Nesta quinta feira a coluna “Sabinadas”, do jornalista esportivo Fred Sabino, faz uma análise das deficiências de formação dos jogadorers brasileiros de futebol, tomando como exemplo o ex-craque do Flamengo Júnior (foto). O curioso é que Junior ainda jogaria em uma quarta posição em sua carreira: ele fez alguns jogos como zagueiro em 1989, inclusive o famoso Flamengo e Vasco que ficou conhecido como o “jogo do Bujica”.
Júnior, polivalência e base fraca
Ontem, quarta-feira completaram-se 20 anos da última partida profissional de Leovegildo Lins da Gama Júnior, um dos maiores nomes da história do futebol brasileiro. Lateral-direito de origem, lateral-esquerdo por adoção e meio-campista por consagração, Júnior desfilou todos os dotes que constituem um craque: inteligência, habilidade (com as duas pernas, é bom que se diga), determinação, liderança e, por fim, títulos. Muitos títulos.
Júnior foi outro craque de sua geração que não conquistou uma Copa do Mundo. Em 1978 deveria ter sido convocado e o falecido técnico Claudio Coutinho lamentou o equívoco até sua morte, em 1981. No Mundial de 1982, Júnior enfim acabou chamado e foi um dos destaques da Seleção de Telê, com direito a gol entre as pernas do argentino Fillol. Em 1986 voltou a mostrar bom futebol, já como meia. Não ganhou a Copa, sim, mas isso não o desabona.
Sua volta ao Flamengo, em 1989, para atender a um desejo do filho, rendeu mais títulos: a Copa do Brasil de 1990, o Carioca de 1991, e o Brasileiro de 1992. Neste último, o Vovô Garoto como era chamado conseguiu brilhar ainda mais do que em toda a carreira. Foi o artilheiro do time, com nove gols (um em cada jogo da decisão contra o Botafogo), e comandou uma geração de bons valores que viria a conquistar outros títulos por diversos clubes.
Como já escrevi no começo, Júnior jogou em três posições diferentes, e bem em todas. E, mesmo quando era lateral, estava à frente de seu tempo, apoiando constantemente na linha de fundo ou mesmo derivando para o meio. É claro que isso o expunha a contra-ataques, mas técnicos como o próprio Coutinho e Carpegiani conseguiram aproveitar o potencial de Júnior sem desguarnecer tanto a defesa. No meio, então, com mais liberdade, literalmente regia o time em campo.
Isto posto, além de uma homenagem ao gênio forjado nas acirradas partidas de futebol de praia em Copacabana, esta coluna propõe uma reflexão: por que nosso futebol quase não produz mais jogadores como Júnior? Não falo em talento: afinal depois deles tivemos nomes brilhantes como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Neymar, só para lembrar alguns. Mas falo de uma palavra que todo treinador gosta, mas quase não conta no dia a dia: polivalência.
De todos os principais jogadores do futebol brasileiro atual, vejo apenas um com a tal polivalência numa grande escala: o volante corintiano Paulinho. Um jogador capaz de desarmar com eficiência, acertar passes curtos ou em profundidade, cruzar com bom aproveitamento e até finalizar bem, seja de cabeça ou com os dois pés. Evidentemente não digo aqui que Paulinho é o novo Júnior; mas sim que ele apresenta bom desempenho em diversas faixas do campo como o antigo craque.
Ah, mas existem outros bons jogadores no Brasil? É claro que sim, mas não na profusão que se exige para que retomemos a condição de seleção temida e respeitada incondicionalmente pelos adversários mundo afora. Para falar só das duas melhores seleções da atualidade, Espanha e Alemanha estão repletas de jogadores polivalentes. Cito dois de cada lado: Schweinsteiger e Podolski, além de Xavi e Iniesta, todos capazes de jogar mais recuados como também arrematando a gol.
Mas por que quase não descobrirmos mais jogadores polivalentes?
O erro é fundamentalmente na base. Infelizmente os treinadores das divisões inferiores estão preocupados com a competitividade e não com a mescla disso com o desenvolvimento dos jogadores. Nas peneiras, escolhe-se o mais forte e não necessariamente o mais capacitado tecnicamente. A preocupação não é com o fundamento dos jogadores, mas sim se ele aguenta o tranco.
É preciso aprender de uma vez por todas que não só a habilidade e não só a força são características fundamentais para um jogador de futebol. Há diversos atletas em clubes brasileiros de elite incapazes de executar ações elementares, como dar um passe de dez metros, analisar a melhor jogada ou mesmo chute a gol. Ora bolas, de que adianta a bola ser roubada se ela vai ser entregue de graça segundos depois? É do equilíbrio que se chega à tão sonhada polivalência. E a uma boa Seleção.
Falta de entrosamento à parte, o que é normal devido às restrições de calendário, não consigo enxergar uma Seleção Brasileira preparada para encarar de frente outros adversários de peso no momento. Estamos um ou mais degraus abaixo de outras seleções. Tudo porque não estamos formando mais jogadores como se deveria.
O Brasil pode até ganhar a Copa das Confederações e mesmo a Copa do Mundo. Existe o fator casa, jogadores como Neymar podem desequilibrar e as chaves podem ser favoráveis. Mas, independentemente de qualquer resultado de campo, é preciso revolucionar a formação de jogadores para que ao menos tenhamos prazer em ver a nossa Seleção atuar.
Conhecendo Júnior, duvido que ele esteja gostando do que está vendo…