Violeta Parra 1957 Santiago

Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, assinada pelo compositor Aloísio Villar, fala dos contrastes entre a vida real e a virtual.

Na foto, a compositora chilena Violeta Parra, que morreu de amor em 1967 – já contei esta história em post anterior.

O Virtual e o Real

Virtual 

Como dizem os mais antenados e os moderninhos, o twitter anda “bombando”. Para quem não sabe, o Twitter é uma rede social com formato de microblog, onde em até 140 caracteres passamos algo no que pensamos. Também podemos seguir pessoas que admiramos e gostamos do que escrevem – sendo seguidos também pela mesma premissa. 

Uma coisa que acho bem interessante no twitter é que ele mistura famosos e anônimos – e isso ainda não foi bem compreendido por alguns famosos. Uma parte, mais inteligente, sabe que tem uma imagem a zelar e utiliza o local a seu favor. Posta coisas de sua vida que pode dividir com o público, de seu trabalho e interage sempre que possível. 

Ele sabe que ali está exposto, é vidraça, pode sem proteção nenhuma receber críticas; mas encara com tranqüilidade e até consegue mais repercussão positiva com o mecanismo. 

Exemplos positivos de pessoas que sigo. Léo Jaime, Flavia Alessandra, Luciano Huck, Neymar, Ronaldo (que usa também para ganhar dinheiro), Buchecha, Edmundo, Giovana Antonelli, Willian Bonner, entre tantos outros. 

[N.do.E.: não sigo nenhum destes] 

Mas tem gente que não segura a onda.

A Xuxa não agüentou muito no twitter: falaram mal do português de sua filha (com toda razão) e ela “soltou os cachorros”, encerrando sua conta. Alguns jornalistas da ESPN Brasil mostram toda sua arrogância e antipatia na rede social, como o Mauro Cezar Pereira. 

E tem aqueles que esquecem que estão em público, pensam que estão numa mesa de bar ou na sala de casa e escrevem todos os tipos de barbaridade, entram em confusão, xingam e escandalizam. Muitos segmentos estão nesse exemplo, mas os comediantes de stand up (geração de humoristas que fazem humor de quarta série de ensino fundamental) estão na dianteira. Danilo Gentili é seu principal expoente. 

Para quem ainda não sabe quem é Danilo Gentili – como o Pedro Migão – ele é comediante do estilo stand up. Foi repórter do CQC, apresenta o bom programa “Agora é tarde” e passa na tv a imagem de uma pessoa engraçada e perspicaz. 

No twitter já arrumou confusão com quase todo mundo, escreve as maiores barbaridades, xinga, ofende e tem mais de quatro milhões de seguidores, pessoas do tipo que tem a inteligência de postar gargalhadas apenas porque ele escreveu que iria ao banheiro. 

Não peça inteligência desse tipo de fã: conseguir rir e escrever no twitter ao mesmo tempo já é um grande feito. 

Esse ano o Gentili cismou que é o novo Dom Quixote das redes sociais e decidiu entrar em confusão com todo mundo do PT – ou que represente o governo e seu moinho de vento. É apoiado pelo Roger, líder do Ultraje a Rigor (símbolo da rebeldia dos anos 80), que virou uma espécie de “Derico” do comediante. 

Nesse começo de ano ele já arrumou confusão com o ex-presidente do PT do Rio de Janeiro, com o atores José de Abreu e Paulo César Pereio (desses dois falo mais adiante) e por último, o que me fez escrever essa coluna, com o deputado federal e ex BBB Jean Wyllys. 

Jean é outro personagem interessante do twitter. Ele apareceu para o grande público quando foi indicado ao primeiro paredão do BBB5 e em sua defesa alegou ter sido indicado por ser gay. 

A estratégia deu certo. Derrotou um por um dos inimigos, venceu o BBB, se elegeu deputado e até hoje usa a estratégia da homofobia e do “coitadismo” para todas as críticas que recebe. Recentemente reclamou de ajuda que o governo dava para religiões cristãs, alegando que vivíamos em um estado laico. Pouco depois pediu ajuda do governo para as religiões afro fazerem seus rituais de virada de ano: lembraram a ele sobre seus dizeres de estado laico e o deputado se ofendeu. 

Acusou àqueles que lembraram deste fato de racismo, comparou a nazistas e de novo levantou a bandeira do preconceito. Jean Wyllys, que não nego ser um excelente deputado e pessoa com muita cultura, é provavelmente a pessoa mais chata do twitter e Danilo Gentili a mais irritante – e os dois se cruzaram essa semana. 

Danilo fez uma piada de péssimo gosto sobre a estatística de assassinato de homossexuais em São Paulo e Jean não gostou, começando uma discussão forte e de baixo calão por parte do comediante. Tipo de discussão que achamos que os dois estão certos quando um fala mal do outro. 

Ao mesmo tempo descobriam que o perfil do ator Paulo César Pereio era fake, ou seja, falso. O perfil que levantou muitas polêmicas no twitter e que inclusive lançou a maldade contra o cantor Roger de que ele teria “pênis pequeno”.

A fama pegou. Todos que apóiam o governo no twitter começaram a difamar o cantor, resultando em uma grande baixaria.  A baixaria chegou a ponto do fake do ator postar uma foto de Roger pelado e o cantor revidar com uma foto de Pereio nu. Todos assim esqueceram seus papéis diante da sociedade e suas fãs, provocando um momento ridículo. 

No meio disso tudo o ator, que admiro muito, José de Abreu. Ganhador dos principais prêmios do ano graças ao seu personagem Nilo na novela “Avenida Brasil”, Abreu é um petista roxo, amigo do José Dirceu e posta o dia todo no twitter mensagens enaltecendo o PT, denegrindo o PSDB e boa parte do tempo brigando com as pessoas. 

Zé de Abreu brigou com Gentili, brigou feio com Roger, brigou com outros famosos, com muitos anônimos, com perfis declaradamente fakes e chegou a ponto de insinuar uma bissexualidade (logo depois desmentida) só para colocar seu ponto de vista em discussões. 

As celebridades esquecem que tem um nome e uma imagem a zelar. Esquecem que tem fãs e seus fãs são oriundos de todas as classes sociais e segmentos políticos, esquecem que quando se metem em uma briga, escrevem bobagens ou postam fotos milhões de pessoas estão vendo. 

Esquecem que muitas vezes são ídolos e exemplos, mesmo muitas vezes não querendo ser. Eu na infância tinha o Roger como alguém maior que Renato Russo e Cazuza; hoje vejo o mesmo se prestando a um papel ridículo de postar foto de homem pelado no twitter sem nem saber se quem lhe atacou é o próprio ou fake. 

Há de ter muito cuidado com o que posta em rede social, seja em twitter, facebook ou no (quase) finado orkut pela repercussão que gera. Não apenas as celebridades que podem ter a imagem destruída como os anônimos com nós. A pessoa, seja famosa ou não, antes de tudo tem que ter postura. 

E sempre que vejo uma idiotice em rede social de quem devia dar exemplo, lembro-me de criança na Gávea pedindo autógrafo pro Zico, minha caneta falhando e ele entrando em uma sala do Flamengo, perdendo tempo e pegando uma caneta pra assinar minha camisa para que eu não fosse embora frustrado. 

Ídolo é assim e não adianta você achar que é o maioral só porque tem quatro milhões de seguidores no twitter. 

O maior homem que pisou nesse planeta tinha doze – e um deles era “fake”. 

O Real    

Saindo um pouco do virtual, quero falar da vida real e como ela é surpreendente e consegue em muito superar a ficção. 

Sou escritor, mas minha parca imaginação não conseguirá nunca colocar em papel uma história como a que eu vi semana passada. Um homem na altura de seus setenta e poucos anos, avô de uma pessoa muito querida por mim, ele mesmo uma pessoa querida que sempre enalteci, morreu. 

Sim, pessoas morrem todos os dias. Mas ele se matou. Se jogou do oitavo andar de um prédio. A coisa vai ficando mais impactante e ficará mais ainda quando você souber que ele deixou uma carta para a família e o motivo de tudo.

Morreu de amor. 

Ele não suportou a saudade de sua falecida esposa e decidiu morrer. Sim, ainda existe gente que morre de amor nesse mundo frio, cruel e individualista. Ainda existe gente que pula para a morte porque não agüenta viver com a saudade da pessoa que ele ama. 

Vocês têm noção do que é isso? Abrir mão da vida por amar? 

Muitos teóricos vão aparecer. Religiões repulsam o suicídio, dizem que é o maior crime que se pode cometer e que o suicida sofre mais ainda que em vida. Mas não sou teórico, eu vivo, não entendo muito de religião, mas entendo bastante de dor, de saudade, daquele tipo de vazio, abandono que dói na alma e não tem ninguém que possa avaliar e aliviar. 

Alguém tem noção do que é encontrar um amor, passar a vida inteira com essa pessoa, ficar sozinho e ter que continuar a caminhada sem ela? De olhar ao lado da cama e não encontrá-la, olhar a casa e ela não estar lá? Ela estar em seus sonhos acordar e não ver? Todo mundo feliz e você triste? A solidão, a companheira mais amarga e cruel, aquela que está abraçada a você mesmo com muita gente a sua volta. 

Não dá pra ter noção dessa dor. Confesso que já passei por algumas brabas nessa vida e nos piores momentos pensei nesse ato, seja quando minha mãe morreu ou perdi amores que achava ser para sempre; mas nunca nem me aproximei dele. Amigo, para se chegar a este extremo é que a dor é muito grande. 

Eu, um simples mortal, uma pessoa com inúmeros e alguns inconfessos defeitos nunca irei julgar alguém muito menos nessa situação, é muito acima de mim. É uma história impactante, que não sai da minha cabeça, triste e traumática por um lado, linda e romântica por outra. 

Por razões óbvias não direi seu nome ou de algum integrante de sua família. O que posso dizer é de cara criei uma ligação com ele. Uma admiração, um gostar como se fosse de minha família, adorava conversar com ele, estar perto dele e essa pessoa, neta dele e querida demais por mim sempre soube disso. 

E agora ele entrou definitivamente em minha história, minha vida. Sou um cara romântico, tenho um lado poeta do tipo que ama profundamente, tem o coração dilacerado, a alma rasgada, que me jogo de cabeça e quando amo pra valer nunca mais esqueço, é pra sempre então imaginem como um ato desses, uma história dessas entra na minha vida. 

Lamento muito por seu sofrimento e de sua família, sua morte, mas minha admiração por ele aumentou. Tem que ter muita coragem pra amar, tem que ser muito homem pra morrer de amor.

Onde quer que esteja meu respeito e minha oração para que encontre a paz e sua amada. 

Amar dói. 

[N.do.E.: o colunista por elegância não cita, mas eu passei a semana inteira anterior ao fato implicando com o colunista por causa do velhinho do conto do sábado retrasado. Então acontece isso. A vida é irônica, meus caros…]