É com alegria que informo aos leitores que, a partir de hoje, nosso espaço tem uma nova coluna. É a “Lacombianas”, assinada pela jornalista Milly Lacombe (foto). Aqui Milly vai escrever tudo aquilo que gostaria de escrever em sua profissão, sem filtros de quaisquer espécies.
A coluna terá periodicidade mensal, sempre na primeira quarta feira do mês. Na estreia a colunista fala de forma didática sobre a homossexualidade e desmistifica os preconceitos sobre o tema.
Em tempo: o fato de ser religioso não significa necessariamente que se adote uma posição de homofobia. Tiro pelo meu próprio exemplo, que tenho minha religião e defendo os direitos dos homossexuais, como vários posts neste espaço. Tolerância, igualdade e democracia estão acima de tudo.
Passemos ao texto de estreia. Seja bem vinda!
Ser ou não ser
Não faz muito tempo que ser gay é considerado normal.
E, a bem da verdade, é ‘normal-normal’ apenas em lugares como Dinamarca, Suécia, Noruega… Ou seja, no mundo desenvolvido, aquele sem disparate na distribuição da riqueza, aquele com maior qualidade de vida, maiores índices de educação, menores índices de mortalidade infantil etc etc. Essas são, ainda como constatação, nações com pouco apego a cultos religiosos. Esse tipo de observação deveria pesar para que soubéssemos nos posicionar a respeito das mais variadas causas – a gay entre elas. Mas não funciona assim.

Vejamos então o outro lado.

Em países como Uganda e Irã, por exemplo, a homossexualidade, além de ser vista como anormal, ainda pode levar à morte pelas mãos do Estado. Ou seja: morte legalizada, por mais estapafúrdio que o conceito soe. O sujeito é executado por amar alguém do mesmo sexo que ele. Não por odiar, não por torturar, sequer por roubar. Morre porque ama.

Essas são, não custa lembrar, nações extremamente religiosas, além de desiguais e pouco desenvolvidas, humanitariamente falando.

Não por acaso, aqueles que usualmente apoiam esse tipo de execução são quase sempre os mais apegados aos livros sagrados, os que mais sentem direito de falar em nome de Deus e de citar sua bondade divina que é, na visão de  alguns, capaz de punir com o apedrejamento, o fuzilamento ou o enforcamento, dependendo do deslize cometido.
Mas – eles se apressam em lembrar – esse Deus punitivo e vingativo ama você. Você, no caso, são os heterossexuais, e, de preferência, do sexo masculino. Um Deus exigente, esse deles.

Também digno de nota que muitos dos que difundem o preconceito são os mesmos que norteiam suas vidas pelos livros sagrados. Atenção, atenção para que vocês não caiam na tentação de me interpretar mal. Não estou dizendo que todos aqueles que acreditam nos livros sagrados consideram a homossexualidade uma aberração. Estou dizendo que quase todos aqueles que consideram a homossexualidade uma aberração acreditam nos livros sagrados.

E estou falando dos livros que muitos usam para vociferar regras supostamente vindas do céu. Livros que os perpetuadores da intolerância abrem, apontam e cantam passagens para tentar assim provar que ser gay não é normal.
Entretanto, esquecem-se de mencionar que os mesmos textos dizem que é permitido vender a filha como escrava (Êxodos 21:7), que aquele que trabalha aos sábados deve ser morto (Êxodos 35:2) e que quem apara a barba pode ser assassinado (Levíticos 19:27) – para citar apenas três das lições que os livros contêm.

São esses homens, também, que pregam que o enorme perigo da homossexualidade é que ela pode ser doutrinada, em histórica e exuberante demonstração de ignorância. Até porque, seguindo esse raciocínio, se é possível doutrinar a homossexualidade, também é possível doutrinar a heterossexualidade, e, sendo assim, todo o “problema” está resolvido.

A ignorância a respeito do tema ainda está tão escandalosamente difundida que há semanas, aquela que é (só Deus sabe como) a revista de maior circulação do Brasil publicou artigo assinado por J.R Guzzo comparando gays a cabras e espinafres. Da última vez que a mesma revista resolveu misturar mundo animal e mundo vegetal ela alcançou o Boimate, um dos maiores micos jornalísticos da história. Mas, não contentes em errar grosseiramente uma vez, decidiram fazer de novo – e agora envolvendo os gays.

É esse o exército de homens brilhantes que sai por aí pregando o preconceito.

Infelizmente, ainda estamos mais para Uganda do que para Dinamarca em centenas de aspectos. Muito graças à bondade de [bispos como] Crivellas – que Dilma, esquerdista histórica, fez o favor de colocar em seu Governo como Ministro da Pesca – e Malafaias.
E já que citamos a presidenta, façamos um desvio para dizer que esquerdista nenhum poderia dar as costas à causa gay, como ela fez em nome de acomodações políticas. É uma pena que uma mulher como ela, cuja jornada humana emociona, tenha nos abandonado. Mas é assim, sozinhos, que seguiremos, usando o que temos (que é o amor) para lutar contra o preconceito e a intolerância.

Faz parte da luta educar o mundo a respeito de quem somos.

Antes de mais nada vale definir alguns conceitos que ainda causam confusão. O de opção sexual, por exemplo.

Opção sexual não existe. O que existe é orientação sexual. Não fazemos uma opção por gostar de alguém do mesmo sexo. Não é que um dia eu acordei e disse: “hoje vou gostar de mulheres”. Do mesmo modo que um heterossexual não opta por se sentir atraído por alguém do outro sexo, como no almoço opta pelo PF de frango em vez do PF de peixe.

Mas claro que é conveniente para alguns continuar falando opção. Porque se a homossexualidade é uma opção basta que esse ou aquele optem pelo que eles consideram correto. Como pode ser mais simples do que isso?

Da mesma forma que opto por passar as férias em Recife e não em Natal posso optar por transar com homens e não com mulheres. Não seria mais fácil?
Minha mãe jamais teria me discriminado, eu jamais teria sido vítima de preconceito e viveria feliz para sempre ao lado de um homem, ainda que eu não conheça nenhum heterossexual que esteja vivendo feliz para sempre – simplesmente porque a experiência humana é dolorosa.

Por causa daqueles que acreditam que a homossexualidade é um desvio, e, com um microfone em mãos, propagam sua verdade, existe por aí um monte de filho de Deus se obrigando a fazer sexo com quem não deseja. Ou vivendo uma vida dupla. 
Ou, no papel da celebridade, tendo que se acovardar e mentir a respeito da própria orientação sexual. Por causa deles, há mulheres que transam com seus maridos sem saber que horas antes ele estava numa sauna gay, ou na cama de um travesti, dando vazão à sua orientação antes de chegar em casa e optar por fazer sexo com ela.

Por causa deles, e daquilo que eles pregam, conheço mulheres que são casadas com homens e quando fecham os olhos à noite se imaginam deitando com outras mulheres. Em que tipo de prisão essas pessoas vivem? O que pode ser pior do que deixar de se tornar quem nascemos para ser, de viver o que temos que viver, de amar quem devemos amar?

Mas, cedo ou tarde, a orientação vence o duelo com a opção. Simplesmente porque a orientação é uma verdade, e a opção é uma mentira. A orientação é o natural; a opção é o artificial.

Outro equívoco comum é dizer “homossexualismo”. O sufixo ismo denota doença (“autismo”, “tabagismo”) e não deve ser usado porque, como já está estabelecido pelo mundo são e desenvolvido, ser gay não é doença.
Por isso o correto é usar “homossexualidade”.

Daqui a centenas de anos, quando a humanidade tiver conseguido evoluir espiritualmente, o período no qual foi legal discriminar e condenar o amor entre pessoas do mesmo sexo será visto como hoje vemos a vulgaridade e a barbárie da Idade Média. Daqui a muitos anos entenderemos que a doença não é a homossexualidade, mas a homofobia, que, aí sim, poderá ganhar o sufixo “ismo”: homofobismo.

Até lá, ainda haverá muitos gays que serão assassinados e mutilados e torurados e agredidos apenas por preferirem fazer sexo com alguém do mesmo gênero. Serão castigados sob a chancela de um Deus punitivo e vingativo e diabólico que em nada se parece com a verdadeira luz, aquela que um dia recomendou as duas maiores lições que já recebemos – a de que não devemos fazer aos outros aquilo que não queremos que façam a nós mesmos e a de que nos amássemos uns os outros.

Uma pena que precisemos passar por isso para sair do outro lado maiores e melhores. Mas, se já enfrentamos a escravidão, o holocausto, dizimações étnicas das mais variadas, sexismo etc etc etc e ainda não nos eliminamos por completo , então podemos supor que uma hora todo o tipo de preconceito cessará e aprenderemos a nos amar e respeitar pelo que somos e sentimos.

Aos poucos, e a custa do assassinato de muitos bravos e pioneiros, o ser humano se convence de que a Terra não é o centro do universo, e aí, séculos e séculos depois de queimar quem ousou pensar, ser e agir diferente, a Igreja pede desculpas. 
Foi mal aí. Até a próxima.