Temos a estréia de uma nova coluna hoje. É a “Kritizismus” (Criticismo, traduzido do alemão), assinada pelo especialista em Finanças e Gestão Pública Jorge Farah (Jeff). O novo colunista assinou texto no início do ano sobre fundos de investimentos e terá uma coluna sem atualização definida.
Na estreia, o novo colunista desmistifica uma ideia corrente: de que os recursos para as Olimpíadas do Rio de Janeiro estão tirando recursos de gastos sociais.
As Olimpíadas e os Gastos Sociais
“Ao…Ão …Ão… Olimpíadas, não!
Queremos Saúde e Educação!”
Cantos e diversas formas de protestos tendo como base o questionamento de recursos públicos que estão sendo investidos nos grandes eventos e não em programas sociais são muito comuns. O tema é recorrente até mesmo nos fóruns virtuais de discussão que eu participo. Com o fechamento do Engenhão, um dos pouquíssimos legados do Pan, o debate ferveu e resolvi iniciar aqui no Ouro de Tolo uma série de artigos para promover uma reflexão sobre finanças e gestão pública, tendo como base os Jogos Olímpicos de 2016.
Peço licença aos que entendem do assunto, mas irei procurar usar uma linguagem acessível à maioria das pessoas e explicar conceitos que não sei se todos possuem. Os comentários poderão me ajudar a nivelar os leitores. Portanto, agradeço a quem os fizer.
O objetivo deste primeiro artigo é o de ajudar a responder as perguntas: os Jogos Olímpicos atrapalham os investimentos sociais? A Saúde e a Educação poderiam ter mais verbas se não fossem os enormes gastos com as Olimpíadas?
Em primeiro lugar é preciso saber que nem todas as receitas são livres, podendo ser utilizadas de forma discricionária, por decisão do Poder Executivo.
Taxas, contratos e convênios são exemplos de fontes cujo destino é vinculado a alguma finalidade. Assim, o dinheiro recolhido da Taxa de Coleta de Lixo deve ser utilizado exclusivamente na limpeza urbana. Um financiamento do Banco Mundial também tem sua aplicação definida e fiscalizada pelo agente financiador.
Só como curiosidade, livres por determinação constitucional são as entradas referentes ao recolhimento de impostos. Assim, o dinheiro do IPVA não precisa ser utilizado necessariamente em melhorias das rodovias. Trata-se de um engano muito comum.
Voltando ao nosso tema, uma parte dos investimentos para montar a infra-estrutura necessária para receber os Jogos Olímpicos de 2016 é fruto de operações de convênio ou de contrato, representando o que se chama de “dinheiro carimbado”. Não pode, assim, ser utilizado, por exemplo, para reforma em escolas (se não foi este o objeto do contrato ou convênio).
Os protestos e queixas costumam ter como principal alvo a exigência de maiores verbas para Saúde e Educação. Também pudera, são duas áreas onde há um enorme descaso dos governos de forma geral.
Porém, essas áreas são protegidas constitucionalmente. União, Estados, Distrito Federal e Municípios estão obrigados a destinar uma parcela dos impostos “para manutenção e desenvolvimento do ensino“ e “em ações e serviços públicos de saúde”. No caso de municípios (maior parcela) é necessário destinar ao menos 25% do recolhimento dos impostos em Educação e 15% em Saúde.
Dessa forma, quanto maior a arrecadação, maior o gasto com Saúde e Educação. No caso das Olimpíadas, por exemplo, a cidade virou um canteiro de obras (públicas e privadas). Entre outras consequências há aumento na arrecadação de ISS (obras), IPTU (aumenta-se a área construída dos imóveis) e ITBI (especulação imobiliária).
As Olimpíadas, aliás, foram um dos fatores que colaboraram para o orçamento do Município do Rio de Janeiro duplicar nos últimos quatro anos. O gráfico abaixo demonstra a evolução das liquidações de despesas por funções de governo, ou seja, todas as despesas pagas ou em condições de serem pagas.
(Dados: Prefeitura do Rio de Janeiro)
Como podem verificar, as Olimpíadas não diminuíram o investimento em saúde e educação; mas, ao contrário, os ampliaram, inclusive percentualmente. Assim sendo, não tem base a gritaria comum de que os jogos estão dragando recursos que deveriam ser destinados às funções básicas do governo.
Trata-se de um mito.
Portanto, ao invés de levantar suas plaquinhas e pedir pela não realização de grandes eventos no país, o mais adequado talvez fosse fiscalizar os gastos e brigar pelas prioridades de legados que se deseja obter. Não faz qualquer sentido brigar contra a entrada de recursos.
Retomaremos o tema.
Absolutamente sensacional a coluna. Expressou o que sempre defendi, até mesmo em outros colunas no Ouro de Tolo. Só não tive a capacidade de sentar e complicar logicamente todos os dados incluídos. É exatamente isso: se o governo não está investindo o que deveria em saúde e educação (e até isso é discutível, pois o problema não é de dinheiro, mas de gestão) não é por causa dos Jogos Olímpicos que deixará de investir.
Eu estava conversando isso ontem com uma pessoa próxima: ele escreveu o que eu sempre quis, mas me faltava conhecimento
Rafic,
Agradeço pelo comentário e elogio. Concordo em relação à saúde e à Educação. É questão de gestão. Inclusive é comum haver sobras de recursos das duas fontes no final de cada exercício em diversos entes. É um bom tema para uma coluna futura.
Obrigado
Penso exatamente como ele .. As cidades as vezes ( e no caso da Copa isso é latente) deixam essas oportunidades escaparem para atrair o investimento…
As pessoas confundem explosão de gastos sem licitação e roubalheira com construção de hospital e educação…
Bela coluna
Pois é, há muita mistificação em gasto público
Obrigado, Emerson
Ainda bem que sempre tive o prazer de conhecer os bons textos do Jeff, de listas de discussão onde participo com ele. E sobre esse tema especificamente, ele conseguiu me esclarecer bastante.
Mas continuo sendo contrário à realização de eventos onde o desperdício de dinheiro público se faz tão presente. É um absurdo como gerimos mal, é um absurdo o quanto ainda somos corruptos. É como você dar uma mesada para o seu filho, exigir que ele use 30% para a sua saúde, 30% para a sua educação, e saber que ele nem está preparado e nem quer gastar bem o seu dinheiro, e mesmo assim, você aumenta essa mesada, com o intuito de vê-lo gastando mais e melhor o seu dinheiro com saúde e educação.
Assim como com o seu filho, você deveria se preocupar em ensiná-lo a gastar melhor o seu dinheiro. Você deveria observar os seus gastos, antes de aumentar a sua mesada.
Posso não controlar para onde o meu dinheiro deve ir, mas sou contrário à realização de eventos onde, por conhecer os meus gestores, sei que não se traduzirão em ganhos para a população. Mesmo para as Olimpíadas, onde a chance de ganhos para a população carioca é maior, e está mais longe, já surgem péssimas notícias relacionadas ao nosso dinheiro. Para a copa então, nem se fala. Um fracasso! Bilhões de reais sendo jogados no lixo! Como posso ser a favor?
Taí o Pan para não me deixar mentir. Depois da copa, voltamos a conversar, já que em cima da hora, muito, muito dinheiro público será injetado para garantir a realização desse evento que serve, dentre outras coisas, a sustentar instituições esportivas altamente corruptas.
Não gosto de DESPERDÍCIO em casa, não vou gostar de desperdício público.
Abraço Jeff e parabéns pelo texto
Gustavo,
Obrigado pela visita e o artigo nasceu em um papo contigo. Novamente traz um ótimo tema. Quem sabe não exploro numa das próximas colunas.
Obrigado.
Sensacional!!!