Nesta quinta feira, a coluna “Sabinadas”, do jornalista Fred Sabino, relembra os 20 anos daquele que é um dos últimos desfiles ditos “arrebatadores” da Sapucaí: Salgueiro 1993, “Peguei um Ita no Norte” – que acabou ficando mais conhecido pelo bordão “Explode coração” do refrão.
Eu me recordo que também vi o desfile pela televisão e quando a escola entrou na avenida sacudindo todo mundo eu me virei para minha mãe, que assistia comigo, e vaticinei: “está desfilando a campeã”. Não deu outra.
De lá para cá me recordo de três outros momentos parecidos: a reedição de “Aquarela Brasileira” no Império Serrano (em 2004) e dois casos ocorridos no Grupo de Acesso: a São Clemente em 2001 e a Unidos de Lucas em 2005. No Grupo Especial e suas arquibancadas e frisas apinhadas de turistas tal fato dificilmente ocorrerá novamente, o que é uma pena. Eu me recordo que no último carnaval comecei a cantar a plenos pulmões o esquenta da Vila (Kizomba) nas frisas e os turistas me olhavam como se eu fosse um ET…
Acima, um compacto do desfile com somente o áudio, sem narração.
O desfile único: 20 anos do ‘Ita’ salgueirense
Lendo nos últimos dias, no site do jornal “O Dia”, matéria do meu ex-colega de Lance! Flávio Trindade sobre os 20 anos do desfile do Salgueiro de 1993, não pude me eximir de escrever também sobre o desfile mais empolgante que já vi em mais de duas décadas acompanhando Carnaval. “Peguei um Ita no Norte” era o enredo da escola da Tijuca e como todo mundo sabe, o samba tinha o famoso refrão do “Explode coração!”.
Mas, se o samba era bacana de ouvir antes de passar na avenida (meu amigo salgueirense Flávio Garcia esteve na final das eliminatórias da escola e disse que o samba já estava explodindo na quadra), ninguém imaginava que a explosão seria ainda maior no sambódromo. Até porque o Salgueiro estava longe de ser favorito absoluto ao título.
Campeã de 1992, a Estácio de Sá tinha um belíssimo samba para o enredo “A Dança da Lua” e vinha com força. A vice-campeã Mocidade Independente de Padre Miguel, mordida com a perda do tri, tinha um samba de qualidade inferior aos dos anos anteriores, mas apostava na genialidade de Renato Lage e um enredo sobre os jogos (Marraio Feridô sou rei).
A Portela, com seu enredo “Cerimônia de Casamento” prometia muito e vinha reforçada com o carnavalesco Mário Monteiro, campeão do ano anterior [N.do.E.: muito do fiasco portelense deve ser creditado à figurinista Beth Filipecki.]. Outras escolas como Imperatriz Leopoldinense, Estação Primeira de Mangueira e Beija-Flor, apesar de ter perdido Joãozinho Trinta, também vinham cercadas de expectativas.
Naquela época, aos 11 anos, eu já acompanhava os desfiles de cabo a rabo pela televisão. E, mesmo sem estar no sambódromo, senti algo diferente quando vi o Salgueiro começar seu desfile. Uma empolgação fora do comum de componentes e público, uma bateria magistralmente comandada pelo saudoso Mestre Louro, uma participação impecável do Quinho e seus auxiliares e um visual que, se não era “high tech” como o da Mocidade ou luxuoso como o da Imperatriz, contava bem o enredo inspirado na música de Dorival Caymmi e que falava de uma viagem de Belém ao Rio, retratando as diferentes culturas do Brasil.
O Salgueiro entrou com tanta força na Sapucaí que Fernando Vannucci, então responsável por narrar o desfile para a TV Globo, não se conteve e soltou com todas as letras que a escola “estava cheia de tesão”, um termo que na época era bastante incomum numa transmissão de TV.
O desfile foi tão bacana de assistir que “passou rapidamente” e deixou ainda aquela sensação de que poderia ter mais uma hora que não ficaria chato. Mesmo com o incrível contingente de 5.500 componentes e uma certa correria no fim, o Salgueiro passou e deixou a impressão de que nada deteria a escola rumo a um título que não vinha desde 1975.
Neguinho da Beija-Flor, por exemplo, disse anos depois à TVE que, após ver o Salgueiro passando daquela maneira, chegou “derrotado” ao sambódromo. E mais: afirmou que, desde então, não via mais os desfiles anteriores ao da Beija-Flor para não se deixar desconcentrar. Parece que deu certo… (risos).
Como naquela época o samba ainda tinha uma importância enorme no desenrolar e no resultado de um desfile, e o Salgueiro foi muito bem em praticamente todos os quesitos, era uma pule de dez. E, de fato, a vermelho e branca da Tijuca levantou o caneco com uma justiça poucas vezes vista no Carnaval carioca. Mas, por mais paradoxal que possa ser, o “Explode coração!” teve efeitos colaterais.
Consagrado em 1993, o Salgueiro quase foi bi no ano seguinte. Mas nos anos seguintes cometeu o erro de tentar fazer um novo “Explode coração!”, assim como outras escolas também tentaram. Só que, da mesma forma como não haverá um “novo Explode coração”, jamais haverá um “novo Zico” no Flamengo ou “novo Roberto” no Vasco ou “novo Garrincha” no Botafogo. A tentativa de repetir a fórmula de 1993 foi um fracasso coletivo.
[N.do.E.: costumo dizer que os sambas do Salgueiro de 1994 para cá, com as honrosas exceções do belo samba de 2007 e de 2011, formam a série “Em Busca do Ita perdido”.]
Primeiro, porque embora “oba-oba” no refrão, o samba do Salgueiro de 1993 tinha momentos de poesia apesar da levada “pra frente”. Era um samba que contava bem o enredo e cujos “trechos genéricos” não o descaracterizavam. Quem tentou copiar a fórmula errou a mão e exagerou em termos como “me leva”, “eu vou que vou”, “tá que tá”, “sacode”, “zoar”, entre outros.
Mas isso não deslustra em absolutamente nada o, insisto, desfile mais empolgante que já vi. Uma catarse coletiva que jamais foi vista novamente, mesmo em desfiles como o da Portela, em 1995, Viradouro, em 1997, Mangueira, em 1998 e 2002, entre outros.
Passados 20 anos de uma inesquecível noite de segunda-feira de Carnaval, fica a lição de que não adianta tentar copiar o que não pode ser copiado ou esperar novamente algo que foi único na história.
Repito, algo único.
Esse é o erro do Salgueiro. Corre atrás até hoje de um novo Ita e não consegue. Quem sabe daqui a 18 anos, depois do título conquistado com o “Tambor” eles alcançam a glória de novo?
Obrigado pela citação camarada. Ótimo texto sobre um desfile inesquecível.
Abs.