Nesta manhã de sábado de carnaval, a coluna “Histórias Brasileiras”, do historiador Luiz Antonio Simas, nos conta um pouco sobre a origem e a influência do candomblé no samba e nas escolas cariocas. Indispensável. O colunista será jurado do prêmio Estandarte de Ouro do jornal O Globo, o que muito honra este blog.

Ainda hoje, mais tarde teremos aqui a cobertura da primeira noite de desfiles da Marquês de Sapucaí, com análises, fotos e áudios ao vivo (para ouvir e baixar) do desfile do Acesso A em sua primeira noite.

Samba de Fundamento: as escolas de samba e as casas do candomblé

Há entre as escolas de samba, em suas origens remotas, e as casas de candomblé uma série de semelhanças que merecem ser destacadas. Estamos falando de duas instituições que funcionaram como instâncias de integração comunitária, fundamentadas na noção de pertencimento ao grupo e fincadas em uma série de rituais; todos eles alicerçados nos princípios da tradição, da hierarquia e da etiqueta (entendida aqui como um conjunto de procedimentos normativos típicos de sociedades de corte – como eram, aliás, as sociedades africanas desarticuladas pela diáspora nos tumbeiros).

A ancestralidade africana do samba e dos candomblés e todas as implicações dos quatro séculos de escravidão no Brasil fizeram, ainda, das agremiações e das casas de culto verdadeiros templos de afirmação e invenção de identidade. Colocaram no centro da cena, como protagonistas, populações economicamente subalternas que, pela cultura, assumiram o protagonismo de suas próprias vidas.

Além desses fatores simbólicos mais gerais, a ligação íntima entre a religiosidade e o samba aparece com frequência quando estudamos o nascimento das escolas. Pais e mães de santo participaram, constantemente, dos núcleos originais das agremiações e, não raro, funcionaram como verdadeiros esteios deste processo.

Personagens como, por exemplo, Zé Espinguela (o organizador da primeira disputa, ainda sem o desfile em cortejo, entre as agremiações), Dona Ester (Oswaldo Cruz / Portela) e Mano Elói (Império Serrano), são frequentemente citados como articuladores da comunidade do samba e líderes religiosos.  As tias baianas da Cidade Nova, iniciadas no candomblé, não raro promoviam em suas casas festas de santo seguidas de rodas de samba, legitimando-se como verdadeiras matriarcas dos batuques sagrados e profanos.

Vale lembrar também que, em tempos heroicos, as baterias das escolas de samba eram formadas por significativa quantidade de alabés, os ogãs responsáveis pelos tambores rituais do candomblé. Cabe a estes ogãs, nas casas de culto, conhecer os toques propícios a cada um dos orixás, como o adabi de Exu; o alujá de Xangô; o igbin de Oxalá; o ijexá de Oxum e Logunedé; o agueré de Oxóssi; o opanijé de Omolu; o adarrun de Ogum; o korin-ewe de Osain; o bravum de Oxumaré… Neste contexto, as escolas de samba eram reconhecidas de olhos fechados, bastando ao sambista ouvir o toque de cada bateria. Estas, geralmente, percutiam suas caixas no ritmo do orixá padroeiro da agremiação.

É evidente que, em tempos mais recentes, a tradição ancestral das escolas de samba passou por um acelerado processo de diluição, em virtude de uma série de fatores – que demandariam outro texto. As baterias, por exemplo, têm apenas vagos resquícios daqueles toques peculiares, de fundamento, que as caracterizavam como verdadeiras orquestras litúrgicas.

A presença da temática religiosa africana nos desfiles é outro ponto importante desta ligação. É de conhecimento amplo que, a partir de 1960, os enredos começaram a tratar amiúde de temas marginais à história oficial, cristalizando a revolução iniciada pelo seminal Quilombo dos Palmares, apresentado pelo Salgueiro de Fernando Pamplona.

Ao mergulhar, ao lado de Alberto Mussa, em uma pesquisa sobre 1.324 sambas de enredo que resultou no livro “Samba de Enredo – história e arte” (Editora Civilização Brasileira, 2010, resenha aqui), constatei que a primeira citação explícita a um orixá ocorre no carnaval de 1966.

Naquele ano duas escolas, o Império Serrano e a São Clemente, fizeram enredos sobre a Bahia e citaram Iemanjá em seus sambas. Onze anos depois, o Arranco do Engenho de Dentro apresentou o primeiro enredo monográfico sobre divindades iorubás, voltado exclusivamente para a mitologia de um único orixá: Logun, o príncipe de Efan.

Um ano antes do desfile do Arranco, em 1976, o Império Serrano e a Unidos de Lucas apresentaram enredos muito semelhantes: “A Lenda das sereias, rainhas do mar” e “Mar baiano em noite de gala”, respectivamente. Sem tratar especificamente da mitologia dos orixás, os enredos destacavam, entretanto, a força de Iemanjá como divindade das águas salgadas (papel que a orixá ocupou no Brasil, diante da pouca força do culto de Olokum – divindade dos oceanos na África – na diáspora).

Corre entre o povo do samba a história de que o desfile do Império naquele ano foi tumultuado, dentre outras coisas, porque Iemanjá baixou na avenida em várias de suas filhas que desfilavam na escola e, com seu bailar lento e ritmado, teria atravancado a evolução das alas.

Há também os que juram que em 1994, quando a Acadêmicos do Grande Rio contou a história da Umbanda no enredo “Os santos que a África não viu” (vídeo acima), as entidades teriam baixado ao longo do desfile em inúmeros componentes.

Em um território repleto de mitos, história exemplares e tradições constantemente reinterpretadas, inventadas ou diluídas – como é o universo das escolas de samba – as ligações entre a religiosidade afro-brasileira e as agremiações cariocas abrem caminho para uma série de reflexões fascinantes. Tal fato é mais relevante ainda porque vivemos um momento em que muitas escolas perdem componentes convertidos às igrejas evangélicas e a diluição de certos fundamentos das escolas de samba redimensiona o papel das mesmas no carnaval.

Falar e cantar, enfim, sobre o elo ritual que liga os terreiros de macumba aos terreiros do samba não deixa de ser também um tributo aos pioneiros – sambistas, pais e mães de santo, ogãs e iaôs – que construíram, ao som dos tambores oriundos dos tumbeiros, a mais impactante aventura civilizatória da história brasileira.

3 Replies to “Histórias Brasileiras – “Samba de Fundamento: as escolas de samba e as casas do candomblé””

  1. Simas, este ano, pelo menos no 1o. dia, XANGÔ reinou em alguns desfiles.

    SObre essa temática afro, Lembrei do desfile do Império da Tijuca com o enredo sobre São Jorge. Ali foi bacana demais. Era um desfile com elementos da religião católica e tinha também a mistura com a umbanda e o candomblé. E tudo isso dentro de uma escola de samba e em pleno carnaval! Isso é SAMBA! Isso é Brasil!!!

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