Retornando após curtas férias, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, conta a experiência de assistir no estádio a uma partida da NFL, a liga de futebol americano.
Em tempo: os Dolphins perderam por 23 a 16 na partida realizada no último domingo (foto).
A Onda Azul
Se o leitor veio aqui achando que eu ia falar da eleição do Flamengo, pode dar meia-volta, volver. Até falarei de futebol e posso ligeiramente tocar no assunto do Mais Querido; mas o tema aqui é futebol americano, uma das minhas paixões. Tema, aliás, que já tratei aqui em outra ocasião, mas me deu vontade de falar de novo.
Uma segunda lua-de-mel, para comemorar meus 10 anos de casamento repetindo a viagem do ano zero me deu a chance de voltar ao Sun Life Stadium, casa do Miami Dolphins. Este é um time que adora frequentar o meio da tabela para baixo, mas que ainda assim eu faço questão de simpatizar (porque torcer, de verdade, eu só torço pelo Flamengo e pela Seleção Brasileira).
Não é à toa que eu gosto do Dolphins.
O primeiro jogo que eu vi de futebol americano eu estava em Miami (na época a NFL não era transmitida para o Brasil) e Dan Marino estava no auge. Se o leitor não sabe quem é Dan Marino, por favor: vá ao Google e só depois volte. Dan Marino é uma espécie de Zico, excepcionalmente bom, mas que nunca ganhou um Super Bowl – assim como o Galinho nunca ganhou uma Copa do Mundo.
[N.do.E.: bom, Eli Manning (NY Giants), que muitos críticos dizem que não é um quarterback “de elite”, tem dois Superbowls, ambos sendo escolhido o MVP (melhor jogador, em tradução livre) da partida. Críticos estranhos, esses…]
E dessa vez eu tive a sorte de estar no Sun Life Stadium justamente no jogo mais importante da temporada.
A partida é contra o New England Patriots, o timaço da cidade de Boston onde o astro principal é o ‘Sr. Gisele Bundchen’ e que todo ano é amplo favorito a faturar o título da “chave” que o Miami disputa – e assim frear a chegada dos golfinhos da Florida aos playoffs.
Quase ninguém vai ao estádio sem estar devidamente fardado com o uniforme do time e não seríamos nós que pagaríamos esse mico indo ao jogo sem estar de verde, branco ou laranja, as cores dos locais. Custaria uma pequena fortuna comprar as camisas de jogo, então eu escolhi para mim uma estilo polo, de comissão técnica.
A Flavia, minha esposa, já tinha a dela desde a outra visita: uma espécie de réplica da camisa de jogo homenageando o demitido quarterback Chad Henne – um jogador bem fraquinho, de triste passagem pelo time. É mais ou menos como ir ao Maracanã em 2012 com uma camisa do Flamengo com o nome do Josiel ou Denis Marques, mas a Flavia não se liga nessas coisas: tirou uma foto minha na estátua do Dan Marino e desconfio que ela nem saiba de quem se tratava.
Ainda tivemos uma pequena discussão, pois o jogo começava às 13h e às 10h eu já queria estar por lá, com ela insistindo que era muito cedo. Chegamos 10h30min e foi aí que a onda azul me impressionou…
Já no estacionamento, hordas de torcedores de New England paramentados com suas camisas azuis, em suas animadas tailgates parties – literalmente, festas da porta traseira. O ritual consiste em abrir a tampa traseira do veículo e fazer um piquenique, com muita cerveja, churrasco, cachorro quente, uísque e o que mais couber.
Um pouco mais tarde, do alto do estádio, olhava um mar azul de torcedores visitantes, que aproveitaram o calor da Florida para fugir do rigoroso inverno de Massachussetts e embalar o time em busca de mais uma vitória.
Essa cena já tinha me chamado atenção no jogo a que assisti dois anos atrás, mas dessa vez foi demais. Quando eu cruzei o túnel da arquibancada, faltando 20 minutos para o jogo começar, fui cutucado por um torcedor do Dolphins incrédulo, gritando: “oh my god, Patriots fans everywhere!” (Meu Deus, há torcedores do Patriots em todo lugar!)
De fato, parecia que eu estava em uma arquibancada visitante: se contavam nos dedos os torcedores do time local. Claro que, com todos os lugares marcados e com os locais conhecendo melhor o estádio, os torcedores de Miami entram faltando 1 minuto para o jogo começar ou até depois da partida iniciada.
Aliás, a parte chata do futebol americano é que ninguém sossega: fica todo mundo andando para lá e para cá o tempo inteiro e ninguém se incomoda de ter a visão do jogo atrapalhada. Eu simplesmente deixei de ver um touchdown porque duas pessoas passaram bem em frente a mim em um momento crucial da partida, quando o correto era ficarem sentadas e esperar a conclusão da jogada. Fosse no Maracanã, daria confusão na certa.
Ainda que os torcedores de Miami, afinal, fossem a maioria da audiência, calculo que dos mais de 75 mil presentes pelo menos 20 mil eram torcedores dos Patriots.
É aí que eu me lembro do futebol brasileiro, com sua política estúpida de limitar a cota de ingressos de visitantes e sua mais ainda estúpida aura de violência que cerca o ambiente dos estádios. Ir ao jogo deve ser um lazer e não há nada mais divertido do que viajar horas e horas de avião, alugar um carro e ir a um estádio confortável só para torcer, sem risco de ser molestado ou agredido.
Essa lição a gente deveria aprender correndo. E para quem diga que isso é impossível, volto ao meu exemplo predileto: Inter x Flamengo, no Beira Rio. No dia que todos os jogos forem assim, futebol vai ser bem mais prazeroso de assistir.
Finalizando, algumas coisas que me impressionaram quanto ao jogo em si:
a) A estrutura de entretenimento do lado de fora. São muitas barracas de patrocinadores. Brinquei em uma roleta daquele estilo do Silvio Santos na barraca da Ford e um dos prêmios era uma “Sideline Pass”, ou seja, um convite para assistir a partida DENTRO do gramado. Eu ganhei apenas um brinde (pude escolher entre uma mochila, uma camiseta, um chaveiro e um álcool gel: fiquei com esse último para ajudar na hora do cachorro quente), mas pouco depois vi um cara ganhar o passe e sair vibrando;
b) A loja. Completamente lotada e dando vontade de comprar muitas coisas. Acabei comprando uma pequena bolsa, de US$ 11.00, para guardar o celular, a carteira e o tal álcool gel;
c) Os preços. Estacionamento, DO OUTRO LADO DA RUA, US$ 25.00. Cerveja, de 300 ml: US$ 9.00. Um cachorro quente pequeno e frio: US$ 3.00. Durante o jogo tive que ir a uma sucursal da loja (cada andar tem uma) comprar um boné por US$ 35.00, o boné mais caro da minha vida – o jogo foi à tarde e em arquibancada descoberta, ou seja, sol forte;
[N.do.E.: um boné oficial do Flamengo, convertido pelo câmbio, dá pouca coisa menor que este valor.]
d) O senta/levanta. Ninguém para quieto. Toda hora alguém vai ao banheiro ou vai lá fora lanchar. O jogo é só um detalhe;
e) A diversidade. Embora o público seja preponderantemente masculino e adulto, tem muita mulher, muita criança, muito idoso.
f) A tal tailgate party. O outro jogo a que fui cheguei meio em cima da hora e era à noite. Nesse pude ver a quantidade de gente que se reúne no estacionamento. Os caras montam barracas imensas e ficam completamente embriagados antes do jogo começar (até para economizar na cerveja lá dentro). Da próxima vez, vou comprar um isopor e fazer o mesmo: beber cerveja lá fora.
O que eu acho mais impressionante do boné a US$ 35 é que no futebol americano tal item não faz parte do uniforme oficial de jogo.
Como comparação, semana retrasada comprei na loja da MLB na internet um boné oficial de jogo do Yankees (no baseball o boné faz parte do uniforme obrigatório de jogo) por US$ 34…
Onda azul no Brasil é só na ARENA DO GRÊMIO!!!