Nesta quinta feira, a segunda parte da coluna do advogado Rafael Rafic sobre as sinopses das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Note o leitor que tanto ontem como hoje as agremiações estão sendo apresentadas em sua ordem de desfile, sorteada no último dia 8.
Enredos e Suas Sinopses: Segunda
Mocidade Independente de Padre Miguel
Enredo: Pernambucópolis
Texto: Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes
Paulo Menezes em sua volta à Mocidade utilizou em sua sinopse a mesma estrutura que utilizou com bastante sucesso na Portela nos dois últimos carnavais. Ele se utiliza de elementos históricos da escola, com os quais os componentes se identifiquem, como condutores do argumento e desenvolve o enredo em cima dele com fortes tons subjetivos. No caso desse ano, para desenvolver um típico enredo CEP sobre Pernambuco, o fio condutor será o pernambucano Fernando Pinto, que fez história como carnavalesco da Mocidade.
Em cima de uma imaginária volta de Fernando a Pernambuco, o enredo se desenvolve mostrando a cultura de Pernambuco, em um enredo bastante parecido com o que Paulo desenvolveu para a Portela em 2012 sobre a Bahia, com Clara Nunes conduzindo.
São sinopses como essa que mostram que é possível fazer um bom enredo CEP, sem cair em fórmulas pasteurizadas. Não foi do nada que surgiu o histórico “Madureira sobe Pelô”; ele foi ajudado pela boa sinopse apesar de sua origem CEP.
Da forma como a Mocidade está se preparando, acho que apenas os problemas internos a separam de um bom desfile em 2013 e a ala de compositores da Mocidade esse ano não poderá usar a sinopse como desculpa para sambas ruins.
Apenas não darei dez porque o enredo se trai em um momento. Apesar do nome fazer alusão ao desfile de 1987, “Tupinicópolis”, a sinopse é toda feita em cima do vitorioso desfile de 1985, “Ziriguidum 2001, carnaval nas estrelas”, ambos de Fernando Pinto. A única vez que o termo “Pernambucópolis” é utilizado na sinopse, o é de forma forçada apenas para justificar o título do enredo. [1]
Nota: 9
União da Ilha do Governador
Enredo: É brinquedo, é brincadeira; a Ilha vai levantar poeira
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Em um enredo bem mais curto do que as 10 (ótimas) páginas do ano passado, Alex de Souza mais uma vez brinca de fazer sinopse com um enredo que tem a cara da Ilha sobre brinquedos. A própria sinopse em um momento diz que o enredo “é um resgate da identidade da união da Ilha do Governador. Escola que se caracterizou por desfiles leves e brincalhões”.
A sinopse faz uma breve, porém bem desenvolvida, passagem sobre a evolução dos brinquedos e demonstra a importância das brincadeiras para o desenvolvimento da criança e até mesmo quando a criança já se tornou adulta. Inicialmente, parecia ser exatamente o enredo que a Ilha estava precisando para se redescobrir e recuperar sua alma, que já foi para a Cacuia há alguns anos.
Porém, as notícias que chegam de lá não são animadoras. O “disse me disse” sobre a disputa de samba está a todo vapor e, para piorar, mês após mês um grande nome da antiga Ilha aparece na coluna de obituário. Para completar, apesar de no fim da sinopse haver recado aos compositores para terem muita inspiração e brincarem a vontade, a escola não está permitindo que os compositores usem as palavras “brinquedo” e “brincadeira”.
O enredo não é exatamente sobre brinquedos e brincadeiras? Se eu não posso fazer um samba com essas palavras, farei com o que? Com “sangue” e “trabalho árduo”? É como se uma escola se dispusesse a fazer um enredo sobre o Pelé e proibisse o uso das expressões “Edson Arantes” e “rei do futebol”.
Como aqui apenas estou avaliando as sinopses e a da Ilha está muito bem escrita, a nota será a máxima, mas já fica anotado que ela deverá ter o mesmo destino da deste ano: o desperdício.
Nota: dez, dez, nota dez!
Vila Isabel
Enredo: Retratos de um país plural
Texto: Cid Carvalho e Alex Varela
Carnavalesco: Cid Carvalho
A atual campeã foi a última agremiação a divulgar sua sinopse. Trata-se de mais uma sinopse batida. Basicamente ela falará sobre os principais ecossistemas brasileiros e mostrará a caatinga, a floresta amazônica, a mata atlântica, o cerrado, o pantanal, a mata de araucárias e os campos sulistas. Ou seja, nada que a Sapucaí não esteja cansada de ver.
A sinopse é bem didática. Porém, para discorrer sobre um tema clichê ela não inova em nada. Lendo o texto, fiquei com a impressão que a idéia inicial era uma e, por algum motivo, ela teve que agregar outra.
A sinopse começa usando os estudos de Câmara Cascudo (mais uma vez ele sendo usado como base para uma sinopse da Vila, a exemplo de 2013) para falar dos “sertões” do Brasil, em total consonância com o sentido que Guimarães Rosa deu ao termo.
A sinopse passa em metade do texto discorrendo brilhantemente nesta linha sobre nossos “sertões”, mas aos poucos o “sertão” é igualado à Caatinga, o que é uma deturpação dos conceitos dos dois acima citados. De repente, se enxerta um Chico Mendes que não tem nada a ver, passa rapidamente pela Floresta Amazônica e a partir desse ponto o texto acelera bastante e passa “en passant” por todos os outros ecossistemas já citados.
Essas variações do texto dificultam o entendimento do argumento do enredo, mas conhecendo nossos julgadores, isso nem será reparado.
Nota: 6
Imperatriz Leopoldinense
Enredo: Arthur X – O reino do Galinho de Ouro na corte da Imperatriz
Texto: Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues
O enredo em homenagem a Zico foi bem desenvolvido fazendo uma metáfora como se existisse um reino a parte e que o homenageado seria o rei do mesmo, ao qual a Imperatriz teceria loas no desfile.
A idéia é boa e foi bem escrita. Em alguns momentos ela não é desenvolvida da forma que poderia, especialmente na parte que fala das “nações estrangeiras”. Outro defeito é que lendo a sinopse definem-se os outros times de futebol do Rio de Janeiro apenas como combatentes, o que pode dar a impressão que eles façam parte das tais “nações estrangeiras”; quando no caso a última seria mais especificamente o Japão.
Ela também não define qual seria o reino de Zico. A sinopse como um todo dá a entender que seja o Flamengo, mas em algumas partes, principalmente do início da sinopse, dá a entender que seria o Brasil como um todo. Nesse caso, temos um problema: o rei do futebol no Brasil é Pelé, não Zico.
Por fim, a sinopse começou com uma brincadeira, como se fosse a narração de um jogo de futebol em que os jogadores seriam as outras escolas de samba. Achei que tal brincadeira poderia ocasionar problemas porque ela é indelicada com certas escolas, mas, ao que parece, todos entenderam e não houve reclamações, ao menos públicas.
A ala de compositores da Imperatriz é muito boa, então não sendo a sinopse um “abacaxi”, ela deve se sair bem.
Nota: 8
Portela
Enredo: Um Rio de mar a mar: do Valongo a Glória de São Sebastião
Texto: Rogério Rodrigues e Alexandre Louzada
Carnavalesco: Alexandre Louzada
Já no primeiro ano da nova gestão, o Prof. Rogério Rodrigues emplaca um enredo na Portela. É a primeira vez que alguém do PortelaWeb, grupo com grande importância cultural na escola e que também faz parte da nova diretoria (incluindo o Editor Chefe), faz um enredo para a escola.
É um enredo com a cara da Portela, que adora falar sobre o Rio de Janeiro, e muito bem pensado para ser posto na avenida. O enredo, que é uma viagem fluída sobre o centro Rio de Janeiro e sua contribuição na formação da identidade carioca, começa com um setor fortemente afro abordando o Cais do Valongo.
Logo após, ele viaja indo e voltando várias vezes no eixo Av. Rio Branco – Av. Beira-Mar, rodeado de praias (atuais e aterradas), e permitirá que a Portela venha do jeito que ela gosta: recheada de azul.
O enredo tem um argumento claro e é muito bem desenvolvido, pontuando corretamente os momentos históricos importantes e locais que até hoje servem de referência para o carioca se construir. Por vários momentos o enredo tem pontos de interseção com o que a Portela levou para a avenida em seu tetracampeonato de 1960 “Rio, capital eterna do samba” (com um grande samba de Walter Rosa, frise-se).
É um enredo bastante coerente e identificado com a Portela, logo não me resta outra opção senão dar a nota máxima. Para mim, este enredo e o da Mangueira saem com vantagem na disputa pelo Estandarte de Ouro de melhor enredo (isso se o júri não enlouquecer pelo segundo ano consecutivo e der o bi-campeonato ao Salgueiro).
O desafio fica por conta da falta de uma estruturação no correr do enredo. Seja histórica ou geográfica, não há qualquer condução lógica no apresentar dos fatos. Esse ponto não chega a se tornar problema porque, além da sinopse ter sido feita assim propositalmente, já houve outros ótimos enredos sem uma estruturação que resultaram em brilhantes trabalhos.
O mais importante é a escola cumprir o objetivo demonstrado e transmitir o argumento apresentado. Isso a sinopse fez com maestria e não deverá ser difícil fazer um belo samba, denso como a Portela gosta, para esse enredo. A inspiração já foi citada aqui: é o excelente samba de 1960.
Para este ano também esperamos a volta de grandes compositores portelenses que estavam afastados das disputas, o que deve melhorar o nível dos concorrentes.
Nota: dez, dez, nota dez!
Unidos da Tijuca
Enredo: Acelera, Tijuca
Texto: Ana Paula Trindade, Fátima Brito, Isabel Azevedo, Paulo Barros e Simone Martins
Carnavalesco: Paulo Barros
Falando sobre Ayrton Senna, seria piegas demais apenas entoar suas conquistas na pista, além de não se encaixar no estilo do Paulo Barros. Também não haveria a menor condição de, em pleno carnaval, pintar Senna como o “amante latino” que nunca foi.
Então, a idéia de criar um grande prêmio no qual Senna seria o vencedor ao final foi certeira. O problema são os personagens escolhidos para compor tal grande prêmio. Mais uma vez fico com a impressão de nada se encaixar com nada, tal qual o enredo de 2011.
Afinal, se o intuito é homenagear Senna em que ajuda falar de beija-flor, peixe e, mais inacreditavelmente, tartaruga?
Logo depois, vem uma fileira enorme de desenhos animados que também não fazem sentido na construção do grande prêmio pretendido. Nessa seara entraram o Speed Racer, o Ligeirinho, o Papa-léguas, o Sonic e os personagens da corrida maluca, que estão prontinhos para servir de pretexto para Paulo Barros fazer mais uma de suas maluquices holiwodianas.
Apesar de não gostar, nada tenho contra o trabalho de Paulo Barros; o problema é quando ele deturpa o enredo em prol de suas idéias loucas. Não é mera coincidência que nos últimos três anos, o único título da Unidos da Tijuca veio exatamente no ano em que Paulo conseguiu inovar bastante, mas dentro do enredo. No caso, o desfile de 2012.
Sem contar que um grande prêmio de automobilismo é para carros, não para animais nem desenhos animados. Muito menos para aviões supersônicos, trens-bala e satélites (também citados na sinopse). E nem incluí nesse caso os outros esportes “convidados”: ciclismo, vela e remo.
Ou seja, não temos um grande prêmio, mas uma salada na qual pode entrar qualquer coisa, sejam verdura, legume, fruta ou até metal.
Para finalizar, a volta da vitória consagra Ayrton Senna como vencedor de tal Grande Prêmio. Só que as palavras usadas no único parágrafo em sua homenagem caem exatamente na vala do pieguismo que deveria ser evitada. Segue um trecho da sinopse:
“Acelera, Brasil, junto com Ayrton Senna! Meninos e meninas entram na pista para lembrar que Senna é capaz de inspirar seus sonhos! Que o desejo de vencer requer trabalho, dedicação e competência! Ayrton Senna carrega na ponta dos dedos a esperança de cada brasileiro!”
Preciso dizer mais alguma coisa?
Nota: 4
[N.do.E.1 – segundo conversa que tive antes mesmo da divulgação do enredo com integrante da diretoria da escola, originalmente a ideia seria fazer enredo sobre Fernando Pinto. Pernambuco entrou com o patrocínio, sendo a terra natal do carnavalesco]
Muito boas as análises… de domingo e segunda!!!!