Nesta quinta, a coluna do advogado Walter Monteiro aborda o recente resgate dos cães da raça beagle de laboratório dedicado a pesquisas científicas.

A Revolução dos Bichos

Meus pais me deram de presente de aniversário de 8 anos a Samantha. Qual a criança que nunca quis ter um bicho de estimação? Eles, como qualquer pais, resistiam muito à ideia, mas cederam quando viram uma ninhada de pequenos dálmatas brincando bem em frente de casa, obra de um vizinho nosso que era criador de cães para fins comerciais. Ele nos vendeu um filhote, eu tive a chance de escolher, quis a Samantha, que tinha um olho coberto por uma mancha preta. Não pude dar nome para ela, que veio com pedigree e certificado, o avô tinha sido um dálmata estadunidense campeão em não sei quantos concursos.

Tanta nobreza na linhagem não evitou que Samantha (na foto que abre o post, comigo) fosse acometida de um mal que era comum aos dálmatas dos anos 70: aos 3 anos ficou cega de um olho, aos 5 anos ficou cega de ambos. Era triste ver Samantha se esgueirar pela garagem da casa, esbarrando pelos carros, pelas tralhas, pelas coisas esquecidas. E eu cresci compartilhando a tristeza da Samantha, lutando para sobreviver com sua cegueira.

Quando eu fiz 17 anos, Samantha se foi. Nunca mais tive cachorro, mas admiro quem os tem, como o Editor Chefe (foto ao final do post).

Também nos tempos de Samantha a nossa relação com os animais era mais, digamos, direta. Ela tomava banho lá no quintal de casa mesmo, com escova, mangueira e sabão – caramba, como ela gostava daquela mangueira. Comia os restos da nossa comida, às vezes comia Bonzo, que era a única ração que eu me lembro de vender naquele tempo. Ela não gostava de Bonzo, gostava mais das carnes que a gente dava para ela, do leite que a gente deixava na cumbuca.

A gente amava a Samantha, ela amava a gente ainda mais, mas tinha uma linha divisória bem nítida: ela era cachorro, os humanos éramos nós. Ela morava em uma caixote de madeira, improvisado pelo Carvalhinho, um faz-tudo lá de casa; do quintal e da garagem Samantha não passava. Na parte social da casa, só a gente. Morava junto com uns trapos que eu nem sei como foram parar lá. Seu único luxo eram uns ossinhos de brinquedo que a gente comprou no equivalente ao Pet Shop da época, mas que era uma loja de animais vivos, alguns até para consumo, como frangos.

Entendo que os tempos mudaram. Conheço um par de gente que não se envergonha de postar nas redes sociais platitudes como “quanto mais convivo com humanos, mais eu amo meus cachorros” ou coisas do gênero. Hoje em dia nem estranho mais quando vejo cães passeando em carrinhos empurrados por seus donos, como se bebês fossem.

Mas poucas coisas me chocaram tanto quanto a invasão do Instituto Royal. Uma espécie de intervenção direta, de gente invadindo um instituto de pesquisas científicas, para retirarem cães Beagles, que ali serviam de cobaia para produção de medicamentos para humanos e outros cães.

Eu sou visceralmente a favor das pesquisas científicas, do progresso, do avanço da ciência e, inclusive, de rações mais saborosas para cães, para que os cachorrinhos de hoje em dia não precisem sofrer com o velho Bonzo da minha saudosa Samantha, mas esse nem é o meu ponto.

O que realmente me tirou do prumo foi ouvir várias vezes – repito, muitíssimas vezes – que ao invés de se valerem dos fofíssimos Beagles para fins de investigação, os cientistas tem ao seu dispor um vasto arsenal de assassinos, estupradores, corruptos e criminosos diversos, prontinhos para serem inoculados com todo tipo de vírus, maus tratos e experimentos, para que possam sofrer à vontade e assim dar aos homens de bem o progresso científico.

Eu poderia me escandalizar com esse grau de insensibilidade, achar que estamos à beira dos fins dos tempos mesmo. Estaria, é claro, coberto de razão. Só que isso ainda nem foi o pior…

O pior foi me lembrar que, em 1935, Sobral Pinto precisou invocar a Lei de Proteção aos Animais, para exigir tratamento digno aos comunistas presos em um levante contra a ditadura de Getúlio Vargas.  Afinal, os comunistas não eram pessoas do bem, podiam mesmo sofrer maus-tratos ainda mais severos do que os impostos aos cavalos.

Daí concluo: quase 80 anos depois, ainda há quem ache que os presos estão um degrau abaixo na escala de valores do que os Beagles. George Orwell, pelo visto, acertou duas vezes. A primeira, ao prever o Big Brother. A segunda, ao antever que haverá um tempo em que já não se saberá quem é humano e quem não é.

20131020_160541

One Reply to “Bissexta: “A Revolução dos Bichos””

Comments are closed.