo altamente democrata – e um oeste conservador-industrial, baseado fortemente na indústria de siderurgia e bastante republicano. Os dois eleitorados praticamente se equivalem e de quatro em quatro anos medem força para ver quem levará os seus 20 delegados.
Porém para esse ano temos uma particularidade. O candidato republicano Mitt Romney fez a vida comprando barato empresas em dificuldade, saneando-as, recuperando-as e depois as vendendo por um preço muito maior.
Em alguns casos, Romney chegava à conclusão de que as empresas eram simplesmente irrecuperáveis e decidia fechá-las, deixando todos seus funcionários desempregados.
Para azar de Romney, a maior parte das empresas que ele decidiu fechar foram justamente siderúrgicas do oeste da Pennsylvania, enfraquecendo o eleitorado dele no estado. É quase seguro dizer que Obama levará a Pennsylvania, retirando-a da condição de campo de batalha.
Já Ohio é o mais tradicional e mítico campo-de-batalha: o é desde que as eleições foram polarizadas entre republicanos e democratas. É um estado que praticamente serve de modelo demográfico para os EUA, tendo seus números muito parecidos com a distribuição nacional. Não a toa se diz que quem leva Ohio ganha a eleição.
O último presidente a sê-lo sem ganhar Ohio foi John Kennedy (D) em 1960. Nunca um republicano ganhou a eleição nacional perdendo em Ohio.
As eleições desse ano sempre estiveram indefinidas, por causa do peso dos estados campo de batalha, até o período das convenções. Logo após as convenções, Obama disparou com 10% de vantagem em quatro estados chaves: Ohio, Flórida, Virginia e Wisconsin. Esse resultado levaria a uma reeleição tranquilíssima para Obama, com 307 delegados garantidos.
Esse movimento foi até esperado tendo em visto o fracasso que foi a convenção republicana, com discursos insípidos, incolores e inodoros, tendo como único destaque o discurso da esposa de Romney (a única que passou veracidade em sua fala). Por outro lado a convenção democrata foi um sucesso retumbante, com discursos excelentes do casal Obama e um discurso histórico do ex-presidente Bill Clinton.
Eu até parei de acompanhar um pouco as pesquisas e já comecei a dizer aos quatro ventos que Obama seria reeleito sem dificuldades. A vantagem obtida nesses 4 estados era muito significativa para ser revertida por alguém que enfrenta o atual presidente. O problema é que eu não contava com o desastre da performance de Obama no primeiro debate.
Obama foi patético em seu desempenho no primeiro debate: inseguro, sem dizer coisa com coisa e sem responder às provocações (baratas até) de Romney, que nunca foi um excelente debatedor. Isso fez a vantagem de Obama evaporar totalmente. Todos os 4 estados voltaram a ficar indefinidos.
No segundo debate, no último dia 16, Obama voltou ao seu estado habitual: fez um excelente debate e claramente ganhou a contenda. Mas o estrago do anterior já estava feito e a performance no segundo melhorou um pouco sua situação, mas já não faz nem sombra a grande vantagem de um mês e meio atrás.
Ainda falta o terceiro debate, que já ocorreu nesta última segunda, dia 22, porém como escrevo a coluna no final de semana, não sei seu resultado.
O debate será centrado em política externa. Tem tudo para ser uma lavada de Obama, que não só domina melhor o assunto do que Romney (que praticamente já declarou guerra ao Irã em um discurso ainda como candidato), como tem idéias mais lógicas e sensatas neste ponto.
De qualquer forma, será o último grande evento antes da eleição que poderá mudar significativamente a corrida. Se entrarmos novembro com estados indefinidos, estes deverão continuar indefinidos até a contagem dos votos.
A situação atualmente nos campos de batalha está a seguinte:
- em Iowa as pesquisas convergem que Obama está com uma vantagem significativa de 6 a 8%. Já se começa a cravar vitória democrata.
- Em Wisconsin há pesquisas com sinais trocados. Algumas dão clara vantagem a Obama, outras dão empate técnico. Porém as pesquisas que apontam liderança maior de Obama são de institutos que costumam acertar resultados com maior precisão. Por isso, timidamente também já se começa a cravar vitória de Obama. No fundo Wisconsin só virou campo de batalha porque o vice de Romney é oriundo desse estado; o estado é tradicionalmente levemente democrata.
- Em New Hampshire, por ser um estado pequeno, não temos muitas pesquisas, mas as que tem dão vantagem tranqüila de 10% para Obama. É outro estado tradicionalmente democrata. Mas por causa de uma vitória de Bush em 2000 e uma vitória apertada democrata em 2004, convencionou-se a classificá-lo como campo de batalha. Obama também deve ganhar.
- Em Ohio e em Nevada, apesar de ser uma diferença pequena, de 1% a 4%, todas as pesquisas indicam que Obama está à frente. Mas a situação ainda não está definida.
- Na Virginia os números estão mudando tanto para tantos lados, que não há a menor condição de cravar alguma tendência.
- No Colorado, na Flórida e em North Carolina, não há qualquer pesquisa que dê mais de 1% de vantagem para algum candidato. A situação está extremamente dividida e o resultado só deverá ser cravado em um estágio bastante avançado da apuração na madrugada do dia 7 de novembro.
Para finalizar, como não gosto de ficar em cima do muro, ficam meus palpites:
- Em Iowa, Wisconsin e New Hampshire, como já apontam as pesquisas, ganha Obama.
- Ohio e Virginia também serão de Obama com uma diferença segura de uns 3% ou até 6%.
- Nevada será de Obama, de forma apertada, graças a uma avalanche de votos nos arredores de Las Vegas.
- Colorado também será de Obama por uma diferença ínfima de votos. Isso ocorrerá graças ao excelente trabalho de recrutamento de eleitores porta-a-porta até as últimas horas que antecedem as eleições que os democratas estão fazendo em redutos latinos do estado.
- Na Flórida, Obama ganha por uma diferença bastante pequena, o que levará os republicanos a pedir recontagem, tal qual o escândalo de 2000. Quando no raiar do dia 7 o quadro nacional mostrar a vitória clara de Obama, eles desistirão do direito de recontagem.
- Em North Carolina, Romney leva por uma diferença pequena de votos. Na verdade, North Carolina sempre foi um estado fortemente republicano, só que Obama ganhou lá milagrosamente por míseros 0,33% dos votos em 2008, no que foi o maior “roubo” de estado dos últimos 12 ou 16 anos em eleições presidenciais americanas. Por isso ele foi classificado como campo de batalha para 2012.
Se meu quadro realmente se concretizar, Obama terá ganho o direito de escolher 332 (ou 333 dependendo do segundo distrito de Nebraska) delegados, contra apenas 206 (ou 205) de Romney em uma vitória bastante tranqüila.
Tudo que falei aqui nas últimas duas colunas não esgota meus comentários sobre as eleições americanas, mas admito que a coluna está longa demais e por isso paro por aqui.
Espero que Romney vença e recoloque o Brasil no bom caminho sob a influência natural americana. Saudades dos tempos onde a CIA tirava do poder governos inimigos e metidos a socialistas como estes lulopetistas.