Nesta segunda de carnaval, a coluna “História & Outros Assuntos”, do doutorando em História Fabrício Gomes, mostra o carnaval 2013 dos blocos de rua. Rapidinho, passemos ao texto.
Carnaval de rua no Rio: que festa é essa?
Enfim chegou o carnaval. E com ele os blocos de rua.
É muito comum a mídia noticiar sobre a “retomada” do carnaval de rua em nossa cidade. Ledo engano. Como nosso mestre Luiz Antonio Simas costuma afirmar, o carnaval de rua no Rio nunca deixou de existir. Na zona oeste, por exemplo, sempre existiram os clóvis, que saem as ruas “assustando” todos. Ou então simplesmente moradores que colocam suas cadeiras nas calçadas e vestem seus filhos para batalhas de confete. Cacique de Ramos, Bafo da Onça, Arengueiros, Gato de Bonsucesso então, nunca existiram?
Falar em retomada talvez seja uma visão bastante etnocêntrica dos “bem nascidos” tentarem impor o carnaval de rua feito por eles como o verdadeiro ou ideal – um modelo a ser seguido pelos demais – o que, cá entre nós, corresponde a um misto de má-fé e desconhecimento das origens da festa em nossa cidade.
Costumo sair nos blocos sistematicamente desde 2011 – embora desde 2006 freqüente os desfiles fabulosos do Escravos da Mauá no Largo da Prainha, na querida Praça Mauá – um reduto pra lá de histórico.
Confesso que os blocos gigantes não me atraem e fujo deles. Blocos populosos, midiáticos ou simplesmente freqüentado por patricinhas, mauricinhos e bombeados sarados viciados em academia, que imitando os gladiadores romanos, estão mais preocupados em exibir o tórax, eu renego veementemente. Busco, sim, os blocos que privilegiam roteiros no centro da cidade – os que passam pela Lapa, Santa Teresa, Praça Mauá e Praça XV – e Laranjeiras, Catete e Largo do Machado. Blocos tipicamente cariocas, oriundos de conversas de amigos, surgidos na informalidade. Cordão do Boitatá, Bloco Carioca da Gema, Imprensa Que Eu Gamo, Céu na Terra, Carmelitas, Bagunça o meu Coreto, Largo do Machado mas Não Largo do Copo, Cachorro Cansado, Clube do Samba, Escravos da Mauá, Sociedade Carnavalesca Embaixadores da Folia…
Este ano tive a oportunidade de conhecer o Bloco da Ansiedade – de frevo -, com seu mar de sombrinhas multicoloridas, que sai ao lado do Mercado São José, em Laranjeiras. Embora acompanhe notícias sobre o Timoneiros da Viola – bloco-homenagem ao grande Paulinho da Viola, que desfila as músicas do compositor da Portela pelas ruas de Madureira – nunca saí neste bloco, não por falta de vontade, mas porque desfila justamente no mesmo horário do Escravos da Mauá, e por causa do meu compromisso moral do com o bloco das cores azul e amarelo do Largo da Prainha fico impossibilitado em curtir. Mas qualquer carnaval “baixo” em Madureira com confete, serpentina para cantar as músicas do poeta portelense.
Se tem crianças, idosos e famílias freqüentando um bloco, eu adoro. Fujo de hordas de adolescentes frenético(a)s, mais preocupados em badalação do que propriamente em brincar carnaval. “Bloco família” é sinônimo de tranqüilidade e a certeza de que se pode brincar o carnaval sem estresse de encarar um spray de espuma, chuva de cerveja ou encarar brigões disputando a amada alheia.
Mas uma preocupação me vem à cabeça.
Desde o ano passado venho reparando o crescimento dos blocos – mesmo os tradicionais. O gigantismo não vem acompanhado da organização merecida. É inegável que a Prefeitura vem se esforçando para dar destaque à festa democrática dos blocos de rua, mas a falta de planejamento ainda é latente. Um exemplo disso continua a ser a ausência de banheiros químicos em número proporcional ao tamanho dos blocos.
Na sexta-feira, no Embaixadores da Folia – que sai da esquina da Av. Rio Branco com Av. Presidente Vargas, não encontrei um banheiro químico do inicio do bloco (Candelária) até a Rua São José. Quem quisesse fazer xixi deveria se dirigir ao Edifício Garagem do Terminal Garagem Menezes Cortes e pagar 2,00 (dois reais). Outro exemplo de falta de cuidado com o folião dos blocos de rua é o esquema de trânsito: fecham-se ruas (no centro do Rio, praticamente a totalidade fechada) e não se oferece contrapartida em transportes aos foliões, que penam para conseguir voltar para casa. É comum táxis serem disputados a tapa. Ônibus é artigo de luxo, quando circulam, passam lotados. Metrô abrange apenas um certo trecho da cidade e nas próprias estações de destino não há a existência de continuidade da viagem para trechos mais longínquos.
O gigantismo também causa transtornos para os próprios blocos. No sábado de carnaval, no Céu na Terra, que desfila pelas ladeiras de Santa Teresa tocando marchinhas históricas, os foliões têm que disputar espaço nas ruas com carros estacionados nas ruas – impedindo o livre acesso. E pra completar, pasmem: o transito não foi interrompido. Era comum andar nas ruas e se deparar com ônibus circulando em alta velocidade, carros buzinando e longos congestionamentos.
Enfim, não se trata apenas de apontar defeitos, pois a magnitude da “festa Carnaval” supera qualquer obstáculo. Mas… Se a festa pode ser melhor do que já é, porque não planejá-lá e oferecer a esse povo que batalha, se bronzeia e quer mostrar o seu valor, possibilidades reais de conforto e mobilidade?
PS – O Multibloco invadiu a Lapa com seu desfile contagiante. Infelizmente não saí no bloco por ter ido ao baile de carnaval do Carioca da Gema, mas acompanhei trechos do bloco. Ele costuma sair ao meio-dia dos Arcos da Lapa, em direção ao Largo do INCA. Cm certeza irei ano que vem. E recomendo fortemente a todos.
Bom carnaval!