Dos presentes que o meu filho ganhou até hoje, me comove especialmente o mimo dado pelo poeta Hermínio Belo de Carvalho. Por ocasião do samba de fraldas que saudou a chegada do moleque, Hermínio me entregou um pião de madeira, de rodar com barbante, e várias bolas de gude. Guardo os brinquedos como relíquias que o moleque haverá de reverenciar – depois de brincar muito – um dia. Ou será que o Dimenor desprezará, solenemente, o piãozinho cheio das poesias?
Andei pensando especialmente no presente do poeta depois de ler, dia desses, que existe forte expectativa do comércio em relação às vendas, no período de Natal, de celulares e iPads para crianças das classes A, B e C. A oferta de aplicativos para o mundo infantil já é enorme. Recentemente, uma bebezinha de menos de um ano virou febre na web por tentar usar uma revista como iPad.
De imediato, ao ver o vídeo da menininha, me lembrei do meu primeiro telefone, sobre o qual escrevi alhures. Era uma lata vazia de leite moça com um furo e um barbante que, amarrado em outra lata, permitia a comunicação entre a criançada. Acreditem os senhores que eu fazia uns latafones da melhor qualidade. Na falta da lata, é bom ressaltar, qualquer pote de iogurte, daqueles de plantar feijão no algodão, servia aos propósitos dos pequenos graham bells descalços.
Matuto, portanto, sobre os fedelhos virtuais, enlouquecidos com seus aparelhinhos e dezenas de aplicativos, e agarro de imaginar o seguinte: Será que a molecada que está pintando na área brincará ainda de cabra-cega, pique bandeira, carniça, lenço atrás, passa anel, esqueleto humano, garrafão, e quejandos ?
Tascará um dia, o menino com propensão às safadezas boas, algum beijo tímido numas bochechas rosadas durante o pêra, uva, maçã ou salada mista? Duvideodó, macaxeira, mocotó, burra velha é sua avó ! Eu, que voltei do Tororó faz tempo, lembro da parlenda.
Aos oito anos, qualquer micro-homem de classe média já está devidamente conectado; frequenta redes sociais, posta fotos digitais, escuta música em MP-4 , manda mensagens pelo celular e o escambau. É, enfim, um pingo de gente antenado com o mundo.
Na correria atual, em que milhares de pais escravizados pela lógica produtiva e acumulativa do trabalho terceirizam os filhos (entregues aos cuidados de babás-mucamas de branco, em flagrante permanência dos símbolos da escravidão que nos corroeu como povo), quem vai ensinar aos garotos que a búlica consiste em um jogo de bola de gude em que são necessários três buracos equidistantes, em fileira, num chão de terra?
Saberão, os pirralhos, que quem consegue lançar a bolinha direto no terceiro buraco – coisa de craque – pode sair matando as bolas dos outros ? Ah, minhas bolas cacarecadas…
A arte de debicar uma pipa está com os dias contados? Sempre desconfiei que é soltando pipa, tenteando outros papagaios no debique, que a gente aprende um pouquinho a arrodear a vida e driblar o desassossego. Os moleques virtuais, pelo visto, disso não saberão. Alguém há de inventar, anotem aí, um aplicativo para papagaios mortos.
Entendo cada vez menos, meus camaradas, desses tempos de delicadezas perdidas. Não sou propriamente um pessimista – e acredito de forma sebastianista nas reinvenções de mundo que os miudinhos proporcionarão aos homens. Só confesso que me bateu uma baita tristeza pela bebezinha do Ipad e, ao mesmo tempo, uma alegria quase triste de lembrar do meu telefone de lata. Funcionava que era uma beleza e eu me comunicava bem à beça.
Disso dou fé com saudade, cada vez mais. E essa saudade, feito cantiga de marujo, é daquelas que não passam [passaraio, passaraio] e nem me deixam eu passar.
Abraços

2 Replies to “PIPAS, iPADS E PIÕES”

  1. Olha, Simas, minha experiência nessa área (um de 18, um de 12) é das melhores. As crianças já nascem conectadas, sim; mas continuam curiosas e gostando de diferente. A gente passou muitos fins de semana em Maricá, com o avô de amiga do Felipe (18) fazendo pipa com os meninos, ensinando a pescar… e eles amavam. A gente viaja muito pra Guapimirim, onde um amigo querido tem casa: e lá não pega nada. Fica na boa, futebol, totó, pingue-pongue, livros…
    Isso tudo pra dizer que na minha opinião o problema é dos pais. Não apresentam, como querem que as crianças conheçam?
    Até sábado! :)

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