Neste sábado, mais uma edição da coluna de contos sambistas do compositor Aloisio Villar, a “Enredo do Meu Samba”.

Trocando as bolas

Senti um arrepio com a história. A gente nunca sabe com quem convive; quem vê cara não vê coração e em todos os clichês disponíveis eu pensei. Olhei para Saulo e o homem estava em um canto conversando com algumas pessoas. O rosto era de cansado, olhar triste, natural.

Perguntei sobre Gaspar e Manolo me contou que estava internado em um hospital psiquiátrico. Olhei mais um tempo para Saulo e me aproximei do grupo para bater papo e falar de amenidades.

O samba com feijoada corria solto. Fui pegar uma cerveja com o Almeidinha e o Zé se aproximou também para pedir uma. O namorado de Bia agradeceu o convite e disse achar bacana a minha relação com sua namorada, de adultos.

Almeidinha entregou nossas cervejas junto com um copo com gelo que Zé tinha pedido. Ele olhou pra mim, disse que estava quente demais e passou um pedaço de gelo na nuca soltando um “ai”. Achei que estava na hora de voltar pra mesa.

Ao sentar meu pai virou pra mim e disse “é, ele é..”, antes de beber perguntei “não falei?”. Bia se aproximou e perguntou do que falávamos.

Respondi que era nada demais e Julinha veio para meu colo agradecendo por ter chamado, pois estava muito legal. Bia olhou pra mim e sorrindo agradeceu também. Não pude perder a oportunidade e retruquei “Olha, um sorriso”; minha ex, rindo, pediu que eu não me acostumasse.

O samba rolava e eu totalmente absorto pela idéia do livro olhava a cada um pensando que história cada pessoa ali presente tinha por trás, cada caso extraordinário que poderia ser contado quando um homem se aproximou de meu pai lhe cumprimentando.

Era o Cardosinho, diretor de harmonia da Unidos do Robalo. O homem cumprimentou meu pai e disse que meu velho fazia falta na escola. Seu Jair foi diretor da agremiação durante alguns anos.

Meu pai colocou a mão no ombro de Cardosinho e perguntou o que ocorrera que a escola mais uma vez fora rebaixada e agora iria desfilar na Intendente Magalhães. Cardosinho se lamentou e contou que sem o Foguete tudo ficava mais difícil.

Eu, que saboreava um mocotó, parei na hora e vi ali uma nova história pra ser contada. Perguntei o que tinha ocorrido com o Foguete e Cardosinho ficou ressabiado em contar. Contei que seria para um livro, que não se preocupasse, pois eu não citaria seu nome e mudaria algumas coisas na história para não ficar ‘tão na cara’.

O homem decidiu explanar.

Foguete era considerado um cara 100% comunidade do morro do Robalo. Nasceu na favela e todos lhe viram crescendo. Interessou-se pela agremiação “robalense” e começou tocando caixa, logo passou para os tamborins e se transformou em um dos diretores de bateria.

Paralelamente, estudou e entrou para a PM. Casou com Isaurinha e saiu do morro, indo morar em Olaria. Aos poucos ia se dedicando mais à profissão e deixando a escola de samba de lado.

Ninguém sabia como com a miséria de salário que recebia, mas Foguete foi ganhando dinheiro como um “foguete”. Rapidamente deixou Olaria e foi morar em condomínio da Barra. Lugar dos novos ricos. A rapaziada do Robalo achou estranha a nova vida de Foguete e também a forma como reapareceu na favela.

Junto com outros companheiros de PM, colocou a bandidagem para correr do morro e explicou para a comunidade que seria seu “protetor”. Em troca de uma módica quantia dos moradores forneceria gás, gatonet e outras benesses além da proteção e garantia que os traficantes não voltariam ao morro.

Em contrapartida os moradores apenas teriam que pagar a tal módica quantia, uma mensalidade. Não seriam obrigados para tal, assim como Foguete não precisava então tomar conta da vida do morador e ele poderia, em circunstâncias do destino, aparecer numa vala com trinta tiros pelo corpo.

Acidentes acontecem…

Com a moral que Foguete ganhava dentro da comunidade era natural que ele retornasse a Unidos do Robalo. Começou como diretor de carnaval, ajudando a agremiação com algum dinheiro na administração de Paulinho Paraíba.

Mas Paulinho vacilou. Pegou metade da grana do carnaval e investiu no barraco na favela, transformando em castelo com piscina olímpica e cascatas de cerveja na entrada do local.

Estaria tudo certo se a Robalo viesse bem na avenida. Mas a escola caiu para o Grupo de Acesso.

Dessa forma a casa do Paulinho Paraíba também caiu. O homem virou churrasquinho dentro do carro, que foi incendiado pelos milicianos.

Sim.

Se você ainda não notou, Foguete implantara a milícia no morro. Você pode não ter notado, mas o comando da PM sim – e o homem foi expulso da corporação.

O que não fez Foguete derramar uma lágrima. Ganhava muito dinheiro comandando a milícia em alguns morros da área da “grande Robalo” e tráfico de armas e drogas para outros bairros da região. Morava em uma verdadeira fortaleza com Isaurinha, a linda mulata que se tornou rainha de bateria da Unidos.

Assim, com a vacância do cargo de presidente evidente que este caiu no colo de Foguete. Em uma festa cheia de celebridades, pessoas da sociedade carioca, políticos e jornalistas na quadra da escola Foguete prometeu que a escola voltaria ao grupo especial e seria campeã.

Promessa feita e cumprida. No ano seguinte a escola estava de volta ao Especial. Voltou arrebentando com tudo sendo campeã. Foguete era muito prestativo e adorava dar presentes. Deu um carro e uma caixa de uísque a cada jurado antes do desfile e convidou todas as pessoas importantes da cidade, inclusive dirigentes da Liga para seu nababesco camarote na Sapucaí com bebidas de todos os gêneros e cascatas de camarão.

Como eu disse acima Foguete adorava dar presentes e era uma espécie de “pai dos pobres”, o “Papai Noel de Robalo”. O homem era malandro. Sabia que para a comunidade não lhe trair tinha que adular e sempre realizava festas na quadra a fim de fazer doações.

Ao mesmo tempo em que expandia seus negócios e ficava cada dia mais rico e poderoso.

Foi aí que se deu a grande lambança.

O Natal se aproximava e Foguete queria doar presentes para as crianças como fazia todos os anos. O homem adorava se vestir como o bom velhinho, chamar a imprensa e doar os brinquedos. Queria ser deputado estadual e sabia como aquilo era importante para sua imagem.

Chamou seu principal assessor, o Zé Macumba e pediu que arrumasse os brinquedos. Queria um caminhão cheio de brinquedos na véspera de Natal dentro da quadra para doar a suas crianças. Macumba respondeu que faria o que o chefe mandou e já tinha os contatos com a fábrica de brinquedos.

Zé Macumba fez todos os contatos, pagou a fábrica e decidiu ajudar seu irmão Chico Pastor que estava desempregado. Chico fora motorista de caminhão então Macumba perguntou se ele queria pegar uma carga pro “doutor”.

Pastor ressabiou e perguntou se era algo ilegal. Macumba mandou que não se preocupasse. Eram os brinquedos de Natal e o único trabalho que o irmão teria era ajudar na fábrica a carregar o caminhão com os presentes e levar à quadra.

Na manhã marcada Chico Pastor pegou o caminhão com o irmão e foi até a fábrica. Ajudou a carregar o veículo com brinquedos até o teto da caçamba e pensou “as crianças vão ficar felizes”.

Ligou o caminhão e foi em direção a quadra onde a festa já se iniciava. No meio do percurso sentiu uma forte dor de barriga e largou o caminhão com chave na ignição e tudo na frente de um bar correndo para o banheiro.

Saiu aliviado e aproveitou que já estava na birosca para pedir um almoço. Enquanto comia um homem mal encarado sentou-se a seu

lado também pedindo uma refeição. Pastor cumprimentou e não recebeu resposta. Entre uma garfada e outra pensou “que mal educado”.

Acabou de comer e saiu. Notou a coincidência de ter um caminhão igual ao que dirigia ao lado do seu e subiu para continuar viagem. Notou que a chave não estava na ignição, achou estranho, mas lembrou seus tempos de adolescente fazendo ligação direta e partindo.

Chegou à quadra da Unidos do Robalo já lotada de crianças e imprensa e tomou bronca de Macumba pela demora. Pastor tentou explicar o contratempo que teve enquanto Macumba chamou Foguete e disse “está tudo em ordem doutor”.

A imprensa posicionada para tirar fotos do ato de foguete abrindo a caçamba. A bateria tocava enquanto o puxador cantava “eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel”. Foguete chamou as crianças e sorrindo pra imprensa gritou “Feliz Natal para todos!!”.

Sem olhar para a caçamba Foguete abriu e disse “aqui está meu presente para as crianças”. Por alguns segundos a quadra ficou muda. A imprensa de boca aberta e as crianças sem nada entender. De repente os jornalistas metralham com suas máquinas o interior da caçamba. Pelo estarrecimento de todos Foguete nota que algo está errado.

O miliciano olha a caçamba e o negão ficou branco.

Não tinha brinquedos no caminhão. Tinha cocaína, muita cocaína!! Chico Pastor, que notara a bobagem que fizera, saiu de mansinho sem ninguém perceber e Foguete só conseguiu ter uma reação e gritar.

“Puta que pariu!! Que merda é essa??”

A imprensa tirava fotos da caçamba e de Foguete. Meu amigo Diego Mendes pedia para o miliciano sorrir e não restou alternativa para a polícia presente que não fosse prender Foguete. O presidente da escola foi algemado e levado ao camburão gritando que era inocente e aquela droga não era dele. Fez um monte, pagou pelo que não tinha culpa e a festa foi encerrada.

Chico Pastor entrou correndo no barraco e mandou a patroa arrumar umas roupas e sair de casa logo que eles estavam com problemas.

A esposa perguntou “nós também?” e o homem retrucou “como assim nós?”.

A mulher disse que o irmão dela, que há décadas não via, estava escondido embaixo da cama por entregar brinquedos numa favela para traficantes, ao invés de cocaína.

Feliz Natal.

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