Conversando ontem com o também colunista deste Ouro de Tolo, Walter Monteiro, comentei que havia adquirido pela primeira vez este ano o “Game Pass” da NFL. Este é um serviço oferecido pela organizadora do campeonato e que consiste, basicamente, em poder assistir às partidas online e ao vivo, bem como replays. Falarei mais sobre.
O colunista argumentou que não entendia como eu havia achado um bom preço no pacote enquanto considerava R$ 90 um ingresso “caro” para assistir ao Flamengo no estádio. Daí sobreveio uma serie de considerações, que divido aqui.
Antes de mais nada, não podemos misturar bananas com laranjas. O NFL Game Pass tem três tipos de pacotes: um completo, onde se pode assistir a todos os jogos da pré temporada, da temporada regular e os playoffs, bem como VTs destes mesmos jogos e de partidas entre 2009/2012. O segundo contempla apenas a pré temporada e a temporada regular, sem os playoffs, enquanto o terceiro consiste apenas nos jogos de uma determinada equipe no torneio – o cliente escolhe o time para o qual torce e pode acompanhar todos os jogos entre pré temporada e temporada regular.
Como o leitor pode ver pela imagem, “printada” do site oficial da entidade, os preços são de aproximadamente R$ 400 para o pacote completo, R$ 264 para o intermediário e R$ 200 para o que chamaria de “siga seu time”. Aqui para o Brasil, onde não há uma espécie de “pay per view” televisivo, é uma boa opção para assistir às partidas, muitas vezes a única. Apesar da Espn estar com uma boa cobertura para o Brasil, sempre com cinco jogos por rodada, existe uma concentração natural nos times que detém maiores torcidas por aqui ou os últimos campeões: 49ers, Patriots, Giants, Packers, Cowboys, Ravens e mais um ou dois.
Para um torcedor do Miami Dolphins, por exemplo (como o colunista da Bissexta), o Game Pass é praticamente a única opção para se assistir às partidas, seja ao vivo, seja em VT – a tv a cabo brasileira não vai transmitir mais do que uma ou duas partidas da equipe dos golfinhos durante uma temporada.
O leitor pode fazer a mesma pergunta que o colunista me fez: é bom preço se pagar R$ 400 para assistir às partidas da NFL e é caro R$ 90 para uma partida do Flamengo, por exemplo?
Precisamos perceber que o preço do pacote da NFL é para a temporada inteira. Mesmo que não incluamos na conta os jogos de playoffs – até porque todos eles são transmitidos pela Espn e não há a garantia que o time do assinante vá chegar a esta fase – além das outras vantagens oferecidas o pacote completo inclui quatro jogos de pré temporada e 16 da temporada regular, em um total de 20 partidas. Isso daria R$ 20 por jogo.
Na verdade este valor deveria ser dividido por 87 para que se tenha uma análise mais adequada, porque este é o número de partidas máximo da temporada regular (não incluindo a pré) a que se pode ver ao vivo desconsiderando-se as partidas que ocorrem simultaneamente. Ou seja, daria R$ 4,80 por partida. No pacote intermediário, que basicamente dá direito apenas aos jogos ao vivo e sem playoffs, este valor cai para R$3 por peleja.

Isso me leva a pensar neste processo de elitização do público dos estádios a que estamos observando. Incentivada pela Copa das Confederações e pela Copa do Mundo a serem sediadas no Brasil, especialmente com as novas arenas construídas ou em construção, observa-se um movimento no sentido de se ‘trocar’ o público dos estádios. Sai a paixão popular do torcedor que sempre sustentou o futebol, entra o público de classe média e alta que pode pagar mais caro – e consumir mais.
Este movimento vem também no bojo de uma série de “normatizações” do modo de torcer aqui no Brasil – como abordei de passagem em post anterior sobre as canções dos estádios. O público que pulsa, canta e vibra hoje é considerado “errado”, e o torcedor precisa ser doutrinado a se comportar como se estivesse em um teatro: sentadinho, aplaudindo e quieto. Xingar? Nem pensar. Cerveja? Precisa ser banida “pelo bem da sociedade”. Bandeiras e papel picado? “Podem se transformar em armas”.
Obviamente este fenômeno ocorre dentro de um contexto geral de cada vez maior “correta politização” de uma sociedade. Contudo não é o mais importante aqui.
“Trocando-se” o público dos estádios pode-se ter uma renda maior não somente no total como “por cabeça”. A expectativa nestas novas arenas sai um pouco do plano esportivo e volta-se ao financeiro: o objetivo maior passa a ser rentabilizar estes espaços de forma a conquistar lucro.
Um bom exemplo é a postura da diretoria do Flamengo no sentido de se majorar os preços dos ingressos. O discurso é claro: “estádio é só para quem pode pagar caro. Quem não pode, contente-se com a tv”. A política é a de segmentar o público torcedor em faixas: os privilegiados de maior renda que poderão ir aos estádios, consumir produtos e eventualmente estarem em categorias de sócio torcedor mais caras de um lado, o resto do outro.
O leitor pode argumentar que estes preços de ingressos mais caros – fala-se em R$90 para o mais barato no Maracanã – serão pagos por poucas pessoas tendo em vista o projeto de “sócio torcedor” (que, aliás, é tudo, menos um programa de sócios) do Flamengo. Mas as iniciativas tomadas até o momento pelo clube indicam que se houver alguma vantagem será apenas a de ter prioridade na compra de ingressos, não no valor.
Aliás, para se fechar o parêntese: o marketing rubro negro deixa claro que aquele que deseja “se associar” não deve esperar qualquer tipo de vantagem que não seja “ajudar” o clube. Por isso que até hoje não me “associei”. Fecha o parêntese.
Utilizo o Flamengo como exemplo, mas este é um fenômeno que se espalha por outros clubes: basta ver quanto o Corinthians cobrou em suas partidas pela Copa Libertadores nos dois últimos anos para se perceber que o caminho é exatamente o mesmo: quem tem grana vê no estádio, quem não tem assiste na tv. Ou os preços de ingressos para o recente Santos e Flamengo em Brasília. E este fenômeno está só começando.
Resta saber também se os serviços oferecidos aos “privilegiados” que tem R$ 150, 200 para assistir a uma partida neste “novo” futebol brasileiro irão estar neste nível. Este público não acha tolerável banheiros sujos ou não ter opções mínimas de alimentação e entretenimento pré jogo, por exemplo. Se a ideia é se afastar da paixão e transformar o futebol brasileiro em uma simples opção de lazer, os serviços oferecidos deverão estar à altura.
Que fique claro: acho que os estádios podem ser setorizados a fim de que tenhamos todos os tipos de público. Há espaço para o público levado pela paixão, que canta, pula e vibra – e que faz parte do “pacote de entretenimento” de um jogo de futebol – e para o que pretende simplesmente assistir ao jogo sentadinho em suas cadeiras. Rentabilizar de melhor forma o “evento” dia de jogo pode e deve ser buscado.
O que não acho adequado é esta “elitização” no sentido de que somente um tipo de público e de maneira de torcer seja “bom”, ou “válido”. Grande parte da força do futebol brasileiro vem justamente da paixão com que o assunto é tratado no Brasil. Afastar este componente é maximizar a visão utilitarista de curto prazo, mas talvez matar a “galinha dos ovos de ouro” a médio e longo. Um meio termo é perfeitamente possível.
Nesta questão ainda tem de se entrar a análise das condições em que as novas arenas construídas para a Copa estão sendo oferecidas aos clubes. Não tenho maiores detalhes, mas pelo menos o que se veiculou na imprensa sobre o que foi oferecido ao Flamengo para jogar no Maracanã demonstra condições bastante desfavoráveis ao clube. Ainda mais se sabendo que sem o Flamengo e o Fluminense o Maracanã se transforma em um imenso “elefante branco”. Ou seja, é algo que pode e precisa ser negociado e renegociado.
Chega a ser curioso isso: se por um lado se impõe ao torcedor um novo modelo de gestão onde se exige que se despenda maiores valores a fim de se manter o padrão de “torcer”, por outro não observo, como um todo, a mesma disposição em negociar com o Poder Público ou os gestores destas novas arenas, com potencial de multiplicação de recursos para as equipes. Lógico: a corda sempre arrebenta do lado mais fraco.
Não esgoto aqui o tema, longe disso, mas o leitor agora deve entender porque acho um bom preço pagar R$ 400 anuais para acompanhar o New York Giants na NFL pela internet e acho complicado despender R$ 90 para ver o Flamengo jogar uma única vez em um lugar atrás do gol quase na marquise do Maracanã. Talvez por esta visão de negócio que em termos empresariais a NFL seja a potência que é; e o futebol brasileiro, talvez o negócio esportivo mais mal explorado do mundo. Nosso futebol tem potencial de ser a “NFL” do soccer, mas não nos moldes em que se pretende a modernização. A chave é incluir, não excluir.
Abaixo o leitor pode ver os serviços oferecidos pelo Game Pass e a diferença entre os planos. Está em inglês, mas perfeitamente compreensível. O processo é simples e rápido, e ainda inclui um aplicativo para celular.
Ainda sim eu acho o Game Pass caro. Apenas como comparação, o pacote premium da MLB.TV (baseball) custa 130 dólares e dá direito a todos os jogos de pré e pós temporada (no total são mais de 2000 jogos) sendo que você ainda pode escolher a transmissão de qualquer dos 2 times e ainda tem direito a todas as rádios (ou seja, posso assistir a imagem da TV e ouvir o áudio da rádio).
Também tem aplicativo para android e IoS.
Eu não sabia dos dados da MLB, mas minha comparação foi com a realidade brasileira. Ainda assim é ponto importante a ser adicionado ao debate.
Boa magrão, veja o baseball então!!!
MLB é mais barato pq é mais chato! rs
Ótimo texto.
Você esqueceu também de colocar que junto com o pacote ainda vem a NFL Network que fala de futebol americano 24 horas por dia, 7 dias por semana. Sou viciada. Assisto todos os dias :)
Valéria, com ojá escrevi no Twitter eu sou burro demais para aprender baseball. E bem lembrado quanto à NFL Network
Ótimo post! Assinei o Game Pass e estou muito satisfeito com a qualidade da transmissão! Acho o preço justo!
Obrigado. Eu irei voltar ao tema brevemente, comparando com o péssimo serviço oferecido pelo PPV do futebol brasileiro. abraços
Concordo com a matéria e prometi a mim mesmo que não irei conhecer o Maraca enquanto os preços não despencarem. Ainda ei de ver este ano o elenco do Flamengo suplicando a presença da torcida em canal aberto para impulsionar o time a se livrar do rebaixamento como aconteceu em outros anos. Quanto ao gamepass eu só não comprei o pacote do Patriots pq tenho uma dúvida e gostaria que alguém daqui me esclarecesse: Com 5mb de velocidade da pra assistir legal as transmissões em HD?
Bruno, eu vou voltar ao tema do Game Pass brevemente. O que posso dizer é que tenho uma conexão de 10Mb e assisti tranquilamente a Dolphins e Cowboys no último domingo. A qualidade da imagem cai em alguns momentos mas é HD 95% do tempo
Ou seja, pode comprar os jogos do Patriots, e espero sinceramente que ele seja o adversário dos Giants no Superbowl – assim posso encomendar o chope antecipadamente rs
rsrs valeu pela dica, nos veremos no superbowl e farei questão de retornar ao site rsrs
Vai retornar para me parabenizar (rs). Se bem que se perder o terceiro SuperBowl pros Giants é caso de pedir música no Fantástico. Sbs
uma questão a se considerar é que vc vai gastar muito mais que o valor do ingresso digo combustível, estacionamento e outros possíveis gastos.
O mais interessante para mim no gamepass é o fato de assistir de qualquer lugar seja em uma viagem, no trabalho ou no conforto de casa. Se vc fala em assistir apenas um jogo no estádio por 90 reais, tudo bem, a questão é que vc vai precisar de muito mais que 90 reais p acompanhar toda a temporada do Flamengo no maracanã.