Nesta terça feira, o colunista Rafael Rafic em sua “Made in USA” conclui a análise comparativa entre as sinopses e os sambas das escolas do Grupo Especial para 2013.
Sambas vs Sinopses – Parte II
Continuemos a análise com as escolas que desfilam na segunda feira.
Segunda-feira
1 – São Clemente
Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo
Nota da Sinopse: 8,5
Autores do samba-enredo: Gabriel Mansilha, Nelson Amatuzzi Victor Alves, Floriano do Caranguejo, Beto Savana, Guguinha e Fabio Portugal
Com um ótimo tema e boa sinopse (porém um tanto quanto confusa e esparsa), a São Clemente foi a única escola que optou por uma fusão para 2013. Foi uma fusão clássica: 1 refrão e 1 estrofe de um samba colado com 1 refrão e 1 estrofe de outro – e alterada após a disputa.
O samba é de mediano para bom, não tendo grandes passagens. Tem apenas um refrão final que pega, mesmo não sendo uma maravilha poética nem melódica. É um samba que luta para completar a primeira metade do Grupo, enquanto a sinopse é claramente a quarta melhor do grupo.
Talvez tenha faltado um grande samba. Isso pode ter ocorrido devido à forma confusa com que as idéias foram lançadas na sinopse; ou talvez pela porcentagem absurda que a São Clemente exige dos direitos autorais dos compositores (na ordem de 60%). Mas o fato é que apesar do samba interessante não houve na safra um samba que ombreasse a nota alta obtida pela sinopse.
Resultado: samba mediano inferior a sinopse boa.
2 – Mangueira
Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho
Nota da Sinopse: 4,5
Autores do samba-enredo: Lequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalho
A sinopse mangueirense, não bastasse ser a típica sinopse CEP (louvando um lugar do Brasil), ainda foi pessimamente estruturada.
Porém, a tradicional parceria multicampeã mangueirense capitaneada pelo Lequinho, salvou a Mangueira. Típico caso que o talento do compositor tira samba de onde não tem na sinopse.
É um samba com a cara da Mangueira (cara essa que alguns queriam dar a Portela esse ano também… sorte que não foram bem sucedidos) que fica tranquilamente na primeira metade do grupo em 2013.
Não é por acaso que o samba praticamente não fala da sinopse, porque se começasse a falar demais fatalmente ficaria ruim.
Resultado: samba bom bastante superior a sinopse ruim.
3 – Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari
Nota da Sinopse: 4
Autores do samba-enredo: J Veloso, Ribeirinho, Marquinho Beija-Flor, Gilberto, Silvio Romai e Dilson Marimba
Enredo complicado e falho da Beija-Flor. Ganhou um samba normal que, se não faz parte da primeira metade do grupo para 2013, é melhor do que a sinopse e a trata com certa beleza poética em letra bastante interessante. Afinal essa era a única forma de fazer um samba competitivo na Beija-Flor, abordando o tema, mas sem ser o “pão, pão, queijo, queijo” que mataria o samba.
Resultado: samba razoável, ligeiramente melhor do que sinopse ruim. Possível interferência negativa da sinopse.
4 – Grande Rio
Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa”… “Contra a injustiça em defesa do Rio”
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki
Nota da Sinopse: 1
Autores do samba-enredo: Mingau, Deré, Junior Fragga, Mingauzinho e Arlindo Neto
Da sinopse ruim, muito ruim, longa, insossa, longa, chata, doente e quase morta, saiu um samba até aceitável.
Não é um grande samba e provavelmente fica no terço final do Especial de 2013, mas é digno de Especial, tem um refrão final interessante (alias, também se utiliza de três refrões) e é um samba até certa medida legal de se cantar.
Para o desastre que foi a sinopse (tendo comentários inclusive que minha nota 1 foi boazinha, porque o certo seria o 0) esse samba, mesmo nem sendo mediano está acima de qualquer expectativa.
Resultado: samba de ruim para mediano infinitamente superior a um enredo absolutamente desastroso. Culpa total da sinopse.
5 – Imperatriz

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro
Nota da Sinopse: 6

Autores do samba-enredo: Me Leva, Gil Branco, Tião Pinheiro, Drummond e Maninho do Ponto

A Imperatriz trouxe uma sinopse mediana ao estilo CEP. Mas a ala de compositores da Imperatriz é sensacional e faz limonada de qualquer limão.
Mais uma vez tivemos uma disputa bastante acirrada, com 4 ou 5 sambas muito bons. A escolha foi um pouco contestada, mas qualquer escolha seria tendo em vista a quantidade de sambas bons na safra (mais uma vez em Ramos).
O samba da minha preferência (e de muitos outros), um samba ousado do incansável Zé Katimba, caiu ainda na semifinal. Porém os quatro sambas finalistas também tinham apoios consideráveis e chegaram justamente à final.
Dos finalistas, ganhou o meu preferido. É um ótimo samba. Não sei se dá para classificá-lo como o terceiro melhor do ano (atrás de Portela e Vila Isabel), mas com certeza está no terço inicial do Especial.
Resultado: bom samba, superior à sinopse mediana. Influência da qualidade dos compositores.
6 – Vila Isabel
Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães
Nota da Sinopse: 9,5
Autores do samba-enredo: André Diniz, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Tunico da Vila e Leonel.
Na Vila quando se junta André Diniz, Martinho e Arlindo (já apelidados de “Galácticos da Vila”) não se tem uma competição de samba-enredo: é praticamente um samba encomendado que já se sabe que irá ganhar.

A sinopse é muito boa e foi a surpresa agradável dessa safra. O samba que o representa não fica devendo nada à sinopse. Um samba de altíssima qualidade, que disputaria com a Portela o título de samba-enredo do ano.
Mas não é esse samba que todos andam falando. Para mim inclusive é inferior ao samba da Vila Isabel de 2012, sobre Angola (de André Diniz e Arlindo Cruz), e não teria toda essa repercussão se fosse assinado por Pedro Migão e Rafael Rafic. Mas é uma grande composição, sem dúvidas.
Por fim quero registrar uma incoerência de opiniões influentes do carnaval.
Várias pessoas que incensam o samba da Vila e proliferam aos quatro cantos que esse samba levará a Vila ao título (o que não duvido, ela é a favorita do momento), são as mesmas que defendiam na Portela o samba de Neyzinho. O argumento apresentado é que pela posição de desfile da Portela, última de domingo, ela precisaria de um samba mais “para cima” a fim não deixar o povo cair.
Mas será que essas pessoas não percebem que a Vila ocupa a mesma posição, até pior, já que a Vila encerra o último dia? E será que elas também não percebem que o samba do André Diniz & Cia é até mais cadenciado e “para baixo” do que o próprio samba da Portela?
Então porque para uma o samba cai como uma luva e para a outra não caia?
Alias, se guiando por esse argumento usado em Madureira, o samba escolhido na terra de Noel nem deveria ser esse, já que existiam outros dois sambas “mais para cima” do que o escolhido em Vila Isabel.
Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos de altíssima qualidade.