Nesta sexta feira, a coluna “A Médica e a Jornalista”, da Anna Barros, fala da renúncia do Papa Bento XVI sob o ângulo de uma seguidora do catolicismo.
Sem maiores comentários, vamos à coluna.
A renúncia de Bento XVI
Todos nós acordamos perplexos na segunda-feira, dia 11 de fevereiro – em pleno reinado de Momo e no dia de Nossa Senhora de Lourdes – com o anúncio do Papa Bento XVI: renunciaria no dia 28 de fevereiro.
Uma jornalista que sabia Latim deu o furo, quase inacreditável: Bento XVI deixaria de ser papa. Ele revelou o que pretendia numa reunião restrita com acesso apenas aos jornalistas que cobrem o Vaticano. Naquele momento, alegou não ter mais forças físicas e mentais para continuar a sua missão.
O desgaste de seu pontificado havia sido grande. Escândalos de pedofilia, corrupção, financeiros, Vatileaks e grandes desafios pela frente. Gregório II foi o último papa a renunciar, há 600 anos. A renúncia consta em um dispositivo do Direito Canônico e o papa não deve ser criticado por tomar essa difícil decisão.
Sempre pensei que Bento XVI seria um papa de transição, mas não imaginei que seria dessa maneira que sairia da Igreja. Passei a admirar mais ainda o papa por seu gesto de humildade e grandeza, pois ele se desfaz do pastoreio de um rebanho de muitos católicos, que infelizmente tem seu número caindo com o tempo.
Teólogo brilhante, muitas vezes teve dificuldade de se posicionar na prática. Mas deixa um legado: a nossa jornada, Jornada Mundial da Juventude Rio 2013, o You CAT, um programa para jovens com base no Novo Catecismo da Igreja Católica e uma literatura religiosa vasta. A aparência austera dava lugar a uma figura doce.
Agora, a Igreja terá que conviver com dois papas: o emérito, Bento, e o próximo que será eleito através de um conclave que deverá se iniciar em meados de março. A partir do dia 28, ontem, na liturgia da missa não se falará mais nas orações para o papa: apenas para o bispo ou arcebispo de cada diocese e aguardaremos um novo postulante ao trono de Pedro.
Tempos difíceis, nós, católicos, viveremos, mas Deus está conosco. Não imagino grandes mudanças na ortodoxia da Igreja, mas flexibilidade em alguns temas. Um ponto crucial: o combate árduo à pedofilia tem que continuar com a expulsão dos padres pedófilos. E mais transparência na apuração de escândalos de corrupção no Vaticano.
A Igreja é feita por homens que pecam e erram. Admitir seus erros e procurar corrigi-los faz parte da condição humana. É um tempo de reconstrução da Igreja.
Gostaria de ver um papa brasileiro, mas meu candidato Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, não é cardeal ainda, então, não pode votar nem ser votado. Cinco cardeais brasileiros participarão do conclave: dom Raymundo Damasceno, arcebispo de Aparecida e presidente da CNBB, dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, dom Geraldo Majella, arcebispo emérito de Salvador, dom João Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, e dom Claudio Hummes, prefeito emérito da Congregação para o Clero.
Na corrida papal, os italianos são os favoritos: Angelo Scola e Gianfranco Ravasi. Bento XVI ficará recluso em Castelgandolfo, a 25 km ao sul de Roma, a residência de verão dos papas, por dois meses. Todos nós sabemos que ele terá influência na escolha do novo papa. Que o Espírito Santo ilumine a todos e traga novos tempos ao catolicismo.
Arrivederci, Bento XVI!
Até a próxima!
Forte abraço,
Anna Barros
Se Ravasi for eleito é sinal que algo muito errado está acontecendo, ele não tem o menor perfil pastoral. Também acho que Scola sofrerá com a divisão de egos atual dos “cardinales” italianos.
Quanto ao Tempesta, ele será bastante testado na JMV 13, mas é o maior favorito para ganhar o barrete cardinalicio no próximo consistório em 2014 ou 15. Mas como eu já havia escrito, se a Igreja politicamente se importasse com o ordenado brasileiro a nomeação cardinalícia de Tempesta já deveria ter saído no consistório de 2012.
Mantenho minha opinião de conclave de 3 dias.
Via de regra, pessoas renunciam ao poder diante de uma ameaça maior (nem sempre descoberta ao público). É o clássico “ele renunciou para não…”. Via de regra são classificados como fracos e/ou covardes na mídia (e na História).
Com esse papa está sendo diferente. Toda a chamada grande mídia está comprando a versão oficial sem tecer qualquer comentário crítico, sem duvidar, sem questionar.
Por um lado, mostra o nível da nossa imprensa. Por outro, mostra o poder remanescente da fé.
Minha visão é ácida: ele renunciou quando percebeu que iria estourar um escândalo de proporções desconhecidas que poderia arruinar a carreira e a reputação dele.