Texto originalmente escrito em 2007, revisto e atualizado. Com ele inicío minhas homenagens ao gênio do Araripe no mês do centenário.
Em Exu, no sopé da serra do Araripe, nasceu, no dia 13 de dezembro de 1912, o brasileiro Luiz Gonzaga do Nascimento. É impossível não se ter o velho Lua como referência quando se vem de uma família nordestina, o que é o caso deste escriba.
Não fui criado pelos meus pais; desde os quatro anos morei com os avós maternos. O meu avô, o velho Luiz Orlando Grosso, é do Recife. A avó, Mãe Deda, veio ao mundo nos confins das Alagoas, na pequena cidade de Porto Calvo, terra de um certo Domingos Fernandes Calabar, e foi miudinha ainda para Pernambuco.
Os dois deixaram o norte no início dos anos cinquenta, com três filhos pequenos (minha mãe, nascida no Recife, estava nessa ). Meu velho foi funcionário de um aviário em Olaria, vendedor de enciclopédias e, já aposentado e sem um puto no bolso, trabalhou como uma espécie de faz tudo para um figurão da Beneficência Portuguesa. A avó – filha de santo de Mãe Zefa do Xambá – abriu um terreiro na Baixada Fluminense e viveu literalmente em função de seus orixás e encantados.
O mais impressionante é que, depois de quarenta anos por essas bandas de cá, os dois ainda tinham um sotaque arretado, como se tivessem deixado o Nordeste velho de guerra no dia anterior. Não me parece que tenham criado um amor especial pelo Rio de Janeiro. De vez em quando viviam uma espécie de banzo do Recife e, por conta disso, eu cresci indo aos domingos à Feira de São Cristovão, com um sol da moléstia queimando meus miolos.
Um dia meu avô ficou doente. Foi desenganado. A velha, malandra, resolveu rapidinho cantar pra subir e partiu primeiro para a ancestral Aruanda, sob a proteção e ao encontro de seus orixás e caboclos.
Quando meu avô soube da morte da companheira de mais de meio século, fez dois pedidos que me pareceram inusitados (hoje compreendo perfeitamente) : Ouvir o hino do Sport Clube do Recife e um baião de Luiz Gonzaga. Coloquei as músicas. Ele chorou, sorriu e, tenho certeza, passeou com a namorada – moça bonita – pelas ruas do Recife de Manuel Bandeira, Carlos Pena Filho e Capiba. Foi embora três meses depois.
A música de Gonzaga que o meu velho escutou – para celebrar o amor, a vida, a terra e a saudade das alegrias – foi essa:
Abraços
Lindo, lindo texto.
E, sobre sotaque… meus pais saíram do Recife quando casaram: em 64. Mas o sotaque veio e foi com eles pela vida, ao sabor dos lugares variados onde moraram. O sotaque veio e ficou, que eles trouxeram pra não esquecer.
impossível não me identificar: sou de Recife, moro no Rio há 5 anos, simpatizo com o candomblé, sou Sport, choro quando passo carnaval no Rio e, claro, não perdi nem perderei o sotaque.
obrigado,
Alfredo
impossível não me identificar: sou de Recife, moro no Rio há 5 anos, simpatizo com o candomblé, torço pelo Sport, choro quando passo carnaval no Rio, adoro Gonzagão e, claro, não perdi, nem perderei, o sotaque.
obrigado,
abraço,
Alfredo