Nesta segunda, a coluna do estudante Leonardo Dahi aborda a situação do Flamengo, que teve um ano bastante complicado dentro e fora das quatro linhas mas que pode conquistar o título da Copa do Brasil em meio ao polêmico aumento dos ingressos para a final da Copa do Brasil.

Novos tempos, velhos pensamentos

O torcedor do Flamengo pode terminar este ano de 2013 com motivos de sobra para festejar. No cenário mais otimista, o Rubro-negro pode levar um dos títulos mais importantes do país, uma vaga na Libertadores e, de quebra, ver um ou dois de seus rivais rebaixados para a Série B, enquanto o outro mais uma vez naufraga na reta final do Brasileirão na busca por uma vaga na mais importante competição continental.

Tal cenário, todavia, destoa de tudo aquilo que passava pela cabeça dos flamenguistas até, pelo menos, o meio do Campeonato Brasileiro. Após um fraco primeiro semestre, trocas de treinador e uma briga contra o rebaixamento que lembrava os pouco saudosos tempos de sofrimento até o último minuto de campeonato, davam a tônica do primeiro ano de gestão de Eduardo Bandeira de Mello à frente do maior clube do Brasil. Para piorar, o sorteio dos confrontos das oitavas de final da Copa do Brasil, na qual o Flamengo passava sem sustos, mas também sem brilho, colocou a equipe frente ao Cruzeiro, que já despontava como o melhor time do país além do rival Atlético, já com a cabeça no Mundial.

hernaneE foi justamente contra o Cruzeiro, ainda sob o comando de Mano Menezes, que o Flamengo iniciou essa virada no ano. Após descontar um 2 a 0 no jogo de ida, que praticamente eliminava a equipe carioca, o Mengão ia empatando em 0 a 0 no Rio e deixando a competição. Mas naquele conhecido espírito de garra flamenguista, Elias, já nos minutos finais, anotou o gol da classificação. A partir daí, as coisas melhoraram. O Fla, agora de Jayme de Almeida, deixou para trás Botafogo e Goiás, tendo pela frente o Atlético Paranaense na decisão e só será rebaixado se houver um desastre, aliado a uma excessiva dose de incompetência.

Um dos maiores aliados da equipe nesta guinada foi, é claro, a sua torcida. Enquanto esteve brigado com o consórcio que administra o Novo Maracanã e adotou a distante Brasília como casa, o Flamengo era só mais um time ruim que prometia brigar até o fim para não cair. Com o Maracanã sempre lotado quando necessário, se tornou um time que compensava a deficiência técnica com muita luta e uma boa dose de sorte. Porque o Flamengo é assim: de campanhas surpreendentes e heróis improváveis. Como eu sempre digo: ninguém sabe jogar com um time ruim como o Flamengo.

Mas, como nem tudo são flores, algo tem destoado do tal espírito flamenguista em 2013. Isso já foi mostrado em outras situações, em outros clubes, mas agora ficou evidente: a nova diretoria flamenguista parece não querer torcedores pobres vendo jogos do time. Porque só isso explica o fato do ingresso mais barato para o maior jogo do time no ano custar 250 reais. Uma família de pai, mãe e dois filhos, se tiver a sorte de um deles ainda estar na idade em que não se paga ingresso, e o outro for estudante, pagando meia, gastará 625 reais para ver a partida, descontando-se condução e alimentação no estádio. Quase um salário mínimo.

torcidafla2As coisas passaram completamente do limite. Que o estádio vai estar lotado, garantindo assim uma renda espetacular, eu não tenho a menor dúvida. Que a torcida irá apoiar, eu também não tenho dúvida. Dizer que rico não sabe torcer chega a ser preconceituoso e a questão é muito maior que essa. O que me incomoda mesmo nessa história é que ela tira do Flamengo aquilo que era uma marca de seus jogos: a presença do povo, em todas as suas camadas sociais, na arquibancada. O Flamengo não é do rico, não é do pobre; não é do negro, não é do branco; não é do jovem, não é do idoso. É de todo mundo.

O ponto não é ingresso custar 250 reais. Isso eu apoio. Se tem quem pague, que se cobre. O erro está em não “reservar” uma parte do estádio para o torcedor mais pobre. Não que isso vá interferir no rendimento da equipe, mas é um jeito de manter as raízes do clube. Quantos meninos de classe média poderão se tornar flamenguistas vendo o show de sua torcida no próximo dia 27? Por que não agregar novos torcedores favelados, pobres, de menor condição social? Por que entregar ao Fluminense, e a seus ingressos a R$ 2, a chance de conquistar esses torcedores, uma vez que sua fuga do rebaixamento pode ser tão heroica quanto um título?

torcidacorinthiansÉ bom que se faça justiça: essa filosofia não é exclusividade do Flamengo. O Corinthians, que tem um perfil de torcedor parecido com o do Rubro-negro carioca, foi um dos primeiros expoentes de ingressos pornograficamente caros – o que deve piorar quando a equipe sair do Pacaembu e for para sua moderníssima Arena. O discurso dos dirigentes desses clubes chega a ser comovente de tão bonito: os ingressos são mais caros, para “forçar” o torcedor a virar sócio da equipe, ganhando assim descontos nos ingressos. Assim, o preço fica justo e o torcedor só paga a mais o valor da mensalidade.

É realmente uma ideia sensacional. Porém, é um desrespeito ao consumidor. Imagina se a Casas Bahia resolve vender uma TV de LCD por 20 mil reais só para dizer que está dando 90% de desconto, fazendo a mesma sair por dois mil. Isso sem contar nesse torcedor pobre, que já teria dificuldades para gastar 20 ou 30 reais em um ingresso, que dirá para dar mais 50 ao mês no plano de sócio.

O azar desses clubes, entretanto, foi que outros clubes, capitaneados pela belíssima atitude do São Paulo, perceberam que talvez fosse uma grande ideia baratear ao máximo o preço do ingresso. No caso do Tricolor do Morumbi, a meia-entrada passou a sair por R$ 5, sendo dez a inteira. A renda praticamente não mudou, mas a média de público aumentou consideravelmente, sendo peça importante na arrancada do time. Isso sem contar que o consumo dentro do estádio também aumenta, o torcedor fica mais íntimo da equipe do coração, etc, etc.

Só que dirigente é esperto, sabe bem o que dizer em certas ocasiões. Aproveitando o fato de ter uma torcida que tradicionalmente vai mais ao estádio, qualquer que seja o preço, o ex-Presidente do Corinthians Andres Sanchez disse que o São Paulo “fez um mal ao futebol” ao baixar o preço dos ingressos, pois “desvalorizou o espetáculo”. Chega a ser absurda a cara-de-pau do ex-Presidente do tal “time do povo”, que tem sido cada vez menos povo, em dizer um negócio desse – ainda mais porque, como diria a música daquela novela, “se botar o futebol do Corinthians na vitrine, ele nem vai valer R$ 1,99”. “Valorização do espetáculo” é o pobre abraçado ao rico. Do nosso espetáculo, pelo menos, sempre foi assim. Pode parecer demagogia, e talvez seja, mas a mim parece valer a pena perder uns trocados na renda para agregar torcedores de todos os níveis sociais.

O que me parece, porém, é que os tempos mudaram, mas o pensamento de quem comanda o futebol continua o mesmo: torcedor tem que ser tratado com o mínimo de respeito possível. Quando cobra-se pouco, não se tem o menor conforto. Quando se tem, cobra-se um preço que paga seis meses de pay-per-view, onde se pode assistir o jogo como quiser e com cerveja gelada.

Enquanto isso, jogadores se unem para lutar contra todos, mas só por eles. Discutem calendário, fair play financeiro, pré-temporada e o escambau. Ainda não tocaram no ponto do preço dos ingressos – isso está, pasmem, com o Procon. Eu só quero ver no que vai dar se torcedor também resolver cruzar os braços em protesto…