Nesta segunda feira a coluna do estudante Leonardo Dahi aborda a questão das Torcidas Organizadas de clubes de futebol. Vale a pena também ler sobre o assunto a “Bissexta” publicada anteriormente.

As Torcidas Organizadas e a violência no futebol

A briga entre torcedores do Corinthians, do Vasco e a Polícia dentro do estádio Mané Garrincha (foto), em jogo válido pelo Campeonato Brasileiro, reacendeu aqui no Brasil o debate sobre violência nos nossos estádios.

E toda vez que se tem esse tipo de debate, o vilão é sempre muito claro, quase unânime: as torcidas organizadas. Dizem que elas são “coisa de bandido”, que são criminosas, afugentam os verdadeiros torcedores dos estádios, mandam nos clubes, etc. Não é nem um pouco raro ouvir alguém se dizendo a favor do fim desses grupos de torcedores como alternativa para o fim desse problema.

É aí que está o erro.

É óbvio que existem bandidos nas Torcidas Uniformizadas. É óbvio que muitas delas são comandadas por gente de caráter duvidoso. É óbvio que muitos de seus integrantes vão ao estádio para brigar. Ainda assim, sua virtual extinção seria um erro. Um erro bem grande.

Em primeiro lugar, porque T.O. não é “coisa de bandido”. Ela tem, sim, como eu já disse, gente bem esquisita entre seus integrantes, mas isso não pode, nunca, descaracterizar a instituição. Até porque, além de serem de organizada, são torcedores de algum clube. E alguém ousa falar que torcer para time x é “coisa de bandido” por causa deles? Claro que não.

Outra coisa que pouca gente percebe é que, pelo menos dentro dos estádios, uma torcida organizada é formada em sua maioria por gente que nunca sequer esteve perto de pertencer a ela. Eu mesmo estive na famosa arquibancada amarela do Pacaembu por algumas vezes, levantei bandeirão da Gaviões da Fiel e nunca nem passei perto de ter uma camiseta da agremiação. Muita gente vai lá simplesmente por gostar da festa, ou por ser o lugar mais barato do estádio.

Se tem um setor tem cinco mil lugares para a T.O., vamos supor que 500 sejam, de fato, da mesma. Os outros 4500, via de regra, tem pouca ou nenhuma ligação com elas. Onde eu quero chegar? Ora, você leitor acha que acabando a instituição estes 500 não se reunirão mais? E essa meia ddúzia que arranja confusão, vai passar a pertencer aos monges beneditinos do dia para noite?

Quando se acaba com a T.O., a única coisa que acaba é justamente sua única utilidade e função de existir: a festa, a bandeira, o grito. Os marginais continuarão lá, e ao invés de estarem em um cantinho separado para a selvageria, estarão no meio de todos nós, torcedores de bem.

Sei que é meio triste dizer isso, mas, se é para ter briga, que briguem entre si sem afetar quem vai ao estádio para ver futebol. E é o que todos nós pensamos, ainda que não digamos. Prova disso é que pouca gente comentou uma briga entre são-paulinos e flamenguistas no mesmo estádio, uma semana antes,

Resumo da ópera: da próxima vez que sair uma confusão em estádio, não culpe as Organizadas, mas sim os próprios envolvidos na pancadaria. A mim, parece muito mais viável que a Polícia busque essa gente através das câmeras dos estádios e coloque na cadeia do que o MP conseguir extinguir uma Torcida Organizada, seja ela qual for.

Porque foi esse o problema do caso de Brasília. Todo mundo ficou discutindo punição para Corinthians, Vasco, Gaviões e esqueceram dos verdadeiros responsáveis por isso, que são os envolvidos na pancadaria.

Você deve estar pensando: “tá certo, você defendeu as Organizadas, mas qual é a sua solução para o problema? Vai deixar desse jeito?”.

Honestamente, não vejo, pelo menos a curto prazo uma alternativa. Porque o ideal mesmo seria os clubes pararem de financiar esse pessoal. Assim, ela não seria uma fonte inesgotável de dinheiro e só ficaria lá quem tem de fato amor pelo clube e pela agremiação. Para ir ao jogo do time em casa, só precisa do dinheiro do ingresso. Se não tiver grana para ir fora, não vai. Garanto que ninguém nem vai notar. Só que clube nenhum parece disposto a comprar essa briga, por n razões. Das mais óbvias – eles derrubam jogador, técnico, Presidente – às mais obscuras (existem relatos de ameaças às famílias de homens fortes do clube).

E, é claro, isso está, acima de tudo, nas mãos da Polícia. Essa sim pode identificar e enjaular os criminosos. Não como torcedores, nem como integrantes de qualquer torcida, mas sim como um cidadão comum. E convenhamos que nenhum deles merece ser mais do que isso…

(Foto: Lancenet)