Nesta terça feira, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, versa sobre a recente inauguração da nova Arena do Grêmio e levanta algumas questões importantes sobre o estádio.
Arena do Grêmio: onde estão as rotas de fuga?
Não foi de caso pensado, mas dei sorte: não estava em Porto Alegre quando o Grêmio inaugurou seu novo estádio. Eu já tinha escrito um texto, faz muito tempo, elogiando a ousadia do clube e não custa repetir: ficou lindo, espetacular, maravilhoso. De babar de inveja mesmo.
É melhor ir deixando isso bem claro desde o início, porque eu tenho um monte de amigo gremista que me honra com a leitura ocasional ou mesmo habitual aqui no Ouro de Tolo – e não tardaria a aparecer um mais afoito a dizer que é inveja de flamenguista sem estádio.
Só disse que dei sorte de não estar na cidade no dia da inauguração porque simplesmente não se falava de outra coisa, no rádio, na TV, no elevador do prédio e na fila do supermercado. Um fim de semana monotemático a martelar minha cabeça. Se eu ainda fosse colorado, tudo bem: poderia dizer que era o caso de esperar mais alguns meses e desviar do assunto. Mas simplesmente eu não tinha o que dizer.
Inveja? Tenho sim, tenho muita. Queria mesmo um estádio igualzinho àquele para batizar de Arena do Urubu e tirar muitas fotos para mostrar para meus netos, provando que estive lá no dia da inauguração.
Mas meu ponto aqui é outro. É meu dever tocar nesse assunto chato em plena festa.

 

Do locutor que narrava a transmissão aos comentaristas da mesa redonda no rádio só se ouvia uma coisa: é um estádio de “primeiro mundo”, com um forte sotaque europeu, uma Allianz Arena riograndense. Tem até freeway ao lado: o estádio fica nas margens de uma rodovia que os portoalegrenses modestamente chamam de freeway, ainda que a velocidade média ali não passe dos 50km/h. Isso quando se dá a sorte de não estar engarrafado.
Essa fixação tupiniquim pelas coisas do além-mar, sabemos todos,  vem de longe, desde a época que Cabral trocou o ouro dos índios por uns espelhinhos. Mas já passou um pouco da hora de tanta bajulação ao velho mundo – até porque aqui pertinho de Porto Alegre, na cidade de La Plata, os hermanos construíram um estádio municipal fantástico e que nessa hora ninguém cita, porque não deve pegar bem colocar ‘aceituna’ na empanada sul-americana.
O que ninguém gosta de lembrar, contudo, é que o caderno de encargos da FIFA não vai além do cimento e da argamassa. O comportamento do público e da população que fica do lado de fora, infelizmente (ou, por outro lado, felizmente) ainda não foi regulamentado.
E é justamente aí que a porca começa a torcer o rabo.
Eu já estive em uma boa amostragem de estádios Brasil afora seguindo o Mengão e posso garantir que o jogo de maior risco para os rubro-negros é contra o Grêmio em Porto Alegre. Não que as organizadas do Grêmio sejam mais violentas do que as dos outros times, mas simplesmente porque no RS praticamente não há torcedores do Flamengo. Evidentemente, falo isso quando comparado a outros estados do Brasil onde reinamos,  mas fica a ressalva de que mesmo aqui somos maioria entre os times de fora.
Logo, as poucas centenas de flamenguistas que insistem em apoiar seu time no Sul viram uma presa fácil para os vândalos de plantão. Graças ao apoio da Brigada Militar (que é como os gaúchos chamam a PM), conseguimos construir uma alternativa viável: uma pequena rua em frente ao portão de visitantes do Olímpico era interditada para o estacionamento dos nossos veículos.
Um caminho alternativo nos permitia afastar do tráfego habitual e só nos encontrávamos com os torcedores locais, já distante do estádio. Tudo que a polícia precisava fazer era garantir que pelo menos a gente pudesse atravessar a rua em relativa tranquilidade.
As fotos deste post mostram que mesmo essa mera travessia ocorria sob um clima de tensão permanente, pois logo atrás da barreira de policiais, uma multidão tricolor provocava e só era contida à base de armas que disparam balas de borracha.
Dentro do estádio, ficávamos protegidos em um setor específico, separado por grades e com uma lona a impedir que uma torcida visualizasse a outra. Houve um ano onde esqueceram de colocar a lona e as provocações só pararam quando prenderam os mais exaltados de cada lado – aliás, no nosso lado prenderam dois colorados e do lado deles, um botafoguense.
Tudo isso para um mero jogo de futebol, onde a torcida adversária sequer tem um histórico de enfrentamento com os visitantes…
Só que na nova Arena tudo promete ser ainda mais difícil. O entorno do estádio é uma favela de proporções razoáveis e aparência miserável. É o cenário perfeito para o chamado “ataque”, que são ações planejadas pelas “linhas de frente” das torcidas organizadas – com o objetivo de roubar camisas e bandeiras dos rivais e espancá-los. Se for fácil armar uma emboscada e se esconder em ruelas no meio da favela, então estejamos preparados para o pior.
Mas o que realmente me preocupa é a parte interna.  Ainda não estive lá, mas em todas as fotos que vi não encontrei grades ou separação física de setores. Eu sei, na Europa não tem. Mas lá ninguém é molestado de forma tão acintosa pela torcida local – ou, quando o é, dá-se um jeito de isolar os visitantes.
Como será na nova Arena? Vamos ficar ali, sentadinhos, protegidos apenas por uma barreira humana de alguns policiais?
Não custa lembrar que mesmo no dia da festa da inauguração, o pau cantou feio lá no meio das organizadas do Grêmio (foto ao final do post), que ganharam um espaço privilegiado e exclusivo para elas, desenhado sob medida para seu jeito de torcer. O que não os impediu, contudo, de retribuir a gentileza provocando uma pancadaria generalizada. Se fazem isso em dia de festa e entre eles, o que farão conosco em um dia de disputa para valer?
Portanto, ao mesmo tempo em que parabenizo toda a comunidade gremista pelo magnífico estádio, humildemente peço a colaboração dos amigos para que mandem para nós um detalhado mapa com rotas de fuga bem demarcadas.
Os flamenguistas do Sul agradecem.

(Fotos: acervo pessoal do colunista e RBS)

3 Replies to “Bissexta – "Arena do Grêmio: onde estão as rotas de fuga?"”

  1. Walter, ontem estive lá no Jogo Contra a Pobreza, dos amigos do Ronaldo e os amigos do Zidane. O Estádio é muito bom, embora ainda falte conhecimento e capacidade de gestão para os índios da américa do sul saberem operar e entender para que servem algumas coisas.

    Por exemplo, porque existe corredores entre as cadeiras? Para sentar? Porque tantos bares, se continuam AMBULANTES suados andando entre as cadeiras? Orientadores/Stewards devem usar roupas discretas e ocultas ou coletes reluzentes e fáceis de localizar?

    Desafios a serem superados.

    O ponto que tu aborda ainda é uma incógnita. Não tivemos jogos com visitantes na Arena. Entretanto, acredito que há como canalizar os visitantes para um portão específico. Mas isso é gestão, organização, orientação… coisa que a Arena ainda está MUITO fraca, como qualquer estádio do Brasil.

    De repente, os carroceiros conheceram o automóvel, mas ainda não sabem dirigir.

    Abraço.

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