Nesta sexta feira, a coluna “Sobretudo”, do publicitário Affonso Romero, nos traz um tema musical.
O Maior Cantor do Brasil
Numa das primeiras colunas que eu escrevi aqui para o Ouro de Tolo, falei sobre a vida e a carreira de um cantor que eu curti bastante na minha primeira infância: Simonal. O texto foi inspirado pelo verdadeiro revival da turma da pilantragem que culminou no lançamento do dvd/cd “O Baile do Simonal”, em que a fina-flor da música brasileira presta tributo ao rei do swing dos anos 60 e do documentário “Ninguém Sabe o Duro que Dei”, do ex-Casseta Cláudio Manoel.
Um dos depoimentos do documentário é do multitalentoso Miele, que acompanhou de perto a trajetória do cantor. Para Miele, Simonal foi o maior cantor do Brasil nos seus anos de sucesso. A afirmação contrasta com o ostracismo a que seu nome foi relegado e, por isso mesmo, precisa de uma explicação: numa época em que começaram a despontar os cantores-compositores que passaram a caracterizar a MPB (Caetano, Gil, Chico etc.), Simonal era um cantor-cantor, capaz de encantar multidões e ser, ao mesmo tempo, sofisticado.
No dia 11 de maio vi o show de lançamento do novo cd do Simoninha em São Paulo. O disco marca a maturidade artística do filho que confirma o ditado sobre filhos de peixe. No caso, eu diria que “filho de tubarão, tubarão é”.
E eu vou resumir minhas impressões numa afirmação que se fará conscientemente polêmica e ousada: Simoninha é, hoje, o maior cantor do Brasil.
Está certo que esta mania de fazer listas dos maiores-isto e maiores-aquilo é tanto imprecisa quanto pessoal, subjetiva e pretensiosa. Para não dizer que tende ao cometimento de grandes injustiças e parcialidades. Chacrinha, o Velho Guerreiro, era capaz de apresentar dez atrações seguidas do seu programa como sendo “o-maior-alguma-coisa-do-universo”, do alto de sua loucura sã.
Eu não teria cometido esta frase enquanto estava vivo o Emílio Santiago. Digo aos fãs do Ed Motta, de quem também bato palma na primeira fila, que o Ed é tão exuberante em sua superioridade vocal que pegou o gosto pelo exagero e o narcisismo estilístico. O Seu Jorge é tão bom que a linha de chegada tem que ser definida na foto. E como eu sou sempre lento para escrever a coluna, deu tempo de ir ver o show em formato semiacústico do disco “8”, do Pedro Mariano, a quem eu também poderia qualificar como “o-maior-alguma-coisa-do-Brasil” de tanto que eu gosto. Mas, este ano, o Simoninha leva a estatueta.
O Simoninha tem a sorte de estar vivíssimo, cantar com grau zero de exibicionismo e ter herdado cada gota de swing do pai, além do timbre característico. Aliás, a simplicidade é a tônica do cantar do sujeito. Muito molejo, sem que o ouvinte tenha que se dar conta disso. Tudo parece fácil e natural, e este é o maior trunfo e, talvez, a razão pela qual pouca gente arriscaria dizer que ele é extraordinário. Só que a simplicidade é a última fronteira da genialidade, ainda que pouca gente se encante por ela.
A primeira vez que eu ouvi o Simoninha eu não gostei. Tem tempo demais para que eu ainda lembre bem do motivo. Foi no disco-projeto “Artistas Reunidos”, de 1998. Não senti firmeza, parecia um cantor inseguro que estava ali por ser filho de um famoso. O que me leva a refletir que pode ter sido preconceito meu à primeira audição.
De lá para cá, Simoninha firmou-se como produtor, tocou adiante uma gravadora, cresceu musicalmente ao lado do que há de melhor entre os artistas paulistanos de sua geração (ou um pouco mais jovens, na verdade). Há uma turma boa com DNA de grandes nomes dos anos 60 e 70 aos quais se somam compositores e músicos de talento e estudo; tudo regado a bom gosto e ouvido atento a uma sonoridade contemporânea que tem dividido estúdios, palcos e projetos.
O Simoninha já havia me impressionado muito bem em seus discos-solo anteriores. Vibrei com o tributo ao Jorge Ben(jor), com quem ele havia trabalhado bem antes como músico. Fui a um show e, depois, a uma sequência incontável de shows-tributo ao velho Simonal, que alimentaram uma legião de fãs – principalmente em São Paulo – com a repetição do set-list da pilantragem, trocando o palco e os eventuais artistas convidados. Esta turnê, imagino eu, deve ter tido um caráter libertador para Simoninha e seu irmão Max de Castro (de quem falarei em breve). Ter conseguido resgatar o nome e a memória do grande artista que foi o pai deixou os “meninos” livres, leves e soltos.
Para Simoninha, cuja voz já soava bastante similar à de Simonal, deve ter sido a oportunidade de se esmerar na interpretação de alguns clássicos daquele repertório, ganhando mais swing a cada apresentação. Esse efeito faz-se sentir claramente na carreira solo. Agora, e com alguma demora em relação à idade cronológica, Simoninha alcança a maturidade artística.
O show do Ibirapuera foi o segundo dele que eu vi este ano. O primeiro, no Sesc Bom Retiro, foi para um público bem menor e antes do lançamento do disco. No Ibirapuera foi possível perceber um domínio completo do palco e da plateia, um repertório caprichado e todas as facetas do artista.
Num determinado momento, sentou-se ao piano para fazer versões alternativas dos sucessos anteriores “Mais um lamento” e “Agosto” e brincou com o público: “- Agora é hora do Camaro Amarelo”. Típico humor “simonístico”. Mas frente às risadas da audiência, emendou com doçura: – “ É, mas se eu pedisse para cantar, todo mundo saberia a letra…”
Comprei o cd no saguão, levei no camarim para o autógrafo. O cara é uma figura, sempre simpático, parece fazer disso um princípio de vida. Fiquei imaginando o quanto a vida já bateu nele, e ele é daquelas pessoas iluminadas capaz de devolver tudo com talento e sorrisos. Ganhou de vez um espaço no meu coração de fã, minha admiração: um cara que faz do palco e do disco um espaço para a felicidade. Além de ser – e me perdoem a ousadia de dizer assim na lata – o maior cantor do Brasil.
Esqueci de dar a dica, amigo leitor: caso você compre o disco, vá ao show ou tenha acesso de alguma forma ao repertório novo, não deixe de ouvir com especial atenção à faixa “Nós Dois”. Boa demais.