Nesta quinta feira a jornalista Raphaele Ambrosio nos explica os conceitos básicos do Candomblé.
O Universo do Candomblé
Para muitos, uma prática respeitosa, que além de trazer paz, os beneficia no ramo financeiro e amoroso; para outros, uma prática com ações demoníacas, que vai contra os princípios de Deus, aliás, está bem longe do criador do mundo. Mas você sabe a fundo o que é o Candomblé? O que ele representa?
De origem africana, o candomblé consiste na cultuação de Orixás, Nkisis e Voduns, de acordo com a sua Nação (linha, caminho a ser seguido). Cada Nação tem seu modo único de cultuar os Orixás e cada Ilê Axé (casa, terreiro, roça) seu jeito, doutrina. Cada Ilê difere de outro, porém, todos devem seguir a linha de sua Nação, seja ela Ketu, Angola, Jejje Mahi. Essas são as principais, embora na África ainda se cultue o Efon, que no Brasil perdeu um pouco sua força – já que o Ketu por ser similar é muito cultuado por aqui.
Para falar das Nações, primeiro é necessário saber o que significa Orixá. Para quem cultua, é quem rege seu Ori (cabeça em Yorubá – língua africana). Orixá são ancestrais africanos que tem forças divinas ligadas à natureza. Eles não estão acima de Deus, criador da Terra, porém para quem cultua, fica entendido que eles são aliados de Deus; assim como que na Igreja Católica os Santos e Anjos são aliados, guardiões, no espiritismo os Orixás executam o mesmo papel. Cada Orixá tem sua própria característica, seja ela na vestimenta, nos atos, no alimento. Cada um traz sua força, diferente do outro. Nenhum Orixá é igual, assim como nenhum ser humano é, isso aproxima a divindade ao real. Entenda mais:
Oxalá: Orixá que só se veste de branco. Representa a paz, a fé. Sua cor é branca, seu dia é sexta feira. Sua saudação é Epa Babá;
Exú: guardião das porteiras, das casas, das encruzilhadas. Muitos os confundem com diabo, mas eles são na verdade Orixá de luz, quando assim cultuado. São aliados, acompanham quem está na rua e ajuda a afastar perigos como assalto e malfeitores. Suas cores são vermelho e preto, seu dia é segunda feira. Sua saudação é Laroyê Exú;
Ogum: na Igreja Católica, é representado por São Jorge, santo guerreiro. Assim como na Igreja, ele é guerreiro, não foge da luta. É o dono do ferro, dono da estrada. Sua cor é azul royal, seu dia é terça feira. Sua saudação é Ogum iê (força de Ogum) ou Patakori Ogum (muita honra em tê-lo em minha cabeça);
Ogum Já: Orixá guerreiro branco. Muito quente em seus atos. É traçado com Oxalá, irmão de Ayrá, Jagun e Oxaguian.
Oxóssi: Orixá da caça, dono da mata, arqueiro, representa fartura. Sua cor é verde azul claro, traz consigo o arco e flecha, seu dia é quinta feira. Sua saudação é Okê Arô (salve o grande Caçador);
Logun Edé: Dono da pesca, Oxóssi menino. Sua cor é amarelo e azul. Seu dia é quinta feira. Sua saudação é Logun ô akofá;
Xangô: Dono da justiça, é representado pelo trovão. Não aceita doença. Na Igreja é representado por São Gerônimo. Usa uma coroa, traz consigo um machado duplo, seu dia é quarta feira, suas cores são marrom e branco ou vermelho e branco. Sua saudação Kawô Kabiecile (permita-nos olhar a sua Alteza Real);
Ayrá: É um guerreiro branco. É traçado com Xangô e Oxalá. Só usa branco e por ser da mesma linha que Xangô e Oxalá, traz consigo as mesmas características desses Orixás. É um lutador, irmão de Ogum Já, Jagun e Oxaguian.
Obaluayê: Conhecido também como Omulu, Orixá das pragas. Ao mesmo tempo em que ele representa doença, já que ele é leproso por conta de problemas que passou em sua existência, ele é o Orixá da cura. Ele representa a vida e a morte. Sua casa é o cemitério, sua vestimenta é de palha para esconder as feridas no corpo. É representado pelo sol e na Igreja por São Lázaro. Suas cores são preto, branco e vermelho, seu dia é segunda feira. Sua saudação é Atotô (silencio, ele está entre nós).
Jagun: Guerreiro branco. Traçado com Oxalá. Só veste branco. Traz consigo as mesmas características de Oxalá e Obaluayê. Por ser um Orixá quente, não pode em hipótese alguma levar dendê em sua comida. Irmão de Ogum Já e Ayrá.
Oxumaré: Orixá do arco íris, representado pela cobra. Dono da transformação, da chuva. Seu dia é terça feira, suas cores são todas as do arco íris, sua saudação é A Run Boboi / Arroboboi.
Ossaim: Ao lado de Oxóssi, protege as matas e os animais. Conhece o segredo de todas as ervas, folhas sagradas usadas para efeitos medicinais, para o bem estar. Suas cores são verde e branco, seu dia é quinta feira. Sua saudação é Euê-ô! Euê-ô! Euê-ô aça (salve o senhor das folhas)
Iansã: Conhecida também como Oyá, é a dona das tempestades, do vento, relâmpagos. Carrega consigo o dom da paixão e afasta com o seu vento todas as mazelas da vida. Na Igreja é representada por Santa Bárbara. Sua cor é marrom e vermelho, seu dia é quarta feira. Sua saudação é Eparrê Oiá (saudação aos majestosos ventos de Oyá)
Oxum: Deusa do amor, vive na cachoeira, é dona de lá. É quem ajuda na conquista do ouro, da riqueza, dona do ventre, protege bebês e recém-nascidos. Deusa da beleza. Sua roupa é amarela, dourada, azul claro ou rosa. Traz consigo um espelho, um leque e uma espada, caso seja guerreira. Seu dia é sábado. Sua saudação é Ora iê iê ô (salve a senhora da bondade)
Iemanjá: Dona do mar, da fertilidade. Mãe de todos os Orixás. Protetora dos pescadores, adorada por eles. Seu dia é sábado, suas cores são azul, prata e branco. Sua saudação é Erù Iyá, Odó Iyá.
Nanã: Um Orixá velhinho, a vovó de todos. Protege os idosos e desabrigados. Vem na linha da morte. É representada pela chuva e lama. Mãe de Obaluayê e Oxumaré carrega consigo também as pragas, as doenças. Traz consigo um cetro. Suas cores são lilás, branco e azul. Seu dia é terça feira. Sua saudação é Saluba Nanã (salve a senhora mãe de todas as mães)
Ewá: Segue a lenda que apenas moças puras podem receber esse Orixá. Ela é protetora das moças virgens. É a dona do Rio Yewa e dona também das vidências. Seu dia é sábado, suas cores são vermelho, coral e rosa. Sua saudação é Ri Ró Ewá.
Obá: Dona da guerra e das águas. Por amor a Xangô e influencia de Oxum, cortou sua própria orelha para dar de presente ao seu grande amor. Foi repudiada por ele, mas, ainda assim, é tida como uma das mulheres de Xangô. Suas cores são marrom, vermelho e amarelo, seu dia é quarta feira e sua saudação é Obà Xirê.
Irôko: Orixá representado pela árvore sagrada. Suas cores são branco e cinza, seu dia é terça feira. Sua saudação é Iroko y só. Eeró.
Oxaguian: Oxalá mais novo, guerreiro branco. Sua vestimenta é branca, assim como Jagun, não pode levar dendê em sua comida, por ser um Orixá quente. É da linha de Oxalá, irmão de Jagun, Ayrá e Ogum Já.
Oxalufan: Oxalá mais velho, carrega consigo um cajado. É um Orixá sábio.
Odudua: Para o candomblé, é o Orixá criador do mundo.
Erê: Filhos dos Orixás, são representados pelas crianças. São sapecas, porém, divinos, tão poderosos quanto seus pais. Protegem a todos, principalmente, as crianças. Seu dia é domingo. Sua saudação é Omi Beijada ou Bejiróó.
(O Terreiro de Mãe Menininha do Gantois. Foto: Arquivo Pessoal do Editor)
Cada um desses Orixás é tratado com todo o respeito em suas Nações. É certo que cada Nação tem seu modo de tratar, cultuar, cuidar. Nação, como já foi dito acima, é a linha, caminho em que o Orixá é cultuado. Cada um tem sua doutrina. Conheça um pouco das três Nações ativas no Brasil:
- Jeje Mahi: a palavra Jeje em Yorubá significa forasteiro, estrangeiro. É o candomblé formado pelo povo fons vindos de Dahomé e pelo povo Mahin. Os primeiros negros da tribo Jeje que chegaram ao Brasil foram por São Luís do Maranhão e deste lugar começaram a ir para Salvador, na Bahia. Após alguns anos, boa parte deste povo ficou em Cachoeira e São Félix, formando uma grande concentração de seguidores do Candomblé de Jeje. Nesta trajetória, começaram a se expandir para o Rio de Janeiro e o Amazonas, onde formavam as grandes concentrações. Mais tarde, chegavam a São Paulo. Pai e mãe são chamados como Doté e Doné, respectivamente e a saudação no Jeje Mahi é Okolofé, respondido por todos com: Okolofé Olorum/ Olorum Okolofé.
- Ketu: é tida como a maior e mais popular Nação do candomblé. O Candomblé Ketu ficou concentrado em Salvador. Depois da transferência do Candomblé da Barroquinha para o Engenho Velho passou a se chamar Ilê Axé Iyá Nassô, mais conhecido como Casa Branca do Engenho Velho sendo a primeira casa da nação Ketu no Brasil. O Ritual de uma casa de Ketu é diferente das casas de outras nações; a diferença está no idioma, no toque dos Ilus (atabaque no Ketu), nas cantigas e nas cores usadas pelos Orixás. Os rituais mais importantes são: Padê, Sacrifício, Oferenda, Sassayin, Iniciação, Axexê, Olubajé, Águas de Oxalá, Ipeté de Oxum, entre outros. A língua sagrada utilizada em rituais do Ketu é derivada da língua Yoruba ou Nagô. O povo de Ketu procura manter-se fiel aos ensinamentos das africanas que fundaram as primeiras casas, reproduzem os rituais, rezas, lendas, cantigas, comidas, festas, e esses ensinamentos são passados oralmente até hoje. Sua saudação é Motumbá, respondido em seguida com um Motumbá Axé.
- Angola: de origem Banto, adotou o panteão dos orixás yorubás. Sua linguagem é de origem quimbundo e quicongo. É uma nação que cultua os caboclos (espíritos de índios), pois são considerados pelos antigos africanos como os verdadeiros ancestrais brasileiros, portanto os que são dignos de culto no novo território a que foram confinados pela escravidão. Para os frequentadores dessa Nação, o criador do mundo é Nzambi. A saudação na Nação Angola é Mukuiu, respondido em seguida com Mukuiu Nzambi.
Assim como na vida, tal como empresas, família e etc, há uma hierarquia dentro do candomblé, em seus ilês. Uma ordem deve ser seguida, até mesmo por respeito aos Orixás, a quem os carrega e para facilitar os frequentadores. São eles:
Yalorixá/Babalorixá: mãe, pai de santo.
Yakekerê: mãe pequena, braço direito dos pais de santo. Abaixo deles, quem manda no terreiro é ela.
Babakekerê: pai pequeno. Segue a mesma linha da mãe pequena.
Ojubonã/ Agibonã: mãe criadeira. Quem cuida da iniciação do Yaô
Ekedi/ Yarobá/ Ajoiê/ Makota de Angúzo: braço direito dos pais de santo, é quem cuida dos Orixás quando estão em Terra. Supervisiona o terreiro, mantendo- o em ordem. Não recebe santo, popularmente, dizendo.
Ogã: são os donos dos atabaques, os únicos permitidos a tocar neles. São os que puxam as cantigas a ser tocadas em festas. Assim como as Ekedis, tem importância dentro do terreiro, ajudando a manter a ordem e supervisionando.
Egbomis: são os que já cumpriram os sete anos da iniciação. É feito um preceito, no qual é entregue a eles o Deká ou Cuia, como é dito na Angola. É o momento mais esperado dentro da religião por um filho de santo. É quando ele recebe seu direito sacerdotal, onde ele passa a ter direitos de exercer funções de Yalorixá/ Babalorixá.
Yabassé: mulher responsável pela comida dos orixás e dos filhos de santo.
Axogun: assim como a Ekedi, ele não entra em transe (não recebe santo). É o responsável pelos os Orôs (sacrifício dos animais, onde os Orixás recebem as graças oferecidas).
Iaô: filho de santo que recebe o Orixá. É chamado como rodante. É o filho de santo que se dispõe a se sacrificar pelo Orixá, doando o seu cabelo, em meio a um preceito. Após 21 dias recolhido no terreiro para o cumprimento de todos os preceitos necessários, entre eles o nascimento do Orixá que irá reger seu Ori, o Iaô sai da roça e é recebido com uma grande festa, onde seu Orixá irá ser apresentado, usando sua vestimenta de gala. O Iaô ainda tem que cumprir um período de resguardo de três meses, não podendo dormir no alto, comer ou beber coisas de cor escuras, não podendo tocar em objetos cortantes, se olhar no espelho e tendo que dormir no chão, tudo em nome do respeito e sacrifício pelo Orixá. Após esse período, ele é liberado a ter uma vida normal, lembrando que, quando completar um, três e cinco anos de santo, deverá dar obrigação de tempo de santo, tendo assim, outras festas em suas ocasiões, até completar sete anos e virar Egbomi.
Abian/Abiã, Abyan: novato.