Nesta quarta feira, a coluna do advogado Rafael Rafic retoma o artigo anterior e mostra alguns casos de estádios e praças esportivas construídas com dinheiro público nos Estados Unidos.
Estádios com Dinheiro Público nos EUA: alguns casos
Na coluna de hoje, irei arrematar o assunto que ficou no ar no fim da última Made in USA: a falácia do modelo completamente privado dos esportes americanos.
É verdade que nos seus negócios do dia-a-dia os clubes funcionam como empresas e são privados. Porém quando estudamos o assunto “construção de estádios”, algo essencial para qualquer time das quatro ligas principais dos EUA, o aspecto privado do modelo de negócios se torna nebuloso.
Não irei tecer maiores comentários, apenas contarei alguns episódios sobre o assunto. Alguns deles causaram polêmica e protestos por parte de contribuintes das respectivas cidades, que se inconformaram com o financiamento público de negócios privados.
Mais uma vez começarei com o New York Yankees. O novo Yankee Stadium, inaugurado em 2009, foi o estádio mais caro do mundo na época, custando US$ 1,5 bilhão. Hoje ele é o segundo mais caro, já que em 2010 o Metlife Stadium custou US$ 1,6 bilhão. Porém o Metlife teve algo único: a divisão de custos pelos 2 times que o usam: o Giants e Jets, ambos da NFL.
Houve um escândalo na época porque, por mais que o Yankees orgulhosamente anunciasse que ele estava construindo um estádio próprio com dinheiro próprio, todo o financiamento das obras no entorno do estádio foi financiado pela prefeitura de New York. Entre garagens, novas estações de trem e metro, o investimento foi superior a US$ 300 milhões.
Só que as pessoas mais atentas perceberam que, especialmente no caso das garagens, a prefeitura iria financiar em incentivos fiscais um negócio privado que daria lucros apenas para o operador das garagens, que por sua vez deveria pagar uma taxa ao Yankees.
Obviamente isso resultou em um escândalo público na época do financiamento. Para completar a confusão, com os altos preços de estacionamento aliado às novas estações de trem e metrô em frente ao Yankee Stadium, a taxa de ocupação das vagas está em míseros 40% e o operador fez uso de uma cláusula do contrato que o permite alargar ainda mais o pagamento dos incentivos fiscais. Enquanto isso, os contribuintes de New York pagam as garagens ociosas.
Está em negociação a venda de algumas áreas de garagem para uma construtora, já que está demonstrado que ela não será necessária, para ajudar a ressarcir a prefeitura de New York.
Para terminar o estádio o Yankees (em nome próprio) ainda pegou dinheiro emprestado do companhia da prefeitura que age igual ao BNDES, emprestando a juros subsidiados. Pelo menos, o estádio está gerando altos lucros que compensam em impostos gerados os juros subsidiados.
Outro caso curioso é o Marlins Park (já o citei aqui superficialmente na mesma coluna citada semana retrasada sobre o cartão de crédito dos ex-donos do Dodgers).
Após uma longa disputa entre o dono do Florida Marlins (MLB), Jefrey Lloria, e o condado de Miami-dade, na qual várias vezes foi ameaçada a retirada do time da cidade de Miami, foi aprovada a construção do estádio por uma votação apertada.
Resultado: dos US$ 634 milhões do estádio, US$ 376 foram bancados pelo condado de Miami-dade e US$ 132 milhões pela cidade de Miami. O resto, bancado pelo time, ainda foi emprestado ao mesmo com juros subsidiados.
Os contribuintes de Miami odiaram o acordo e em recalls (referendo para manter ou não governantes) derrubaram tanto o prefeito da cidade Miami como o “prefeito” do condado por apoiarem a construção do estádio.
Logo após a derrubada de ambos, o novo prefeito da cidade, que fora um dos votos contra o projeto, revelou detalhes do acordo que demonstravam que a cidade ainda seria a responsável por pagar despesas como impostos anuais de US$ 2 milhões sobre áreas que foram alugadas ao Marlins e uma ajuda na manutenção do estádio no valor de US$ 250 mil ao ano sem qualquer contrapartida por parte do time.
Mas pelo menos o time foi rebatizado para Miami Marlins e o dono, que não investia 1 centavo no time dando como desculpa a falta de estádio, passaria a comprar grandes jogadores e tirar o Marlins da eterna lanterna que ocupava.
Pois bem, o time ainda se chama Miami Marlins. Só que Lloria investiu bastante em jogadores no início de 2012, ano de inauguração do estádio, apenas para o time continuar perdendo e ele trocar todos os bons jogadores caros por jogadores ruins baratos, tal qual como ocorria antes do estádio.
Em tempo: o Marlins foi o lanterna incontestável de sua divisão em 2012 e continua na mesma posição em 2013.
Para completar, a MLB advertiu o Marlins por mau uso do dinheiro recebido das “revenues sharings” da liga, o que aumentou as suspeitas, já fortes, que o clube usou essas receitas para pagar suborno para políticos virarem favoráveis ao financiamento do estádio.
Por fim, um caso um tanto diferente: o do Cowboys Stadium, agora At&T Stadium, caso do Dallas Cowboys da NFL (foto).
O estádio custou US$ 1,15 bilhões (mais de dois Maracanãs), o que lhe dá a marca de terceiro estádio mais caro da história e foi construído em grande parte com dinheiro do próprio time e da NFL. Porém a cidade de Arlington (fronteiriça com Dallas) ajudou com US$ 350 milhões e para conseguir esse dinheiro a cidade aprovou um aumento de 0,5% no imposto de vendas, de 2% no imposto de ocupação de hotéis/motéis e de 5% no imposto de aluguéis de carros.
Felizmente o Cowboys Stadium está indo muito bem, gerando muita receita em impostos para a cidade e o empréstimo está se pagando com sobras. Mas eu imagino a gritaria que ocorreria no Rio se a prefeitura anunciasse um aumento de 0,5% no ISS para ajudar a financiar um estádio de futebol para algum time da cidade.
Apenas apresentei aqui três exemplos recentes e diferentes entre si para demonstrar a minha afirmativa anterior, mas esse tipo de ajuda pública a times privados é tão comum nos Estados Unidos que eu poderia escrever mais 2 ou 3 colunas apenas com mais exemplos parecidos.
Vocês ainda acham que o esporte é um caso meramente privado nos EUA como costuma ser vendido?
me permita um pitaco.. o caso americano é unico no mundo .. americano ama esportes e se esses estádios derem prejuizo tenho certeza que alguem responde criminalmente… acho que nosso caso está mais para os elefantes portugueses da euro 2004 ( suiça e ucrania vem ai)
http://esportes.br.msn.com/futebol/copa2014/noticias/portugal-projeta-demoli%C3%A7%C3%A3o-de-est%C3%A1dios-ociosos
Emerson, acho que nosso caso é um meio termo. O número de “elefantes brancos” será menor que o caso Português – acho que só Manaus é irremediável, pois até Cuiabá não tem um local para grandes eventos.
Rafic, há responsabilidade criminal sobre isso nos EUA?
Manaus , Cuiabá , Brasilia , Natal ( o abc tem estádio) … empurraram o de Recife pro Nautico… na boa quero ver o Corinthians lucrar com esse Itaquerão sem os ricos lá nos confins do judas…
Em 3 anos , refaça essa coluna e verás que estamos mais pra Lisboa do que pra Denver
Migão,
Não há responsabilidade civil ou penal apenas por prejuízo do estádio (o que, para a cidade, está sendo o caso de Miami). O que há é a responsabilidade no caso de corrupcão ou má gestão dolosa do patrimônio público, igual ao Brasil.
Ou seja, vai acabar em pizza, ou em junk food
Ótimo texto, Rafic. E em momento oportuno. Parabéns!
Obrigado Jeff. Como sempre digo, querem transformar o esporte no Brasil no modelo americano, mas eles só vendem metade do modelo. A outra metade escondem ou, o que é pior, desconhecem.
exatamente… aqui o modelo americano está servindo para empreiteiras lavarem a égua , encarecer e elitizar o esporte… o esporte nos EuA é culturalmente levado de outra maneira … parabens pelo esclarecimento
Só que os Estados unidos são vendidos como a terra onde o público não se envolve com o setor privado. Não é bem assim, ao que parece
Bom. Vou falar de São José do Rio Preto, que desde 1985 tem o América-SP construindo um estádio para 55 mil pessoas que, claro, já está obsoleto antes de ser finalizado. Ainda tem ferros retorcidos aparentes.
Já pegou dinheiro da prefeitura, do Governo Federal, da iniciativa privada, o time já está na terceira divisão paulista (ou quarta? Não me lembro), já perdeu um estádio para a CPFL por não pagar conta de luz e vai perder o outro novo (hahaha), que está sob liminar para não ir a leilão.
Só que São José do Rio Preto tem 530 mil habitantes em números atualizados e Boston, nos EUA, tem 625 mil. Detroit um pouco mais.
Seja lá de onde vem o dinheiro, o que podemos comparar é onde que o processo brasileiro erra que as equipes de cidades medianas nos EUA tem faturamentos imensos e dão lucro para a cidade no final das contas (na maioria dos casos) e aqui temos histórico (e também exemplos para 10 colunas) de equipes de sucesso que vão para o ralo e deixam um rastro de sujeira.
Onde quero chegar é que aqui em Rio Preto, com tudo isso, jamais alguém foi processado e condenado. Buscam bodes expiatórios temporários e depois tudo é esquecido.
Ainda prefiro os EUA e seu modelo “pero no mucho” particular, mas de resultado.
Samuel,
2 diferençs são fundamentais nesse caso.
1º Boston tem nominalmente 625mil habitantes porque a divisão administrativa dos EUA não abrange toda a malha urbana. A população da área urbana de Boston é de 4 milhões e meio de habitantes. Não tem a menor comparação com São José do Rio Petro. Detroit, 3 milhões e 700 mil
2º Enquanto o América de SJ é da 3ª divisão local, todos os times de Boston pertencem a principal liga de seus esportes.
Além disso, lá como cá, ninguém foi sequer processado por essas maluquices. E isso foram apenas exemplos, tem muitos outros se formos pesquisar.
Houston até hoje está pagando um estádio que sequer uso mais tem por estar obsoleto
Que história é essa de Houston, Rafic? A conclusão a que chego é que a realidade é mais parecida que a brasileira do que o senso comum denota
vejam o que o presidente do Galo falou do Mineirao na entrevista da espn…. vejam e transfiram pros casos dos outros times… forma uma coisa importante… num ginasio norte americano jogam basquete e nhl… e fazem 450 xhows por mês… só entrar no site do The Palace ( casa dos Pistons ) ou do MSG pra ver… Europa é igual .. o Ajax ganhou o AArena da prefeitura .. e lucra com ele se jogar… é isso… a
Eu vi isso, esta história de shows no Madison Square Garden me ferrou rs
Migão, foi a renovação do Astrodome na década de 80 que também teve aumento de impostos para custear. Mas o dono do Oilers cada vez mais pedia mais dinheiro público e acabou saindo de Houston rumo a Tennessee em 1998.
Quando oTexans foi criado construiu um novo estádio do lado doAstrodome, também com dinheiro público.
A mudança do nome de Oilers para Titans tem a ver com isso, Rafic?
Tem, foi exatamente na mudança da cidade que mudou o nome do time.
Oilers para um petroleiro é um belo nome (risos)