Neste domingo a coluna do compositor Aloisio Villar fala sobre a sua experiência na Portela, bem como apresenta seu samba concorrente. Reitero que não expressa minha opinião sobre a disputa, sobre a qual não emitirei parecer dada a posição que ocupo na diretoria da agremiação.

A Portela e eu

Acabei de chegar em casa e, atrasado, começo a escrever a coluna desse domingo, data que você está lendo agora. Mas na verdade não é domingo: são 5:33 da manhã de quinta-feira. Um dia especial para mim.

Um dia especial que começou na verdade em janeiro desse ano, durante um ensaio de quarta-feira da União da Ilha. Encontrei o amigo e dono desse blog Pedro Migão na escola e depois de um tempo de ensaio decidimos sair para jantar e beber algo. No caso dele cerveja, no meu refrigerante.

Durante o trajeto até o bar ele começou a falar de um projeto. Fazia parte do projeto de uma chapa de oposição na Portela para as eleições que se realizariam em maio. Disse que caso vencessem o concurso de samba-enredo seria sério, honesto. Não escolheriam samba por nome, política ou tamanho de torcida e todos seriam tratados de forma igual.

Por fim me fez convite para escrever na escola em caso de vitória.

Infelizmente alguns dias depois o amigo e compositor do samba vencedor da União da Ilha em 2013 Jair Turra faleceu e encontrei com alguns de meus parceiros em seu enterro. Meu eterno parceiro Cadinho da Ilha e Bruno Revelação. Comentei por alto do convite e que ele era também para minha parceria. Poderia montar uma e levar para lá. Gostaram da ideia, mas naquele dia não tocamos mais no assunto.

Sete meses se passaram e estou aqui nessa quinta-feira, faltando um dia para meu aniversário que na verdade começa hoje, com o primeiro presente. Dia que com meus parceiros inscrevo nosso samba da Portela, o nosso concorrente para o carnaval 2014.

Depois daquela data algumas coisas acabaram me empurrando para a Portela. Situações que ocorreram na União da Ilha, normais no mundo do samba, nada de desonesto, mas que não curti e o fato também de minha parceria insulana “abrir”. Cada um foi para um lado cuidar de seus interesses.

Apesar de todos os sambas feitos nesse período com a parceria da União da Ilha basicamente terem minha marca e a do Cadinho (minha letra e a melodia dele), sempre ficou a impressão que a parceria não confiava muito em nós, que éramos descartáveis. Uma particularidade que simboliza o samba na Ilha do Governador e quando falo em Ilha não falo em uma escola de samba ou um grupo de pessoas em especial; mas em um todo é que a pessoa pode não saber rimar ‘amor com dor’, mas se tiver política ou dinheiro é mais importante do que quem escreve.

Dessa forma as coisas ficam sendo tratadas desse jeito descartável. Faz acontecer coisas como um de nossos parceiros, amigo muito próximo de quase duas décadas deixar Cadinho e a mim para trás a fim de fazer samba com quem sempre odiou ou falou mal. Mas eu e Cadinho sempre nos reinventamos, sempre surpreendemos, aliás, quando alguém surpreende tanto por tantos anos algo está errado. Em quem surpreende ou é surpreendido.

Sentimos que a coisa estava complicando aqui e comecei a tratar o convite com mais carinho. Convidei o grande compositor supercampeão e premiado Alexandre Valle para a parceria. Ele convidou seus parceiros Humberto e Ataíde e assim a parceria foi formada. No meio do caminho ainda tivemos a possibilidade de contar com o lendário Waldir 59 no grupo. Waldir é um dos maiores vencedores da história da agremiação, foi parceiro de Candeia e levou nomes como Clara Nunes para a Portela.

Passamos uma tarde maravilhosa em sua casa ouvindo história, músicas. A parceria não foi à frente, mas foi um dia enriquecedor e inesquecível. Igor Sorriso, um dos melhores cantores da atualidade foi contratado e dessa forma chegamos ao dia de hoje.

Minha ligação com a Portela é muito mais antiga que isso. Meu pai, referência próxima a mim como sambista, era passista do Boi da Ilha e torcedor fervoroso da Portela. Herdei dele o gene para o samba e desde pequeno acompanho o desfile das escolas de samba. Acompanhava e sabia que aquela escola que vinha com uma águia na frente era poderosa. A maior vencedora dos desfiles, aquela que era sempre temida.

Para o carnaval de 2003 tivemos oportunidade de tentar compor pela primeira vez à escola. Formei parceria com Cadinho, Paulo Travassos, Roger Linhares e Mestre Arerê. Apesar de juntos termos ganho dois sambas no Boi da Ilha e eu já ter um Estandarte de Ouro, éramos inexperientes. Gravamos em um estúdio ruim justo em uma ocasião onde a escola cortava na fita.

E foi assim que caímos: na fita. O samba nem chegou a ser apresentado na quadra. Alguns dizem que o presidente da época nem chegava a ouvir os sambas de “fora” da escola, mas nunca saberemos. A única coisa que sei é que fiquei com isso na cabeça. Minha passagem pela Portela não poderia ficar naquilo: um corte na fita.

Dentro dos meus princípios e da minha ética, portanto dos limites que estabeleci para mim me tornei um compositor vencedor e sabia que teria um reencontro com a Portela. Reencontro que o Pedro Migão proporcionou com aquele convite em janeiro. Convite que tenho de agradecer eternamente.

Não sei o que acontecerá com o samba. Se vai longe, se vai cair cedo, poderá até já ter caído no momento que você lê essa coluna. Mas subirei no palco da Majestade do Samba como compositor da Portela e isso já é uma grande vitória. Um presente de aniversário.

Valeu meu pai, vestido de esperança não trago só amor e paz como diz a letra de nosso samba. Trago orgulho também.

A família Portela voltou.

E eu também voltei.

Segue abaixo para os amigos a letra e o áudio do nosso samba.

ALOISIO PORTELA 2014

Compositores: Aloisio Villar, Alexandre Valle, Cadinho, Humberto Carlos e Ataíde.

Intérpretes: Igor Sorriso, Marquinhus do Banjo, Cadinho e Bruno Revelação.

Valeu meu pai

Vestido de esperança trago amor e paz

Um laço de histórias que não se desfaz

Abrilhantando os dias de escuridão

A família Portela voltou

Inspirada no azul do mar

A luz que clareia Candeia a te conquistar eu vou

Voltando no tempo levando o Valongo ao futuro do cais

O sangue negro ao mar purificou

Suor correu, lágrima rolou, deixa a cicatriz falar

Ela vai te lembrar, é a nossa raiz

A fé nos ancestrais na construção do meu país


Vê lá, o Rio se afrancesou

É arte, a cultura entra em cena

A cidade se modernizou

Flechado de amor te fiz poema

 

A onda que me leva até a praça do povo

Onde a gente se abraça e é muito feliz

Se congraça sonhando com um novo país

Sou cara pintada, minha voz não vão calar

Essa brisa que a juventude afaga sempre há de inspirar

Um Brasil que é capaz, não foge a luta

Não há de dormir nunca mais

No vai e vem dessa avenida amor, tempo perdido eu vou buscar

Sob o céu azul, um “rio branco”

Porto aberto de encantos

Carioca na folia e devoção

Salve o Rio de Janeiro, Viva São Sebastião

 

A maré vai subir, invadir Madureira

Águas sagradas em meu coração

A águia voltou a voar altaneira

Da Glória do Santo lá vem procissão

3 Replies to “Orun Ayé – “A Portela e eu””

  1. Espero que você seja muito feliz em Madureira. Acho que você chegou na hora certa. E essa experiência só tem a enriquecer ainda mais a sua trajetória. Assim como a Portela tem muito a ganhar com um compositor de tamanho talento.

    Parabéns, Aloisio.

  2. Obrigado Carlos, também acho que é em uma boa hora, gostei muito de ontem.

    Só lamento que meu amigo Cadinho tenha que ter dado pra ler, acho que não precisava chegar a tanto rsrsrs

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