Nesta sexta feira, a coluna “Sabinadas”, do jornalista esportivo Fred Sabino, saúda os sessenta anos de idade daquele que é o ídolo de 11 entre 10 rubro negros: Zico.

Parabéns, Zico

Peço desculpas aos torcedores de outros clubes, sei que esse é um espaço jornalístico, mas queria aproveitar o espaço cedido pelo Migão para uma carta aberta a Zico, aniversariante do próximo domingo. Vamos à (longa) mensagem.

Caro Zico,

Na semana do teu aniversário de sessenta anos, muito bem vividos como você mesmo disse ao SporTV nesta semana, aproveito o espaço cedido pelo Pedro Migão, rubro-negro como nós, para te escrever algumas palavras.

Pra resumir, muito obrigado por ter despertado em mim o amor pelo Flamengo e pelo futebol.

Quando eu estava com quatro anos, em 1985, ainda não tinha tanta noção sobre o esporte bretão, tampouco havia escolhido clube para torcer.

Morava na famosa Selva de Pedra, reduto do Leblon bem próximo à sede do Flamengo, e minha mãe, não muito entusiasmada pelo futebol, nos levou ao clube para sermos sócios. É claro que seria uma boa forma de me fazer brincar, me divertir e conhecer amigos.

Na verdade, acabou sendo muito mais do que isso.

Dentre as inúmeras atividades nas quais eu poderia me divertir – sim, naquele tempo, sabemos bem, tínhamos um clube muito mais vivo na natação, vôlei, basquete, ginástica, tênis e até no parquinho – o futebol me chamou mais a atenção.

Havia uma alegria diferente nas diversas quadras do clube, inclusive no “golzinho” em que pirralhos como eu tínhamos condições de nos divertir. Havia um companheirismo entre as crianças, adolescentes e adultos que batiam a sua bolinha no Flamengo.

Para entender mais sobre futebol, passei a prestar mais atenção nos noticiários esportivos da TV, sempre a tiracolo de meu avô, botafoguense, e no que acontecia no Flamengo, que era a referência mais próxima da minha vida de criança. E percebi que alguém se destacava na telinha. O Galinho. Galinho?

Quem era o tal Galinho de quem tanto falavam. E percebia que meus coleguinhas de jogos, alguns um pouco mais velhos, se agitavam quando um cara em especial corria em volta do gramado, do outro lado da grade que dividia o campo do golzinho no qual nos divertíamos. Era o Galinho que eu procurava, você mesmo.

Em 1986, peguei teu autógrafo pela primeira vez, ajudado pela minha mãe diante do mar de crianças que te cercava – tenho até hoje o autógrafo, mas não consegui trazê-lo para São Paulo após a minha mudança. Daquele momento lembro da tua cortesia e do teu rápido abraço. E cada vez eu entendia melhor quem era você.

E, com o passar dos jogos que eu via (a maioria em compacto, na TVE, com narração de Januário de Oliveira) e das reportagens que meu avô lia para mim, comecei a entender o futebol e ver como você era diferente. Tocava quase sempre de primeira, lançava a bola mais longamente do que os outros, batia faltas com perfeição…

Passar o dia no Flamengo era um prazer. Tentava fazer no golzinho algo parecido com o que você fazia (sem sucesso, claro…) e gostava de ver os treinos. Aliás, achava um barato quando você pegava aquela barreira móvel no fim do dia para continuar treinando, lembra? Eu só saía quando já começava a escurecer, após insistência da minha mãe.

A escolha do clube do coração já não era mais um problema, claro. O futebol já era uma das minhas paixões, e a vontade em vê-lo em campo crescia a cada partida.

Daí viria a Copa de 1986, a primeira que eu poderia ver. Como muitas crianças, chorei quando o Brasil foi eliminado depois que aquele pênalti esbarrou nas mãos de Bats – assim como o de Sócrates também esbarrou e a cobrança de Júlio César explodiu na trave.

Na verdade, além da tristeza pela eliminação, já que na cabeça de uma criança seu time nunca pode cair, fiquei triste porque tinha gente falando mal de você. Não conhecia ainda esse lado do futebol e pra mim era uma ofensa falarem mal de você.

Mas logo as alegrias voltaram. Você foi operado de novo do joelho e conduziu um time cheio de craques ao tetracampeonato brasileiro – para desespero de alguns recalcados, que até hoje injustificavelmente tentam desmerecer esse título. Os gols decisivos e aquela pintura de falta contra o Santa Cruz são inesquecíveis.

É claro que o tempo foi impiedoso contigo, como é com os grandes nomes do esporte. Mas, se a condição física não era a ideal nos teus últimos anos de carreira no Flamengo, os passes geniais, a solução simples para as jogadas mais complicadas e as cobranças de falta magistrais perduraram.

Quando você decidiu parar eu ainda não entendia que isso era inevitável. Fiquei frustrado e, ainda mais frustrado, por não ter conseguido ir ao Maracanã na tua despedida. A tristeza ficou amenizada porque você mesmo liberou a transmissão da TV Bandeirantes para o Rio de Janeiro, lembra? Graças a você pude me despedir mesmo distante do velho Maraca.

Depois você emprestou genialidade ao Japão, criou um clube, e treinou algumas equipes. Até que, 20 anos depois, mas num piscar de olhos, você estava de volta ao Flamengo.

Já adulto, mas com esperança de que você pudesse mudar o podre sistema vigente nas internas da Gávea, comemorei como aquela criança dos anos 80.

Só que, você sabe bem, as forças ocultas (ou nem tanto…) agiram logo. O tempo mostrou (ou melhor, não mostrou nada, porque, é claro, ninguém comprovou o que te acusavam) a injustiça histórica que foi cometida. De qualquer forma, você acabou afastado do teu amor novamente, como em 1983, quando forçaram a tua venda para a Udinese.

Mas, Zico, não se preocupe. Estou certo de que todos os rubro-negros de bem, têm consciência do que aconteceu e agradecem todos os dias ao bom Deus por você ter marcado as nossas vidas.

É lógico que os gols, as vitórias e os títulos são marcantes – confesso, vi menos do que muita gente, já que por ser mais novo passei a acompanhar o futebol só depois da tua contusão no joelho. Mas saiba que você influenciou positivamente milhões de pessoas, principalmente as crianças que, como eu, te seguiram e torceram por você.

Pra encerrar, já que me alonguei muito, mesmo que você colabore com a atual gestão do Flamengo, não se sinta na obrigação de ocupar nenhum cargo, não. Tua missão está mais do que cumprida.

Comemore teus sessenta anos, Galo, e curta cada minuto da tua vida com quem te ama. A tua felicidade é a nossa felicidade.

Parabéns!