Torcida(Foto: R7.com)

Esta semana a coluna “Sabinadas”, do jornalista esportivo Fred Sabino, repercute os lamentáveis acontecimentos envolvendo a torcida do Corinthians na disputa da atual Taça Libertadores. Para se pensar.

Que Triste, Corinthians…

A grande polêmica das últimas semanas no futebol foi a punição ao Corinthians pelos incidentes na partida contra o San José pela Copa Libertadores, há mais de 15 dias, quando o jovem boliviano Kevin Espada acabou acertado por um sinalizador e morreu instantaneamente. 

A Conmebol, que poucas vezes – ou nenhuma – havia tomado medidas contra a histórica violência na competição, determinou que o clube paulista jogaria com portões fechados e não receberia ingressos para as partidas como visitante. 

Não quero neste espaço afirmar que a punição foi justa ou não. Embora tenha lido o regulamento da competição, não tenho embasamento para discernir os meandros jurídicos que o caso apresenta. Também não quero discutir se houve intenção de matar por parte de quem jogou aquele maldito sinalizador na torcida do San José. Isso eu não posso provar. 

Tampouco quero aqui discutir se o rapaz de 17 anos foi mesmo o autor do disparo ou se ele foi, digamos, “convidado” a confessar o crime para livrar os 12 que estão presos na Bolívia. Isso eu também não posso provar. 

O tema desta coluna é a posição do clube de São Paulo ao contestar a punição e de alguns cidadãos ao irem na marra ao Pacaembu para assistir a Corinthians x Millonarios na semana passada, amparados por liminares. 

Juridicamente falando, creio eu, tanto o Corinthians como seus simpatizantes poderiam até se achar no direito de recorrer. Mas moralmente a atitude de ambos foi, para ser politicamente correto, infeliz, triste e decepcionante. 

Independentemente da intenção, um torcedor do clube San José da Bolívia, de apenas 14 anos de idade, teve sua vida ceifada depois que um sinalizador foi atirado do local em que estavam os corintianos. Isso não pode ser discutido. 

Então, comecemos pelo clube. As boas maneiras sugeririam que a instituição Corinthians fizesse, por baixo, o seguinte: 

1 – pagasse por todas as despesas de funeral de Kevin Espada.

2 – pagasse indenização aos familiares do rapaz.

3 – aceitasse qualquer punição por parte da Conmebol, até mesmo uma exclusão do torneio.

4 – tomasse providências definitivas para evitar que seus torcedores cometessem mais atos de vandalismo. 

Mas o clube situado nas proximidades da Marginal Tietê – não, não estou fazendo trocadilhos com a palavra marginal – resolveu tomar a seguinte atitude: 

1 – não se interessou pela família de Kevin Espada, ou pelo menos não manifestou isso.

2 – recorreu da punição por não se sentir responsável pelo cidadão que atirou o sinalizador – estava com integrantes de uma facção apoiada pelo clube.

3 – ameaçou sair da competição, não como luto, mas por julgar que estava sendo perseguido e era vítima de um complô.

4 – bradou que seus 30 milhões de torcedores (número bem inflacionado, diga-se de passagem) não deveriam pagar por um erro de um cidadão. 

Isto posto, ficou evidente que o Corinthians só se preocupou com as questões técnicas decorrentes da punição. Apenas quis evitar o prejuízo de não ter apoio de seu “bando de loucos” – me refiro ao apelido da torcida, não estou chamando todos os torcedores do Corinthians de loucos no sentido literal – em uma competição onde o “fator casa” ainda é um handicap considerável. 

Já os seis paulistanos que entraram com pedidos de liminares para assistirem ao jogo, além de claramente demonstrarem total descompromisso com o sofrimento da família do torcedor boliviano, estavam interessados apenas no próprio umbigo. 

Quiseram mostrar esperteza e publicar nas redes sociais imagens demonstrando que eles, e o clube pelo qual torcem, conseguiam passar por cima de uma punição. O velho “jeitinho brasileiro”. 

Dos seis que conseguiram liminares, dois ainda foram convencidos pelo clube a não entrarem no Pacaembu. A estratégia do Corinthians mais pareceu evitar argumentos para que a Conmebol aplicasse uma punição mais severa. Lógico que o clube fez questão de dizer que estava cumprindo determinação judicial e não tinha responsabilidade. 

O que vai acontecer daqui para a frente é impossível saber. Pode ser que a Conmebol reveja sua posição em punir o Corinthians, pode ser que aumente a pena, pode ser que fique na mesma, pode ser que mais torcedores consigam liminares, etc… 

Certo é que o clube de São Paulo perdeu uma grande oportunidade de mostrar grandeza. Poderia acatar a atual punição e, após um eventual julgamento favorável a ele, iniciar uma nova era de paz e cidadania nos estádios brasileiros com seus torcedores. 

Um bicampeonato da Libertadores nessas condições seria de uma magnitude exemplar, assim como o clube foi Timão ao jogar a Série B quando caiu e se reestruturou como fez nas últimas temporadas, colocando-se na vanguarda do futebol nacional. 

Mas, pela forma arrogante como está agindo, julgando-se acima do Universo, nem com muito alvejante o Corinthians vai apagar essa mancha na sua história.

[N.do.E.: pior, está dando argumentos àqueles que defendem a elitização radical do futebol brasileiro.]

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