Após longo interregno, o compositor tetracampeão Luiz Carlos Máximo nos conta um pouco do primeiro ensaio técnico da Portela, realizado ontem (quarta feira).

E é só o primeiro ensaio, Máximo!

“E é só o primeiro ensaio, Máximo!”

Ouvi diversas vezes essa frase ontem na quadra da Portela, vinda de muitos portelenses. E a frase foi repetida não na forma, mas com as mesmas palavras sem tirar nem por. “E é só o primeiro ensaio, Máximo”. Todos com a cara inchada de alegria. Assim como devia estar a minha. E eu querendo ouvir mais e mais a frase. Olhava para cada portelense como que implorando. “Vem, diz você também que é só o primeiro ensaio, Máximo”.

Que loucura foi esse tal primeiro ensaio oficial da comunidade da Portela ontem, quarta feira. Não tem fotografia ou vídeo que possam traduzir fielmente o que rolou na escola de Oswaldo Cruz e Madureira. Tem determinados acontecimentos que quem não vai ao local não vê. Não adianta dizer que viu na tv, no computador, no celular, porque, definitivamente, não viu.

Ver não é olhar.

E eu vi a Tia Dodô, que voltou pra casa. Eu vi a comunidade portelense de “porto aberto” cantando o Hino da Portela, de Chico Santana, “…Avante portelense para a vitória…”

E a seguir o samba de 2014 nas vozes do Wantuir, Rixxa, Rogerinho e Cremilson. A bem dizer, nas vozes deles também, né? Porque a comunidade mandou ver. Olha que eu vi Madureira subir o Pelô, abrir uma roda e a poeira levantar no batuque que ginga ioiô e iaiá, mas o tambor do terreiro estava mesmo iluminado pelo santo padroeiro e o mar que mareia, mareou forte naquele território sagrado.

Tinha muita gente arrepiada. Além de mim, é claro. E naquela emoção, lembrei-me do parceiro Toninho Nascimento me contando da chegada à quadra no dia da final, da Dona Neném, viúva de um dos nossos orixás do samba, Manacea, mãe da Aúrea, pastora da Velha Guarda da Portela. Ela lhe disse: “Toninho, vim aqui só pra torcer pelo seu samba”. E ao vencermos, no meio da euforia, Marquinhos de Oswaldo Cruz me disse no palco: “Luiz Carlos, Dona Neném chorou ao saber do resultado”.

Como não marear?! Contei no dia seguinte para o Toninho, que mareou.

Com certeza Paulo, Caetano e Rufino estavam em algum canto da quadra sorrindo. Natal, também. E orgulhoso de ver sua neta bailando com talento e delicadeza com o nosso pavilhão. Ele, que trouxe Wilma Nascimento para a Portela. E tantos muitos nossos (nossos com boca cheia) baluartes estavam ali presentes, com certeza.

Não importa a religião, a crença, a fé, eu sei é que importa muito o que o Mestre Candeia fez questão de um dia relembrar numa entrevista. “A Portela foi abençoada na sua fundação por uma Ialorixá africana.” Que não apaguem esse fato marcante da história da Portela. Isso não é pouco, meus caros. Quem ontem esteve por lá sentiu uma energia que é algo além, muito além, de carnaval.

“Sou carioca portelense e meu jeito é de quem traz no sorriso o samba que a gente tem”.

Saí de lá dizendo a mim mesmo. “É só o primeiro ensaio, Máximo. Segura a onda…” Verdade. A águia voltou a olhar o sol de frente. A Portela de Verdade voltou!

(Foto: Facebook Oficial da Portela)

https://www.youtube.com/watch?v=ko5v5gRKowY