Em mais uma edição da coluna “Pitaco”, o advogado Gustavo Cardoso, a partir de um filme em cartaz, nos conta uma fábula sobre o papel da imprensa e convida à reflexão sobre a situação.

A Caça

Quem gosta do cinema dinamarquês dos tempos de A Festa de Babette e Pelle, o Conquistador, mas não tem visto nada feito lá entrar no nosso circuito comercial, não deve perder A Caça (http://www.adorocinema.com/filmes/filme-206432/), de Thomas Vinterberg, com Mads Mikkelsen, o Hannibal da série de TV. Ainda está em cartaz no Rio, e logo será lançado em DVD.

Mikkelsen, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo papel, é Lucas, homem de muitas amizades que trabalha numa creche em uma pequena cidade do interior. Um dia, uma menina de cinco anos ressentida com Lucas, e que vem a ser a filha do seu melhor amigo, narra fantasias desconexas à dona da creche, que as interpreta como se Lucas houvesse abusado sexualmente da criança. De forma temerária, a diretora acusa Lucas para todos os pais que deixam seus filhos na creche. “Crianças não mentem”, pensam os adultos.

A menina não sabe do que está falando, mas passa a ser pressionada pelos adultos a confirmar as suspeitas destes. Um suposto “especialista” sugere detalhes que se somam à confusa versão original; as suspeitas se transformam em certeza, e uma onda de histeria toma a pacata comunidade. Lucas passa a ser agredido nas ruas, perde a namorada, os amigos viram as costas, sua casa sofre atentados anônimos na calada da noite, e até seu filho, que não tem nada com a história, passa a ser hostilizado.

Os adultos, tomados de fúria, colocam palavras na boca das crianças, e em pouco tempo todos os alunos da creche contam em detalhes a mesma história, a de que teriam sofrido violência no porão da casa de Lucas (cuja casa sequer tem um porão). A primeira menina é elogiada por ter “contado” o horrível incidente, mas ninguém quer ir mais a fundo e expô-la a perguntas. O que já se tem, basta para uma conclusão. Neste ponto, Lucas é preso.

O filme estuda a histeria de massa e a psicologia de cada parte envolvida no turbilhão: acusado, crianças, pais das crianças, amigos, parentes, colegas de trabalho, polícia, comunidade. Na vida real, as reações seriam semelhantes? Em outras palavras, quanto de verossimilhança podemos atribuir à trama? O que proponho aqui é um exercício de imaginação: vamos especular que rumores sinistros tomassem nosso mundo real – as ruas e a mídia.

Como pedofilia é um assunto pesado demais para este espaço, vamos substituí-la por… um projeto de lei! Inventemos um número: PL 370, que tal?

Nossa história inventada começa com um comentarista de TV infantiloide que, meio para atacar inimigos, meio sem saber bem do que está falando, comenta que o PL 370 é uma “terrível ameaça”, que “acaba na prática” com uma importante instituição brasileira. O que se seguiria, se aplicássemos a mesma psicologia de massas que o filme retrata?

pec_37Podemos até assumir que o PL 370 tem o respaldo de grandes juristas, e que vinha sendo debatido em alto nível por verdadeiros estudiosos, mas, em nosso exercício imaginativo, pessoas impressionáveis ficam alarmadas com o comentário ao qual assistiram na TV. “O canal e o jornalista têm muita credibilidade: nunca mentiriam.” Elas interpretam a seu modo a peroração: não entendem a que se propõe o projeto e chegam a pensar que a instituição de que trata o PL vai, literalmente, acabar!

A má notícia se espalha rapidamente. Jornalistas famosos que passam por conhecedores da matéria escrevem e falam de forma dramática contra o projeto. A instituição envolvida publica anúncios na imprensa com o fim de aumentar o pânico. O povo vai para as ruas protestar contra a medida. Anônimos atacam nas redes sociais com mensagens que tratam o PL como uma ameaça à democracia. Ativistas tomados de indignação tentam invadir o Congresso Nacional. Um grupo político acaba sendo involuntariamente identificado com o projeto e se torna o principal alvo da fúria popular. Antigos defensores do projeto de lei se escondem, e até se voltam contra o que haviam dito antes.

No fundo, quase ninguém sabe realmente do que trata o PL 370, nem procura saber. Ainda assim, a imprensa se autoelogia por ter “informado” a opinião pública. Será que chegaríamos ao ponto em que adultos colocariam palavras na boca das crianças e as levariam, com cartazes, para a linha de frente da “luta”? Não, isso deve ser exagero, coisa de cinema. Podemos nos contentar em imaginar que o Congresso se reuniria com urgência para rejeitar nosso PL, e que, se alguns hereges se atrevessem a votar a favor, a imprensa não tardaria em denunciá-los. A sociedade se sente revigorada em sua capacidade de, unida, alcançar resultados.

Aqui termina o pesadelo? Ou a irracionalidade humana praticamente não tem limites? O filme tem sua própria resposta. Vale a pena assistir.

[N.do.E.: uma explicação sobre o PL370 pode ser vista aqui.]

2 Replies to “Pitaco – “A Caça””

  1. O advogado Gustavo Cardoso, com o brilhantismo que vem demonstrando nas colunas que escreve, traça um paralelo entre o filme “A caça” e a recente histeria popular provocada pela Pec 37. Parabéns ao novo colunista

  2. Excelente texto! Bons exemplos – na ficção e na vida real – de como uma mentira bem contada, que reflita o que parte dos ouvintes “querem” ouvir, pode tornar-se mais que uma verdade; torna-se um dogma, cativa fãs, vira religião. Um outro caso incrível, na mesma direção, mostra-se nas respostas que enviaram ao post de ontem do Pedro Migão. Fazer qualquer comentário contra a atual Diretoria Azul do Flamengo pode levar alguém a ser tratado como anti-flamenguista, traidor, mentiroso. Quando, na verdade, esta Diretoria é que é fruto do engodo, da manipulação, da mentira contumaz. Mas há uma legião que a defende, como a PEC e a mentira da menina do filme formaram legiões também.

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