Nesta segunda feira a coluna do publicitário Affonso Romero nos traz um olhar sobre o Peru e sua capital Lima, visitada recentemente pelo colunista.

Loucura limenha – Um Olhar sobre o Peru

Fui ao Peru. Um belo país. Mais que isso: um país para lá de interessante. Para nós, brasileiros, é quase um lugar comum falar (ou ouvir falar) sobre nossa nação como um caldeirão cultural e étnico, um lugar onde as várias facetas do mundo se encontram. Pois o Peru é um Brasil elevado ao quadrado neste quesito.

Talvez pela extensão continental do Brasil, nós temos uma visão distorcida de que somos os únicos na América do Sul com distinções regionais muito marcadas, com sotaques tão diferenciados, com tipos físicos e costumes tão variáveis. Nada mais errôneo. E, nessa, desconhecemos a riqueza de um vizinho em que em cada uma das regiões administrativas cabe um universo inteiro, com um povo absolutamente miscigenado, oriundo de culturas ancestrais que se (con)fundem nos ventos dos séculos, com paisagem humana e pictórica inesgotável. Fosse só por isso e a viagem já teria valido à pena.

Mas, neste e além deste contexto, há a culinária, um povo carinhoso, simpático e hospitaleiro, uma economia que vai se dinamizando e descobrindo-se viável. E uma capital, Lima, que se mostra uma cidade surpreendentemente cosmopolita, ainda que seu maior charme ainda resida no Centro histórico colonial, com palácios, igrejas e sacadas deslumbrantes, tudo envolto numa atmosfera de Mercadão de Madureira às portas do Pacífico.

DSC00225Esta mistura toda tem milhares de facetas positivas, mas pelo menos uma que é muito negativa: o trânsito caótico. Sim, coloco a questão do transporte urbano no mesmo cadinho das fusões peruanas, porque muito deste problema provém da mistura de modelos e realidades motoras antagônicas, da migração descontrolada, da explosão populacional, da abertura econômica desregrada e, principalmente, da doença crônica da desregulamentação – na verdade, a terra-de-ninguém que surge da falta de Estado – que assola o Peru há anos.

Vamos por partes.

No Peru, a legislação permite a importação de veículos automotores usados. Na maioria dos países, principalmente naqueles em que há indústria automobilística local, isso é proibido. No Brasil, só é possível importar carros zero. A menos que o cidadão volte a ser residente depois de ter morado no exterior, situação em que ele pode trazer seu veículo particular.

Lima está repleta de carros que chegaram ao Novo Mundo depois de anos e anos de serviço em países como China, Japão e Coréia. A maioria é de latas-velhas de pequeno porte e tecnologia ultrapassada, com alta emissão de poluentes. A medida legal que permite este absurdo é fruto de uma economia que, até bem pouco tempo, singrava entre a pobreza e a miséria. Em condições assim, dar acesso a bens de segunda mão talvez não fosse tão má idéia.

Só que o Peru, apesar de não ser ainda uma nação rica, conseguiu formar bolsões de riqueza. Boa parte da classe média urbana tem, hoje, condições de importar modelos de luxo, notadamente SUVs e pickups potentes. A convivência de tipos de veículos com performances tão distintas dificulta ainda mais a circulação em Lima.

DSC00375Outro efeito direto disso são os tipos de gasolina nos postos de combustíveis: tantos, que dá a impressão de que qualquer motorista tem que fazer um curso de química para compreender os resultados esperados de octanagens que levam a bombas com até o dobro do preço uma da outra em todos os postos da extensa zona metropolitana de Lima.

O tamanho da metrópole também é um fato complicador. A cidade vai se emendando com outros municípios limítrofes, tal como nos grandes centros urbanos brasileiros, com a distinção de que a capital peruana corre de norte a sul espremida entre as falésias que levam ao Oceano Pacífico e as franjas da Cordilheira dos Andes. Ou seja, a urbe cresce comprida, sem espaço para alargar-se rumo ao leste ou oeste. Os extremos tornam-se cada vez mais distantes e as opções de circulação são poucas. O crescimento urbano que levou a esta situação, ocorrido ao longo das últimas décadas, foi um fenômeno comum nos países de terceiro mundo na segunda metade do século XX.

Como Lima é a única grande metrópole do Peru, atrai para si todas as boas oportunidades de emprego e, com isso, levas infinitas de migrantes a cada novo ciclo econômico. Com a economia aquecida, neste momento Lima continua crescendo sem nenhum planejamento para tal.

DSC00344Paralelo a isso, o crescimento demográfico peruano ainda é equivalente ao de países pobres, principalmente dentre a população mais humilde.

Aos poucos, o governo do Peru, que segue a recente tendência sul americana de políticas progressistas e de inclusão social, vai tendo relativo sucesso na integração de novas faixas da população ao país moderno que brotou inicialmente em pequenos bolsões nos bairros nobres de Lima. Isso é bom, claro, mas faz crescer ainda mais o número de veículos circulando nas já lotadas vias limenhas.

Nem sempre foi assim: até os anos 1980 o Peru vivia basicamente de seus recursos minerais, explorados por empresas estrangeiras, com benefícios para uma pequena elite local e uma classe média irrisória. Nos anos 1990, o país adotou o modelo liberal, então em moda. Sob Fujimori, até houve crescimento econômico, mas acirrou-se a concentração de renda. Naquele cenário, questões como transporte público foram relegadas a um segundo plano.

A lógica perversa de desregulamentação absoluta, a naturalidade perante a ausência do Estado, o salve-se-quem-puder, impregnaram-se na cultura econômica dos peruanos de modo indelével.

DSC00371O resultado disso tudo é um caos incompreensível para o turista desavisado.

Por exemplo, não há taxímetro para balizar o valor das corridas de táxi. Cada viagem deve ser negociada entre passageiros e motoristas. Em alguns casos, com verdadeiros leilões reversos, numa demonstração crua dos valores da livre concorrência. Imagine o inconveniente para um estrangeiro, principalmente para alguém que não domine a língua. Menos mal que, mesmo assim, pelo elevado número de táxis nas ruas (já que não é obrigatório ter permissão legal) o preço médio das corridas é um dos mais baixos do mundo.

Há poucas alternativas de transporte público, nenhuma delas confiável. As linhas de ônibus não têm lógica nenhuma e os motoristas alteram as rotas a seu bel-prazer. Rotas básicas estas que são traçadas pelas centenas de pequenas empresas de coletivos que disputam as áreas de maior movimento e abandonam os bairros menos atraentes para seus resultados financeiros imediatos. Desnecessário avaliar o estado da frota, uma vez que a autoridade local sequer regulamenta a qualidade do serviço, ou impõe qualquer tipo de padronização. Seja de tarifa, qualidade, atendimento ou o que quer que seja.

Como no Rio de Janeiros e em algumas cidades brasileiras, vans improvisadas oferecem seus serviços, com a diferença que circulam com o dobro ou mais da lotação de lugares sentados.

Há um corredor de ônibus que é o filé do sistema coletivo. Ali, a coisa parece funcionar, mas nitidamente é uma exceção. O Metrô terá, por enquanto, uma única linha, que está em construção (licitação vencida pela Odebrecht).

DSC00343Este cenário é coroado por um comportamento absolutamente irracional por parte de motoristas. Diga-se que os peruanos são cordiais, gentis, suaves e risonhos, em grande maioria. Mas transformam-se totalmente atrás de um volante. Passam a ser agressivos, nervosos, apressados, irresponsáveis.

Eu sempre converso bastante com taxistas quando viajo, ou pelo menos tento, consideradas as eventuais barreiras lingüísticas. Inicialmente, fiquei retraído pelo comportamento deles ao volante. Até perceber que não era mau humor, ou má vontade em atender bem. Ao contrário, no entendimento deles, o passageiro espera presteza, que se traduziria em freadas e arrancadas bruscas, avanços de sinais (são poucos os sinais na cidade, normalmente os cruzamentos são disputados no grito) e sustos diversos.

Lima é, a cada esquina, um monumento vivo às máximas da economia liberal: o “mercado, deixado a si mesmo, se auto-regula”. E o trânsito limenho é isso: a auto-regulamentação daquilo que é totalmente desregulamentado. E, como nos exemplos da economia real, demonstra na prática que o modelo teórico não funciona e leva ao caos.

DSC00335No último dia, a caminho do aeroporto, não me contive e, ao me dar conta de que não havia presenciado nenhum mínimo acidente nas loucas vias peruanas, perguntei ao motorista como aquilo era possível.

“Ah, meu amigo, é que todo mundo corre e força passagem, mas aqui todos sabem que no carro ao lado deve ter um maluco maior; no final, no último momento, a gente freia.”

Então está entendido: a pax limenha é o caos.

DSC03217(Todas as fotos são do arquivo pessoal do colunista)

6 Replies to “Sobretudo: “Loucura limenha – Um Olhar sobre o Peru””

    1. Só porque o Affonso estabeleceu um nexo causal entre os governos neoliberais peruanos e o caos da cidade (rs)?

      1. Não. Apenas pelo caos mesmo. Não gosto de lugares assim. Cara, minha carreira tucana está arrunada com o “retweet” famoso que ganhei hoje na coluna (muitos risos).

    2. Rafic, obrigado pelo elogio. Eu destaquei a característica que dava uma coluna mais interessante, mas a cidade é muito mais que isso. Tem caos no trânsito, sim, mas tem muita beleza, muita história, culinária, um povo hospitaleiro. Vale á pena.

  1. Ao contrário do que li acima, fui em 2012 à LIMA. Inesquecível,apaixonante. MÁGICA!!!
    Sonho e pretendo ir ao Andes. Lima é apaixonante.Sua cultura fascinante.Claro,com suas diferenças ainda por serem aperfeiçoadas. Mas diante da maravilhosa cidade que é,esses pormenores ficam apagados.

  2. Ah, deixei de comentar algo que deixou-me extasiada. SUA CULINÁRIA EXÓTICA,MARAVILHOSA!!! Inesquecível!!!!

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