Nas últimas duas, três semanas algumas demandas pessoais – entre elas uma mudança profissional que ainda se encontra em andamento neste momento – me deixaram meio perdido em relação aos últimos acontecimentos.

Bom, achava que fosse devido a isso, mas a verdade é que os fatos nestas últimas semanas se atropelaram em uma velocidade absolutamente surpreendente. Escrevi em outra ocasião sobre os recentes protestos, ainda em seu início, e minha avaliação daquele momento permanece absolutamente a mesma.

Notem os leitores que o vice presidente Michel Temer, no decorrer da última semana, andou dando seguidas demonstrações de independência em relação à Presidenta Dilma. Minha suspeita é de que nos bastidores do poder ele esteja “sentindo o terreno” para se credenciar a ser o “Franco brasileiro” em um eventual golpe de Estado à Paraguai aqui.

Por outro lado a Presidenta Dilma Rousseff, ontem, deu uma resposta exata aos críticos ao convite feito a médicos estrangeiros (cubanos, portugueses e espanhóis) para se fixarem no país. O programa anunciado de vagas em cidades interioranas, que será aberto primeiro a brasileiros e depois a estrangeiros (sobrando vagas, obviamente), deixou claro que as críticas de médicos e de entidades de classe são, sobretudo, corporativas.

Quando escrevi sobre a Fonte Nova cheguei a comentar de passagem que conversei longo tempo antes da partida com um assessor direto do Ministro da Saúde Alexandre Padilha. Um dos pontos da conversa foi justamente sobre a dificuldade de atrair médicos para estas vagas, porque Medicina hoje no Brasil é um curso de classe média e o interesse de muitos destes formandos é se estabelecer em consultório próprio. Entre outras razões.

Este componente leva a outro aspecto: o componente excludente de muitos dos manifestantes. Claramente se refletia um sentimento de classe média de que “os pobres não podem ter acesso às mesmas coisas que a gente, eles precisam voltar a seu lugar”.

Este sentimento de classe foi ampliado por matérias como a de grande jornal carioca no último final de semana, que pregava o aumento das passagens aéreas a fim de “selecionar” a freqüência dos aeroportos. Ou a inacreditável “matéria” (entre aspas, mesmo) da Revista Veja defendendo o voto censitário.

A ideia da revista seria proibir de votar todos aqueles que tivessem alguma forma de benefício financeiro do governo. Na prática, significa excluir os mais pobres, recebedores do Bolsa Família, do direito ao voto – além de excluir também funcionários públicos e de estatais, como este blogueiro.

No fundo, é aquele velho adágio de que “o povo não presta, porque não vota em nós”.

Aliás, e a propósito, lembro ao leitor que o custo anual do programa Bolsa Família é ínfimo: pouco mais de R$ 12 bilhões ao ano. Como já expliquei anteriormente em mais de uma ocasião, o efeito multiplicador destes recursos sobre a economia é fantástico.. Por outro lado, também como eu escrevi em outra ocasião, a revolta de setores da classe média com o programa deriva do fato dos empregados domésticos estarem agora mais onerosos para se contratar – o que é mais do que justo.

Também me chamou a atenção o silêncio da chamada grande imprensa sobre um processo de sonegação fiscal que a maior empresa de comunicação brasileira sofre desde 2002 e que agora veio à tona, inclusive com o sumiço do processo – que levou à condenação da funcionária da Receita Federal que perpetrou tal ato. O processo em questão talvez tenha sido a causa da radicalização da oposição feita por este grupo ao governo, em que pesem as convicções de pendor fascista de seu diretor de jornalismo e as conseqüentes “adequações” do quadro de jornalistas à sua matiz ideológica.

Mas, sem dúvida alguma, o grande frisson do momento foi a revelação de que os Estados Unidos espionavam ligações telefônicas, emails e outros quaisquer tipos de comunicação utilizados não somente no Brasil como em outros países latino-americanos. É uma subversão do conceito de democracia, porque uma democracia onde não há liberdade de expressão e de opinião não passa de uma ditadura.

Ainda tem o absurdo ocorrido com o Presidente da Bolívia, que teve negada a ordem de sobrevoar o espaço aéreo de países europeus devido aos EUA suspeitarem que o procurado Edward Snowden estivesse a bordo rumo ao asilo político. Mundo estranho esse onde quem espiona chama de espião quem revela a espionagem – e o que ocorreu com o Presidente de um país soberano é algo absolutamente inaceitável.

Espero sinceramente que tenham se divertido com as bobagens que escrevo todo dia nas redes sociais… Por outro lado, mostra como estão atuais os escritos de Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”) e George Orwell (“1984” e “A Revolução dos Bichos”), que li ainda adolescente.

Mais grave que isso, porém, foi a revelação de que até 2002 duas agências de espionagem norte americanas atuavam em conjunto na capital brasileira. Me parece bastante complicado para o governo da época alegar que “não sabia” de tal fato, ainda mais quando recordamos que a política externa do mandatário em questão era de alinhamento incondicional aos Estados Unidos. Nos dias de hoje a oposição estaria pedindo o impeachment da Presidenta…

Os últimos fatos mostraram, igualmente, que a comunicação do governo está totalmente equivocada, algo que venho falando desde o início do Governo Dilma Rousseff. Concentrar recursos publicitários em quem trabalha para sua retirada do poder, como forma de “apaziguamento”, não me parece uma estratégia muito inteligente. Além disso, matar as alternativas a estes veículos cria todo um cenário que pode ser a própria sepultura mais à frente.

Além disso, a própria comunicação é falha: isso ficou claro no anúncio do plebiscito sobre a Reforma Política. Obviamente o Congresso não vai aprovar uma reforma como a ideal, e o referendo nada mais é que a submissão e direcionamento da vontade popular, com conseqüências imprevisíveis.

Aliás, o financiamento público de campanha é condição “sine qua non” para o combate à corrupção: um financiamento privado de campanha vai cobrar depois o preço do apoio em bens e serviços superfaturados. Vira balcão de negócios – e muito, mas muito mais caro que a campanha com recursos públicos.

Como os leitores podem ver, são tantos assuntos que a abordagem dele se torna superficial neste artigo. Sem dúvida alguma estas últimas semanas estão se mostrando bem loucas. Que se soltem os internados nos hospícios…

3 Replies to “Soltem os loucos que o mundo ficou doido”

  1. meu caro amigo Migão:

    Concordo com várias posições suas colocadas no texto, mas também discordo de outras.

    Vc me conhece e sabe que não sou petista e muito menos psdbista. Estou procurando a terceira via, mas sou órfão dela , que foi aniquilada pelos mesmos grupos da sociedade que apoiavam o tal’ do “governo da época” (aquele que não sabia da espionagem)e que apoiaram o governo que assumiu logo depois (manteve a mesma política econômica do governo da época) e que vc tanto apoia e quase venera.

    Discordo das atitudes cometidas contra a soberania do importantíssimo governo boliviano. Acho outro absurdo nos passar a impressão que espionar o governo brasileiro e seus cidadãos como sendo uma coisa banal, normal e sem importância. Merecia uma censura ao governo americano na ONU e outros organismos internacionais. E este governo agora caça o espião que os espionou.

    E discordo frontalmente do amigo quando diz que “financiamento público de campanha é condição para o combate à corrupção…..”
    corrupção se combate com Leis severas e punições severas e não com a entrega de dinheiro público como se tivesse dizendo “eu vou te dar dinheiro pra depois você não aceitar dinheiro do empresário, pra não se corrupto”.
    Não parece estranho isso? Você acha que a corrupção realmente vai acabar com a doação de dinheiro público aos políticos?
    O que me chama atenção é justamente este o pensamento do PT, tanto defendido pelo seu presidente Rui Falcão , defendendo inclusive um plebiscito e conclamando a população a assinar abaixo assinado pedindo justamente isso.

    Já te disse isso… não transforme este belo blog em ferramenta em prol do PT. É uma pena.

    Abs

  2. EM TEMPO:

    sou frontalmente contra a exclusão de qualquer setor ou grupo da oportunidade de mudar o Brasil através do voto.

  3. Faço do Werneck minhas palavras… o texto é otimo , reflexivo , mas parece que o governo não tem nada com as barbaridades que ocorrem … Nenhuma proposta de mudança politica que ele é tão “vitma ” é aprovada numa maioria que beira 85%… Culpar essa oposição por algo é um exagero tal qual imputar ao Temer um golpe que ele jamais daria pois sua posição hoje é melhor do que de presidente ( na visão dele)…

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