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Nesta quarta feira, a coluna “História e Outros Assuntos”, do Mestre e Doutorando em História Fabrício Gomes, faz uma resenha da biografia de Carlos Marighella, que assumiu a luta armada e foi assassinado pela ditadura militar.

Aproveito para fazer um protesto. Estive vendo recentemente a série de programas do canal Espn sobre como as ditaduras militares se aproveitaram do futebol para alcançar seus objetivos – inclusive Pelé aparece como “dedo duro” no episódio brasileiro. Comparando o que ocorreu depois nos outros países da América do Sul e o que houve aqui, fica claro que a nossa Lei da Anistia foi uma vergonha: nenhum dos torturadores oficiais e assassinos daqueles tempos foi sequer incomodado.

Passemos ao texto.

Carlos Marighella, o brasileiro que não teve tempo de ter medo

“Para fazer a política convencional, distribuir material e se reunir às escondidas, prefiro vender gravatas” 

(Carlos Marighella) 

Em um ano onde afloraram inúmeras biografias de personagens importantes da nossa História do Brasil – fato que colabora para a idéia de que o gênero biográfico está cada vez mais na moda, “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo” (Companhia das Letras, 733 páginas), escrito pelo competente jornalista Mário Magalhães vem brindar o público com a história de um baiano, filho de um ferreiro italiano com uma negra nascida nove dias após a Lei Áurea, e que foi peça fundamental no entendimento do processo histórico da esquerda brasileira.

A trajetória de Carlos Marighella se confunde com a história de nosso país em diversos períodos, em contextos distintos, tornando o personagem indissociável, portanto, da tessitura orgânica das lutas empreendidas contra regimes ditatoriais. 

Esta biografia difere das distintas abordagens sobre Marighella que tivemos conhecimento até hoje.

Entre os tantos pontos positivos que a obra de Mário Magalhães nos apresenta está o fato da não mitificação do personagem. E isso fica bem claro na proposta que o autor faz ao leitor: não quer fazer hagiografia – em tempos de Comissão da Verdade, isso poderia ser utilizado de forma oportunista por qualquer escritor. O ritmo da narrativa também pode ser considerado fator extremamente positivo: não se trata de uma história cronológica, idealizada, linear – o que é difícil para o jornalista comum obedecer. A impressão que se tem é que o autor é historiador, tamanha a sua preocupação com a utilização das fontes, da comprovação de depoimentos, da contextualização, em certos momentos, das idéias do guerrilheiro – e da significação dos conceitos de revolução e luta armada, por exemplo. 

O livro descerra a cortina e apresenta episódios até então não muito esclarecidos, como a participação de Marighella como deputado constituinte, pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), nos anos 1940 – durante o breve período em que o Partidão não esteve na clandestinidade, suas lutas políticas, discursos e projetos de lei apresentados.

Bem antes disso, podemos conhecer – e aprender – que Marighella não lutou apenas contra a ditadura civil-militar, no pós-1964: bem antes ele já desafiava outra ditadura, a do presidente Getúlio Vargas, durante o Estado Novo. Marighella foi perseguido e torturado, e esteve confinado em alguns presídios – no arquipélago de Fernando de Noronha e na Ilha Grande, por exemplo.

É comum que a memória, em suas infindáveis batalhas e resgates, caia em perigosas armadilhas. Uma delas é associar pessoas, personagens e instituições como pertencentes apenas a um determinado período ou contexto de nossa história. Deste modo, falar de Carlos Marighella foi praticamente um tabu em todos esses anos, pelo fato do baiano revolucionário ter sua imagem indissociável ao comunismo, à guerrilha, à revolução e ao terrorismo. Eis que descobrimos que Marighella, declarado inimigo número um do Brasil pelo governo militar nos anos 1960 escrevia poemas. 

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Descobrimos também que, assim como devemos estar atentos aos perigos da ilusão biográfica – termo de Pierre Bourdieu -, não existe unicidade de pensamento em pessoas, instituições e partidos políticos. É comum, ainda hoje, a generalização de que a esquerda brasileira atuou em bloco conjunto contra as arbitrariedades dos militares após o golpe de 1964.

Bem antes disso já existiam agudas querelas no seio do PCB, entre o secretário-geral Luís Carlos Prestes – o Cavaleiro da Esperança – e o próprio Carlos Marighella. Enquanto Prestes defendia o pacto dos comunistas com o presidente João Goulart – como etapa para posteriormente proclamar a revolução brasileira, Marighella não sentia ‘segurança’ no ex-presidente, preferindo optar pela revolução pelas armas, a partir do campo, em focos de guerrilha rurais, em direção ao litoral – numa clara inspiração no foquismo, teoria revolucionária de Ernesto “Che” Guevara e Regis Debray.

E as divergências não paravam por aí: enquanto Prestes orientava-se pela cartilha de Moscou, Marighella simpatizava com Cuba e o maoísmo. Enquanto Prestes via na guerrilha um ato de loucura descabida, Marighella simpatizava com Francisco Julião e suas Ligas Camponesas, que tinham o propósito de fazer a reforma agrária – na lei ou na marra. 

Em meados dos anos 1960, com o Brasil já vivendo os horrores do regime de exceção, ao participar da Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade a Cuba (Olas), em Havana, não representava o PCB – que como assinalado acima, adquirira posição burocrática na questão do enfrentamento à ditadura imposta em 1964.

Por isso, foi repreendido pelo partido, e posteriormente significou sua desfiliação do mesmo. O passo seguinte foi criar o Agrupamento Comunista – célula embrionária do que depois viria a ser a Ação Libertadora Nacional (ALN) – um dos principais (senão o principal) grupos de guerrilha urbana que surgiu no final de 1966 e até sobreviveu até 1973. O livro traz informações preciosas e até então inéditas, como a ajuda financeira que teve de Glauber Rocha, e dos cineastas Luccino Visconti e Jean-Luc Godard, além de espaço no meio editorial francês graças a Jean-Paul Sartre.

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Outro ponto extremamente positivo da biografia é traçar praticamente um raio-x das siglas e organizações de luta armada brasileira.

Embora na maior parte do tempo fique centrada na ALN, podemos conhecer o que pensavam siglas como VPR, MR-8, Corrente, Colina. Magalhães desconstrói outro mito, de que as organizações de esquerda atuavam em conjunto, com os mesmos propósitos e idéias similares.

Isso cai por terra quando somos apresentados à rivalidade existente entre a ALN e a VPR, de Carlos Lamarca – ex-capitão do Exército e o guerrilheiro mais odiado pelos militares, fuzilado numa emboscada no sertão baiano, em 1971. Marighella e Lamarca eram inimigos e discordavam sobre como deveria ser empreendida a revolução libertadora do povo.

O sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick foi ponto de discórdia na esquerda: Marighella só foi informado da captura do diplomata após o fato ser consumado, mostrando contrariedade pelos rumos que a luta armada estava tomando. Para ele e Joaquim Câmara Ferreira – codinome Toledo ou Velho, que assumiu a liderança da organização após a morte de Marighella e que no ano seguinte, em outubro de 1970, seria morto durante sessões de tortura, o episódio do seqüestro do embaixador delinearia a derrocada da luta armada no Brasil, que no período posterior à posse do presidente Garrastazu Médici conheceria os seus anos de chumbo – que para outros, uma parcela concentrada em pequena parte da população, corresponderam aos anos de ouro.

Temos a oportunidade de conhecer e relembrar também importantes nomes que permearam o empreendimento da luta armada. Nomes como Clara Charf, mulher de Marighella; Zilda Pereira Xavier, uma das líderes da ALN e que no final também foi namorada do revolucionário baiano; Joaquim Câmara Ferreira; Frei Betto, que fez parte do grupo de religiosos dominicanos que também ajudou a ALN; Carlos Eugênio Paz, comandante militar da ALN e executor, em 1971 do empresário Henning Albert Boilesen, diretor do grupo Ultragaz e financiador dos grupos de tortura, entre outras importantes peças da engrenagem das organizações de luta contra a ditadura.

O episódio do assassinato de Marighella também é analisado pelo autor, que reuniu farta documentação e importantes depoimentos de pessoas que estiveram na cena do crime, momentos após o guerrilheiro e líder da ALN ser morto. Magalhães se cerca de algumas possibilidades, desconstruindo a versão oficial de que Marighella tentara reagir à emboscada dos agentes da Operação Bandeirante (Oban), comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury.

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A leitura da biografia de Carlos Marighella, longe de proporcionar a mitificação do personagem, oferece a reflexão de que ele foi um ser comum, de carne e osso e que enfrentou dilemas, equívocos e também sofreu com as imperfeições do sistema que viveu e da bandeira que combatia. Suas opções e lutas políticas foram dolorosas, contraditórias e sofreram tensões e distensões. Trata-se de um trabalho primoroso, feito com bastante coerência e cercado por sacrifícios pessoais e profissionais – o autor trabalhou por nove anos, cinco dos quais com dedicação exclusiva. Leu cerca de 600 livros, pesquisou em 32 arquivos públicos e privados, entrevistou 256 pessoas e escreveu mais de 2500 notas explicativas. 

O guerrilheiro que incendiou o mundo com seu Minimanual de guerrilha urbana e ganhou destaque mundialmente tem enfim, uma biografia condizente com a sua rica trajetória biográfica, política e militante.

(email para o colunista: fabricio.gomes@pedromigao.com.br) 

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