Nesta quarta feira, a coluna “História e Outros Assuntos”, do Doutorando em História Fabrício Gomes, traz um pouco do centenário de Luiz Gonzaga, o “Gonzagão”, efeméride completada neste mês de dezembro.
“100 anos de Gonzagão – o Rei do Sertão”
Neste ano de 2012 festeja-se o centenário de Luiz Gonzaga, um dos artistas mais populares da nossa história. “Gonzagão” representou a síntese da cultura nordestina, e principalmente dos milhares de imigrantes que se deslocaram em paus-de-arara para os grandes centros econômicos do Brasil – mais especificamente o eixo Rio-São Paulo.
“Gonzagão”, “Lua” – como era carinhosamente chamado por amigos e familiares, “Rei do Baião”, “Rei do Sertão”… São inúmeros os apelidos e denominações para o artista que enfrentou preconceitos ao longo de sua trajetória e fez de sua história de vida a sua trilha sonora particular.
“Minha vida é andar
Por esse país
Pra ver se um dia
Descanso feliz
Guardando as recordações
Das terras por onde passei
Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei…”
O pernambucano de Exu viveu momentos distintos, desde a infância pobre, até chegar às paradas de sucesso.
Viveu momentos de alegria, decepção – com a morte da primeira esposa, vítima de tuberculose – e apreensão, como toda história de vida que se preza. Se não teve a merecida reverência já no final de sua vida, em 2012 ganhou destaque na mídia – com toda a justiça.
Houve filme, biografias, programas de TV, documentários e até uma inesquecível homenagem traduzida em samba: foi o enredo campeão da escola de samba Unidos da Tijuca. “O Dia Em Que Toda a Realeza Desembarcou Na Avenida Para Coroar o Rei do Sertão” (vídeo ao alto do post).
“A minha emoção vai te convidar
Canta Tijuca vem comemorar
“Inté Asa Branca” encontra o pavão
Pra coroar o “Rei do Sertão”…”
As canções de Luiz Gonzaga do Nascimento, nascido em Exu, sertão de Pernambuco , em 1912, mostram apenas uma parte da personalidade do músico apelidado de Rei do Baião – ele gravou mais de 200 músicas em toda sua carreira – e que se tornou uma das mais importantes e inventivas figuras da nossa música popular brasileira.
O folclore transcendeu suas particularidades de tal forma que praticamente apenas o artista acabou por ficar conhecido, obliterando o cidadão – numa época em que a mídia ainda não se preocupava com a vida privada dos famosos e os quinze minutos de fama ainda não eram via de regra na sociedade.
O produto final de sua “vida” e obra acabaram reduzidos, de forma minimalista, ao sertanejo que sente saudades da terra natal, ao retirante que vai para a cidade grande em busca de melhores condições de vida – muitos fugindo da seca, das disparidades existentes no Brasil de dimensões continentais.
Em “Gonzaga: de pai pra filho”, mais uma vez o cinema acolhe o gênero biográfico. E o faz de modo competente, cumprindo o papel que deveria ser o de toda biografia e cinebiografia que se preza: mostrar a vida e a obra de personagens como eles de fato foram, sem os perigos daquilo que Pierre Bourdieu chamou de “ilusão biográfica”. Esta é a armadilha que geralmente os biógrafos – e nesse caso do cinema, os diretores – caem ao tentar contar a história de uma vida de forma coerente e linear – com início, meio e fim, como se os biografados “surfassem” numa superfície sem obstáculos.
Eles podem também incorrer no erro do ‘feitiço das fontes’ que são pesquisadas para suas obras, ou seja: deixarem-se levar pelo material artístico produzido pelas personagens analisadas e imaginarem seres perfeitos, sem problemas cotidianos, que navegam em águas claras e calmas.
Na tentativa de propor sentido e coerência a uma vida, escritores e diretores deslizam na utopia biográfica – conceito desenvolvido pelo sociólogo Jean-Claude Passeron – e inevitavelmente derrapam no clichê e apenas na verdade – e não na sinceridade.
E onde entra o indivíduo comum?
“Mandacaru
Quando fulora na seca
É o sinal que a chuva chega
No sertão
Toda menina que enjoa
Da boneca
É sinal que o amor
Já chegou no coração…”
Entra nesta cinebiografia, cujo maior mérito é expor a figura humana de Luiz Gonzaga: à diacronia e sincronia de sua personagem, suas tensões e contradições – num movimento pendular ocorrido todos os instantes no filme, suas fraquezas, suas decepções, seus medos e anseios – ingredientes fundamentais para todos que se propõem a escrever (ou filmar) uma biografia.
Algumas vezes, mesmo encontrando esses elementos em alguma obra biográfica, é muito difícil que eles sejam expostos de modo que não fuja ao pastiche, à sacralização do personalismo (principalmente quando o biografado ainda é vivo) e às dificuldades pasteurizadas. Como, por exemplo, se faz a abordagem do nordestino que é oprimido pela fome e seca e vem tentar a vida nas grandes metrópoles.
Em “Gonzaga: de pai pra filho”, o tratamento dado à trajetória de “Gonzagão” é louvável e meritosa. O filme apresenta o artista, mas vai mais fundo: apresenta o humano. O ponto central da narrativa é justamente a relação conflituosa com o filho – Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior – o “Gonzaguinha”. Uma relação de tensões e distensões que permearam praticamente toda a existência de ambos.
A ponto de ambos perderem, em certo momento do filme, suas referências – como pai e como filho. Ambos se detestam. Ambos se desconhecem. Mas ambos se amam. Sem dúvidas, um formidável cardápio para a psicanálise moderna, não é mesmo?
“Quando eu voltei lá no sertão
Eu quis mangar de Januário
Com meu fole prateado
Só de baixo, cento e vinte, botão preto bem juntinho
Como nêgo empareado
Mas antes de fazer bonito de passagem por Granito
Foram logo me dizendo:
“De Itaboca à Rancharia, de Salgueiro à Bodocó, Januário é o maior!”
E foi aí que me falou meio zangado o véi Jacó:
Luiz respeita Januário
Luiz respeita Januário
Luiz, tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso
E com ele ninguém vai, Luiz
Respeita os oito baixos do teu pai
Respeita os oito baixos do teu pai..”
Por sinal, a narrativa é recheada de idas e vindas, o que é muito saudável para a proposta de expressão de um trabalho biográfico. A cronologia – nascimento, infância, maturidade artística e morte – é desprezada.
A proposta do filme é promover o acerto de contas entre pai e filho – justamente o clímax da narrativa. O diretor e roteirista fazem isso com perícia e exímia pontualidade e coerência, sem tornar a história rápida ou arrastada. Não existem heróis ou vilões, apenas pessoas comuns, detentoras de sucesso, mas que ao saírem das luzes da ribalta se transformam e deixam a fama de lado. Não há demérito em promover o resgate do consenso entre os dois, já que a reconciliação de fato existiu. Mas até que isso fosse apresentado ao público, foram mostrados os íngremes itinerários percorridos pelos dois.
“Até mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Então eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração…”
O legado deixado por ambos é irretocável. Parte da história do Brasil é pontilhada em suas obras e histórias pessoais – o pai participou da Revolução de 1930, foi mais um no fenômeno migratório do Nordeste-Sudeste e viveu o terror do banditismo social imposto por Lampião. Por seu turno o filho cantou e decantou o Brasil que sofria com a ditadura civil-militar, tornando-se uma das figuras exponenciais na luta pelos direitos humanos e pelo fim do regime de exceção. Dramas e conflitos pessoais que tornam esta cinebiografia elogiável.