Nesta segunda feira, véspera de mais um feriado no Rio de Janeiro – embora eu esteja trabalhando, uma vez mais – a coluna “Made in USA”, do advogado Rafael Rafic, comenta como chegou à perfeita previsão das eleições americanas (chegando a acertar o número exato de delegados que cada candidato teria), feita aqui neste blog respectivamente dias 24 e 25 de outubro passados.
Além disso, o colunista tece críticas à imprensa local e manifesta estranheza quanto à divulgação de resultados das eleições.
Eleições Americanas: pesquisas, resultados e estranhezas
Depois de lançar em primeira mão no Ouro de Tolo os nomes de Arthur Zanetti e de Yane Marques como possíveis medalhistas olímpicos, o que se confirmou, fico muito feliz de dizer que mais uma vez antecipei ao leitor deste blog uma notícia: a do resultado da eleição presidencial americana.
Exatamente como previ aqui, Obama ganhou de Romney pelo placar de 332 x 206 no colégio eleitoral. Acertamos também o resultado em todos os cinqüenta estados americanos – inclusive os nove “campos de batalha” que, segundo a imprensa americana, estavam indefinidos.
O mais impressionante, até para mim, foi a acurácia em prever os cenários eleitorais e as diferenças de voto entre os dois candidatos. Todos os nove cenários previstos anteriormente nos “campos de batalha” anteriormente ‘foram na mosca’.
Mas como se conseguiu isso?
Sou um grande matemático que criou um programa que consegue prever o resultado das eleições?
Claro que não. Se fosse isso já estaria divulgando meu programa e vendendo vários exemplares de um livro, tal qual o Nate Silver (colunista matemático do The New York Times), que se vangloria de ter criado um software que consegue prever os resultados de cada estado americano. Ele fez isso em 2008 e repetiu a dose em 2012.
Não obstante, agora ele afirma que esse software é a Pedra de Roseta para o mundo e contem soluções para coisas completamente diferentes. Até a escolha de jogadores para o baseball e para o futebol americano.
Sou um grande analista político, um talento que a CNN está desperdiçando? Também não, apesar de adorar fazer essas análises amadoras como hobby.
Então eu apenas tive uma sorte absurda e por sorte acertei tudo? Também não.
Apenas se analisaram números, combinados com meu conhecimento das características do pensamento de cada estado. E o principal: não menti aos meus leitores sobre o que vi, tentando criar um clima de indefinição apenas para vender jornais e obter audiência.
Para explicar, mostrarei como se chegou a cada um dos prognósticos dados. Mas antes, preciso explicar dois pressupostos das análises.
Primeiro: com a exceção de New Hampshire, todos os estados ditos “indefinidos” tinham milhares de pesquisas de opinião de institutos diversos (neutros, pró-republicanos e pró-democratas) que cobriam, semana a semana, um período de 2 a 3 meses.
Segundo: as pesquisas nacionais de intenção de voto (aquelas tão propaladas que davam os famosos 48% x 48%, 47% x 47%) quase nada ajudam no estilo de eleição americana. O que realmente importa é saber quem irá ganhar em cada estado. No máximo essas pesquisas conseguem captar alguma mudança mais profunda em todo o país que, às vezes, ajudam a entender uma mudança de cenário repentina em certos estados.
Esse último pressuposto é do conhecimento geral de todos analistas americanos. Então, por que eles dão tanta ênfase a essas pesquisas nacionais? Não sei.
Mas foi justamente essa ênfase que não os deixaram enxergar o óbvio: a vitória de Obama em momento algum após o segundo debate esteve sob perigo.
Por que se diz isto com tanta certeza? Vamos à análise estado por estado.
Para começar, o mais fácil: Iowa. Todas as pesquisas lá após o terceiro debate davam uma vantagem tranqüila para Obama: entre 6 a 8%. A margem de erro das pesquisas era, em média, de 6,6%.
Não foram uma ou duas pesquisas que apontaram isso, mas nove. As TVs americanas não previram esse estado antes por duas hipóteses: puro excesso de cautela ou apenas de propósito, para manter a aura de indefinição da eleição. A CNN até parecia indicar que mudaria seu mapa eleitoral na semana final para dar vitória de Obama em Iowa, mas as atenções se voltaram para o Furacão Sandy e nada foi feito.
Wisconsin também estava fácil. Todas as pesquisas apontavam Obama na frente. Algumas por muito pouco, outras fora da margem de erro até. Só que as pesquisas que indicavam uma corrida apertada eram de institutos historicamente pró-republicanos. Todos os neutros davam entre 51 a 53% para Obama.
Ou seja, era óbvio que Obama teria uma vitória tranqüila devido à “Regra Datafolha”. Esta é aquela que diz que ‘se no Datafolha Serra está perdendo de pouco é porque ele está perdendo de muito’.
No final deu Obama por tranqüilos 53% x 46%. Mais uma vez as TVs preferiram a via fácil da “indefinição” e não prestaram atenção ao pedigree dos institutos de pesquisa.
Em New Hampshire era necessário olhar para os arredores. Como eu disse, esse era o único estado com poucas pesquisas. Quando escrevi a coluna, só tinha uma, muito antiga, dando Obama na frente por absurdos 10%.
No dia anterior da coluna, já escrita, ir ao ar, saíram mais duas pesquisas de institutos respeitados, um dando apenas 2% de vantagem e outro 5% (ambos com margem de 6%). Mas não mudei de opinião e mantive firme minha crença em vitória fácil de Obama.
Como? Simples, na falta de pesquisas precisas, precisamos olhar dados periféricos relacionados.
Primeiro: quais são a história e demografia do estado? New Hampshire é um estado pequeno, de dois distritos. Era levemente democrata que nos últimos 25 anos deu uma leve guinada para a direta e se transformou em um estado indefinido.
Segundo: como estão as outras corridas eleitorais que ocorrem no estado? New Hampshire tinha um dado interessante, pelo qual mantive minha posição.
Nas duas disputas para o cargo de deputado, os democratas estavam tranquilamente na frente e ambas as candidatas eram mulheres. Para completar, o candidato democrata era pule de dez para ser o novo governador.
Se todos os outros candidatos democratas estão bem, sendo que as duas indicadas pelos democratas para a eleição de deputado eram mulheres (um eleitorado no qual Obama sempre foi bem), é altamente provável que Obama também esteja em boa posição no estado.
Dito e feito. No resultado final foram tranquilos 52% x 46%.
Não a toa, após o fechamento das urnas, esses três estados foram os primeiros “campo de batalha” a serem cravados pelas TVs americanas.
Elas não poderiam ter feito o que se fez neste blog e cravar esses três resultados antes até das eleições? Poderiam. Por que não fizeram? Porque tiraria a aura de indefinição da eleição.
Aí partimos para a famosa Ohio. Outro estado que estava apertado pelas pesquisas, e esse aperto era real, mas totalmente previsível também. Por quê? Justamente por sua mística, não faltavam pesquisas feitas em Ohio.
Tinham mais de 35 à minha disposição, com metodologias para todos os gostos. Mas todas as 35 concordavam que Obama estava entre 1 e 3% a frente.
Não precisa ser um matemático para saber que é praticamente impossível que todas as pesquisas, no meio de tantas e tão variadas, tenham errado exatamente da mesma forma a margem de erro.
A probabilidade de isso ocorrer é menor do que ganhar na mega-sena e só seria possível por algum erro metodológico demográfico geral, o que é sabido que, graças ao excelente censo americano, não existe.
Por isso se afirmou que Obama ganharia apertado, mas com uma folga razoável de 3%. No momento em que escrevo [N.do.E.: a coluna foi escrita no início da semana passada] o resultado está 50% x 48%, mas ainda faltam 10% dos votos a serem apurados e os faltantes, historicamente, são pró-democratas. Então, no final de tudo, devo acertar a margem de folga.
A mesmíssima metodologia que apliquei a Ohio foi utilizada em Nevada, sendo que lá eu sabia que Obama teria um apoio maior na região de Las Vegas. Dito e feito.
Ela também foi aplicada, em partes, em North Carolina para prever vitória de Romney. Aqui todas as pesquisas davam vantagem de exatamente 1% para Romney. Junte-se esse resultado com o histórico altamente republicano do estado e ficava fácil cravar uma vitória republicana aqui.
Como consolo, fica registrado que pelo menos em North Carolina a CNN (sozinha) previu a vitória de Romney com quatro dias de antecedência.
Colorado, Virginia e Flórida estavam mais difíceis e eram os únicos estados (junto com Ohio até) que realmente se aceitava a pecha de “indefinidos”. Aqui realmente o que valeu mais para o acerto foi o “feeling”.
Em Colorado, percebia-se que o momento de Obama era melhor e a arregimentação de eleitores latinos estava a todo vapor.
Como em eleições apertadas momento é tudo, apostei em Obama. Ao final foi exatamente um comparecimento maior do que o esperado em Denver (onde Obama triturou por 73% x 24%) que fez Obama ganhar por tranqüilos, 51% x 47%.
Na Flórida, a disputa estava muito acirrada e este Ouro de Tolo acertou uma vez mais ao dizer que os republicanos iriam sonhar em recontagem, mas desistiriam ao ver que tinham perdido no resto do país. Foi exatamente o que ocorreu.
A eleição na Flórida mais uma vez foi uma bagunça e terminamos o dia seguinte da eleição sem saber ao certo quem ganhou lá. Porém para sorte de todos, o resultado da Flórida pouco importou.
Finalmente, 4 dias após o fim das eleições, pode-se asseverar a vitória de Obama por muito pouco a mais do que 0,5% (o máximo para haver recontagem). Os números neste momento não são finais, mas a diferença deve ficar em 0,55%.
Mais uma vez valeu o conhecimento do estado. Sabia que Obama para ganhar deveria ter mais do que 60% dos votos do condado de Miami-Dade, o maior do estado e forte reduto democrata. Como as pesquisas indicavam que Obama teria 63% dos votos lá, imaginava essa vitória pequeníssima de Obama por ter feito o dever de casa. Ao final teve 62%.
Na Virginia, sabia que graças a uma avalanche de votos nos subúrbios da capital Washington (que pertence a esse estado), Obama teria diferença folgada, de 3 a 6%. Ao fim, a “avalanche” não foi tão forte, ficou em 57% x 41%, mas o suficiente para dar a Obama os 3% de vantagem.
Por fim quero registrar um ponto que passou despercebido por todos, tanto nos EUA, quanto no Brasil.
Em todos os estados mais disputados dominados em nível estadual pelos republicanos (Ohio, Virginia, Wisconsin, Flórida e até a Pennsylvania), os votos das áreas de reduto de Obama demoraram demais para serem computados.
Não raro, eles só começaram a ser computados depois de terminada toda a apuração nas áreas interioranas, mais favoráveis a Romney. Assim, o republicano passou boa parte da apuração na frente nesses estados – para ser ultrapassado no final.
Em Wisconsin chegamos ao absurdo da CNN confirmar a vitória de Obama quando Romney ainda estava 1,5% a frente na apuração, tamanha foi a demora em se contabilizar a região de Milwaukee, reduto pró-Obama.
Em Virginia a coisa desandou de modo ainda mais vergonhoso. Com 75% das urnas já apuradas, ou seja, já bastante avançada, Romney estava 3% na frente.
Porém não havia entrado nem 10% dos votos dos tais subúrbios da capital. Quando eles entraram em peso, finalmente após 6h de encerrada a eleição, Obama virou rapidamente e com 90% apurados, ele já estava 1% na frente e a CNN estava pronta para decretar sua vitória.
O que me assustou é que quem conhece a história eleitoral brasileira sabe que foi exatamente esse tipo de manipulação que foi tentado aqui no Rio de Janeiro na eleição de 1982 para governador. O famoso “Caso Proconsult”.
Os votos da capital (que tinha mais da metade da população e era brizolista) não entravam de jeito nenhum, enquanto o interior (em tese de mais difícil apuração e mais tendente a Moreira Franco) praticamente já tinha encerrado a apuração.
De qualquer forma, se houve tentativa de manipulação, nem lá nem cá deu certo.