Na última quarta feira, aproveitando uma rara folga de meus afazeres noturnos – e somando-se à preguiça de dirigir até Madureira – estive na quadra da União da Ilha do Governador, acompanhando o ensaio técnico das alas. Tal e qual na Portela, é o ensaio onde o canto da escola é treinado à exaustão.

Observando a forma como se desenvolveu o ensaio, veio à minha mente uma reflexão que também foi de certa forma desenvolvida em uma das listas de discussão via email sobre carnaval de que participo: as alas de comunidade.

Via de regra, são alas onde o componente ensaia por um determinado tempo e, ao final do processo, “ganha” a fantasia para desfilar. Coloco entre aspas a expressão pois dependendo do custo para estar na quadra todas as semanas, acaba saindo mais barato comprar a fantasia de modo tradicional. No meu caso mesmo, se for colocar na ponta do lápis o que gastaria para fazer parte de uma ala destas sai bem mais barato pagar a fantasia para desfilar na minha Portela, por exemplo.

Estas alas surgiram no final da década de 90, como resposta a dois fenômenos concomitantes: primeiro, o aumento do custo das fantasias, que afastava o componente tradicional da escola de samba. Segundo, e talvez como reflexo do primeiro ítem, aos problemas de Evolução e Harmonia gerados por componentes dissociados de comprometimento com a festa.

O leitor sabe que uma das piores coisas que pode ocorrer a uma escola de samba são hordas de turistas descompromissados com a escola, normalmente com alto teor etílico e que sequer o samba da agremiação sabem. Em um carnaval competitivo como o atual isto pode significar a perda de décimos preciosos, especialmente no quesito Harmonia.

Parêntese: nem sempre. Em 2012 a Mangueira atravessou o canto em frente ao jurado do primeiro módulo, no Setor 3, e ainda assim a nota do quesito Harmonia foi 10 naquele módulo. Inacreditável.

Retomando nosso tema, as alas de comunidade surgiram como resposta a estes dois fenômenos descritos acima. No início era algo extremamente simples: se ensaiava quatro ou cinco vezes antes do carnaval e já era o suficiente.

Eu me recordo que em 2002 e 2003, primeiros anos onde a Portela se valeu deste expediente, eu desfilei nesta modalidade de ala. Em 2002 ensaiamos um mês (uns cinco ensaios contando o da Sapucaí, novidade então) e, em 2003, no máximo um mês e meio. Era algo bastante tranquilo e perfeitamente possível de se encarar. Além disso, os ensaios ainda eram bastante espontâneos.

Hoje temos uma situação completamente diferente: os ensaios começam assim que se escolhe o samba, em outubro, ou até antes. Ensaia-se duas, três vezes por semana, durante quatro, cinco meses, com um número de faltas permitido bastante limitado – normalmente o número é de três apenas.

Com isso, o que acaba ocorrendo é que se tem um custo muito alto para frequentar estes ensaios, por um lado, e chega-se no dia do desfile já com aquela sensação de exaustão e “tomara que acabe logo”. O que deveria ser uma diversão – desfilar em uma escola de samba – acaba se transformando em uma obrigação bastante exaustiva e, porque não dizer, penosa.

Vale lembrar, ainda, que em algumas escolas o componente mesmo ensaiando este tempo todo ainda tem de pagar um valor pela roupa, tendo de devolvê-la após o Desfile das Campeãs. Pelo menos na Unidos da Tijuca e na própria União da Ilha isto ocorre, ao passo que na Portela, até onde sei, não há cobrança. Há também agremiações que solicitam ao componente – melhor seria dizer exigem – que vá ao atelier auxiliar na confecção da roupa.

Colocando-se na ponta do lápis, em muitos casos acaba saindo mais barato se pagar R$ 700, 800, 900 em uma roupa para se ter o direito de desfilar em uma escola do Grupo Especial. Todas as escolas deste grupo ainda tem alas comerciais funcionando sob este modelo, à exceção da Vila Isabel. Mas mesmo nesta não é difícil se adquirir uma roupa “de comunidade”…

Pessoalmente, se fosse desfilar em uma ala destas na Portela gastaria uns R$ 30 entre combustível e bebida a cada ensaio. Multiplicando-se isso por uma média de 40 ensaios, daria R$ 1,2 mil – muito mais que o valor pago em uma fantasia de ala para 2013. Sem contar que eu definitivamente não posso estar 40 vezes por ano na Portela, por exemplo – infelizmente.

Lembro ao leitor que o que se paga em uma ala comercial ou se disponibiliza em tempo na ala de comunidade, em verdade, não é a fantasia. O que se paga (em tempo, dinheiro ou as duas coisas) é pelo direito de representar a agremiação em seu desfile. Isso tem de ser levado em conta quando se analisa o preço das fantasias.

Ou seja, o componente destas alas comerciais já chega exaurido ao desfile, após uma miríade de ensaios onde o prazer é transformado em obrigação, e ainda carregando verdadeiros trambolhos chamados de fantasias – muitas vezes com 15, 20 quilos de peso. O rendimento no desfile acaba sendo bem menor que o ideal, por estes fatores.

Ainda temos outra questão envolvendo este tipo de organização de ala.

Como o leitor pode ver no vídeo que disponibilizo, gravado na União da Ilha, as alas são instruídas a fazer “coreografias” a cada trecho do samba. Gravei na Ilha, mas praticamente em todas as escolas do Grupo Especial o quadro é exatamente o mesmo: não há espontaneidade e o componente é obrigado a permanecer em formação matricial o tempo todo. Isso pode ser bem exemplificado pelo vídeo acima.

Isso sem contar com a falta de educação costumeira dos Diretores de Harmonia destas alas, que em sua maioria atuam como uma espécie de “Pinochets do samba”…

Na mesma ocasião estava conversando com o colunista deste Ouro de Tolo Aloisio Villar, também presente ao ensaio, e este me lembrou que em 1989 a mesma União da Ilha tinha componente dançando gafieira no meio das alas. Nos dias de hoje o que se vê é uma formação quase militar, meio teatral, bastante distante do que se convenciona chamar por escola de samba. Ressalve-se que a Portela está tentando fazer algo mais solto para 2013, veremos como ocorrerá.

No entanto, este modelo de alas de comunidade já começa a sofrer fraturas evidentes. Além dos fatores citados acima, algumas agremiações começam a ter dificuldades de recrutar desfilantes sob este modelo, exatamente pelos problemas elencados acima. Parece claro que a estrutura atual de alas de comunidade parece fadada a alterações em um futuro breve.

Por outro lado, há que se controlar as alas tradicionais no sentido de diminuir o número de paraquedistas que somente atrapalham. Me parece bastante possível um modelo intermediário onde se pague um valor subsidiado pela fantasia, com maior espontaneidade e, por outro lado, com maior comprometimento.

Lanço o debate aqui. Leitor, utilize a área de comentários para sua opinião.

P.S. – Achei o samba da agremiação insulana “pesado”, por assim dizer. Tenho muitas dúvidas se a composição se sustentará ao longo dos 82 minutos de desfile.

P.S.2 – A bateria está claramente dividida. Infelizmente isso é sinal de problemas na avenida.

6 Replies to “Sobre as alas de comunidade”

  1. Concordo em gênero, número e grau.
    Obs: apesar de mesmo a Portela proferir aos 4 ventos que tentará fazer algo mais solto, estão solicitando aos componentes que façam coreografias (completamente desnecessárias) em algumas partes do samba.

  2. Muito bom ter levantado essa bola. Mais uma discussão na ordem do dia. Ainda não refleti o suficiente pra opinar sobre tudo o que foi levantado no texto. Agora, estou suficientemente esclarecido pra ser uma voz contrária a essas inúmeras coreografias que tiram a espontaneidade do componente, amarrando-o num samba leve, pra brincar e dançar. Proponho um seminário portelense sobre essa e outras questões. A agremiação é pioneira. Então, damos o primeiro passo.

  3. Quando li o título do Post, pensei: VOU COMENTAR!

    Pena que o texto reflita 100% do que penso sobre esse processo denominado “distribuição de fantasias para a Comunidade”.

    Sendo assim, não tenho o que acrescentar.

    Belo Post!!!

  4. Já desfilei na comunidade da Portela por alguns anos. E coloca nesse custo aí eu ter que pegar fantasia no atelier e levar aquele trambolho de táxi até em casa. Isso sem falar que tive que ficar correndo atrás de um táxi com aquele peso todo. Apesar da emoção, meus desfiles sempre foram muito cansativos. Tanto que não conseguia nem me movimentar direito na ala a não ser pra frente pra evitar ficar preso nas fantasias dos outros. E o canto acabou antes do final da avenida. A emoção do início virou uma vontade desesperada para acabar e tirar aquela fantasia. Na minha última experiência em ala de comunidade nem voltei pro desfile das campeãs, embora a Portela estivesse presente. Não quero mais. Prefiro ficar de fora, como ficarei esse ano. Ensaiar duas, três ou até quatros vezes por semana não dá. Minha vida social se resumia a esse treinamento militarizado como se fosse um soldado chegando agora no quartel. Depois dessa experiência deveria ganhar uma carteira de reservista igual a das Forças Armadas. O fato é: Apesar de amar a Portela e frequentar sempre (ou quase sempre) os eventos da escolas e dos amigos que por lá eu fiz, nunca mais desfilarei em ala de comunidade. Não enquanto continuar dessa maneira. Essa é a minha experiência.

  5. Gostei da sua análise, Migão. O fato de você ter colocado que comprar uma fantasia sai mais barato do que “ganhar” uma em troca do sustento da escola no período em que o povo está mais ligado no Natal, me faz pensar nas Casas Bahia.

    Mesmo sabendo que o bem a ser comprado custará até quase 3 vezes mais caro se for parcelado, o povo prefere o carnê do que negociar à vista. Prefere ter o bem e ir pagando um pouco a cada mês mesmo que o custo total seja maior do que juntar o mesmo tanto (em menos tempo) para pagar à vista. É o que acontece com as fantasias a meu ver.

    Isso sem falar que a obrigatoriedade de estar na escola passa ao componente a sensação de estar fazendo parte da agremiação mesmo não sendo um diretor ou presidente. Mas ele sabe dos “segredos” da escola antes dos mortais que só tomarão o conhecimento depois das festas de ano novo. Isso não é nada, mas dá a sensação de ser parte do núcleo que constrói o carnaval de sua escola amada. Ele faz parte de um grupo seleto. Se não fosse obrigado a comparecer, com certeza ele não iria sempre. Não conheceria as pessoas, não faria parte do grupo. Seria apenas mais um.

    Estou tentando visualizar o ponto de vista do próprio componente até para se pensar em um modelo que seja bom para ambos.

    1. Verdade, Linhares.

      Coloca aí também (claroq ue não era os eu caso) aquela sensação de “estar recebendo algo de graça” que o povo adora sentir.

      Se vc parar no meio da rua agora, com uma sacola e começa a distribuir qualquer coisa, a maioria quer, mesmo sem nem saber o que é ou pra quê serve!

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