Nesta sexta o jornalista esportivo Fred Sabino comenta sobre o recente processo de elitização a que estamos assistindo em nosso futebol.

Futebol Excludente

Modalidade esportiva mais popular no mundo, o futebol sempre despertou em mim sentimentos bem fortes: amor, paixão, emoção, raiva, tristeza, alegria, esperança. Mas hoje em dia, em que pese eu ainda gostar de assistir a um bom jogo, torcer pelo meu time, e aplaudir jogadores como Messi, Neymar, entre outros (poucos), a verdade é que cada vez mais o futebol menos vem me dando desejo de ir a um estádio.

Perdoe-me, leitor, pelo tom da coluna, mas a cada dia que passa é a sensação que o futebol (não exatamente o jogo em si, que, apesar de ser menos técnico e mais físico, ainda tem encantamento) vem escapando cada vez mais das mãos dos apaixonados, e por muitas vezes, abnegados, e está virando um encontro social para pessoas mais abastadas, que realmente não tem os laços sentimentais com a modalidade.

Por isso, a minha indiferença a ir a um jogo hoje.

A começar pelo preço dos ingressos. É claro que a situação não é fácil e os clubes precisam rentabilizar ao máximo a bilheteria, mas o que se paga para assistir a uma partida de futebol qualquer – nem digo uma decisão – está num patamar absolutamente inaceitável para a renda média da maioria dos brasileiros. Maioria que, apaixonada, consolidou o futebol como a modalidade mais importante de todas. Não esta maioria do público que aí está nos estádios.

Quando eu ia com mais frequência aos jogos, eu não só queria ver o jogo em si e meus ídolos em campo representando o meu time, ou ver gols e jogadas, mas queria torcer, jogar junto com a equipe, como se diz. Se necessário, xingar. Vaiar quem merecia no fim do jogo, ou aplaudir quem jogou com determinação. Hoje é um tal de gente que faz pose pra tirar foto no estádio e postar na internet que duvido que a prioridade é o jogo ou o time.

Além da questão dos ingressos, querem impor uma hipócrita cartilha politicamente correta. Hoje não se pode mais beber uma cerveja no estádio (na Copa vai poder, mas por outro$ motivo$, vocês sabem), querem que não se xingue, querem banir bandeiras e faixas…

A última medida absolutamente esdrúxula é a tentativa de realização do Gre-Nal do primeiro turno do Brasileiro com torcida única, devido aos incidentes do último clássico. Colocaram no mesmo balaio o vagabundo que fez arruaça e o torcedor que quis se divertir e apoiar de verdade o time do coração.

Todas essas medidas ou sugestões são uma prova cabal e incontestável de incompetência das autoridades em combater o que deve ser combatido, ou seja, os maus elementos que vão aos estádios, e uma vontade política de elitizar o público que vai ao estádio.

Não se discute a necessidade de reformas nos estádios brasileiros. Alguns foram (ou estão sendo) construídos do zero, outros estavam caindo aos pedaços e precisavam ser urgentemente renovados. Era urgente haver mais conforto. Mas não é porque os estádios passam a ter fisicamente novas características, que é necessária uma política excludente de torcedores.

Pergunto eu: se o jogo em si já é mais chato do que antigamente, se eu preciso pagar uma quantia absurda por um ingresso, se não querem que eu leve bandeira ou faixa, se me impedem até de beber uma cerveja, se não querem que eu xingue o árbitro ou algum jogador, se só querem que eu fique paradinho e se querem público cada vez mais desprovido de sentimentos, que diabos eu vou querer fazer num estádio?

Não é meramente uma questão de ricos contra pobres. É claro que há ricos apaixonados por futebol. Mas é repugnante essa vontade política de mexer na essência do povo brasileiro. Já não basta o que se tira diariamente do povo em impostos, serviços precários e permissividade da violência. Estão querendo tirar o povo dos estádios.

E esse futebol (não o jogo, mas o conjunto da obra que o cerca) que querem impor só me desperta indiferença.