A coluna do estudante Leonardo Dahi traz a opinião do autor sobre calendários do futebol e o futuro dos Campeonatos Estaduais.
Eu sou rival do Bom Senso
Nas últimas semanas, causou um certo barulho na imprensa esportiva a criação do Bom Senso F.C. Para quem não sabe, o projeto foi criado por mais de 80 jogadores – a maioria dos clubes de ponta – com o objetivo de discutir melhor o tão famigerado calendário do futebol brasileiro, clamando por um futebol melhor “para todos”, desde “quem assiste” até “quem transmite”.
Ainda que em fase embrionária, o Bom Senso conseguiu marcas importantes, como a redução de alguns campeonatos estaduais em 2014 (Carioca e o Gaúcho), que estarão com suas datas ainda mais sufocadas devido à paralisação de 30 dias para a Copa do Mundo de 2014. A princípio (e, em São Paulo, até o momento em que escrevo), eles teriam seu início no dia 14 de janeiro e os clubes teriam apenas quatro dias de pré-temporada.
Independente de eu concordar com as ideias deles ou não (não é possível concordar ou discordar, visto que o projeto concreto ainda não foi apresentando), já acho muito bacana que os jogadores tenham se unido por um ideal comum. O futebol sempre foi, Sócrates à parte, área de alienados políticos – ainda que na política interna do esporte – e só dos profissionais terem voltado ao mundo real já fico feliz.
Só que é preciso ter muito cuidado com essa história. Vejo por aí na internet, já há algum tempo, uma cruzada contra os campeonatos estaduais. E, agora, esses quase torcedores da redução desse tipo de torneio, o mais tradicional do país, ganharam um time com sobrenome “futebol clube”. Esse é o meu medo: que esse movimento seja o início de uma mudança que culmine na total perda de identidade do futebol brasileiro, que passaria pela transformação dos Estaduais em Copas, ou pelo fim dos mesmos.
Aproveito a ocasião para dar meu parecer sobre o tema calendário dos Estaduais.
É impossível pensar no futebol brasileiro sem os Estaduais. Eles fazem parte da vida de cada torcedor. Todos nós temos alguma lembrança legal de um torneio desse tipo. O primeiro título que comemorei do Corinthians foi o Paulista de 2003, e, apesar de ter apenas quatro anos à época, lembro bem dos jogos passando no SBT, da semifinal contra o Palmeiras e a final contra o São Paulo.
Além do mais, considero o Paulista de 77 um título muito maior que o recente Mundial de Clubes. Os flamenguistas tem o gol de Petkovic em 2001, os palmeirenses a goleada sobre o Corinthians em 93 e por aí vai.
Não se pode, de um dia para o outro, fazer esses campeonatos em sete jogos. É um desrespeito às nossas tradições e aos clubes menores. Se o número de jogos de hoje é uma tortura para os grandes, o número que se vê por aí em blogs e jornais é terrível para os pequenos. É preciso achar um meio termo.
Realmente, acho que 23 datas para os Campeonatos Estaduais é bastante coisa. Mas não por pré-temporada, preparo físico, nada disso. Nesse sentido, sou quase um homem das cavernas. Acho que jogador ganha muito bem para jogar quarta e domingo o ano inteiro. Aliás, coisa de 15 anos atrás tínhamos um Brasileirão acabando junto com a vinda do chester natalino. Sou a favor da redução de datas porque, com o enfraquecimento dos pequenos, o desnível técnico se tornou muito grande e esses torneios perderam a graça.
A minha ideia é reduzir de 23 para 15. Em São Paulo, isso daria dois grupos de dez, turno único, com os quatro primeiros avançando para as quartas de final. De lá até a final, dois jogos. No Rio, a saída seria reduzir para 12 times, com Taça Guanabara e Taça Rio com semi e final em jogo único, e final em dois jogos. Isso daria 17 jogos, mas seria possível ajeitar começando uma semana antes que o resto.
Nessas oito datas que sobraram, seria possível fazer a tal pré temporada que todos querem.
Em tempo: não sei qual é a posição exata do Bom Senso F.C. sobre o assunto, mas, acredito que seja tão radical quanto de grande parte da imprensa esportiva, que, dia após dia, parece ter se vendido a um padrão europeu de se ver futebol que, vê-se, não deu certo por aqui – o tal baixo nível do Brasileirão, para mim, se deve a isso.
Bem, já que eu dei essa chutada de balde agora no fim, não custa falar que sou a favor da volta do mata-mata. Mas isso é assunto pra outro dia… Por enquanto, fico aqui na torcida pela minha querida Associação Esportiva Falta de Bom Senso.
(Imagem: Revista Exame)