Dando sequência à série “Escola do Meu Coração”, o colunista da “Bissexta” Walter Monteiro traz sua visão sobre a Academia do Samba, o Salgueiro.
É um ângulo um pouco diferente dos textos anteriores, escritos por apaixonados que respiram carnaval o ano inteiro; o colunista é um torcedor apaixonado apenas, sem envolvimento institucional. Outro olhar, sem dúvida – mas não menos tocante.
A Academia do Samba, Apenas Diferente
– Você acha que o Salgueiro vai ser campeão esse ano?
– Que isso, garoto, tá maluco? Desfile horroroso, o pior em que já estive. Esquece isso, menor chance
A vida inteira eu quis desfilar no Salgueiro.
Da janela do meu quarto eu avistava o morro que dá nome à escola. Todas as pessoas que faziam serviços lá em casa (pequenos reparos, faxinas, entregadores da feira e congêneres) moravam no morro. Quando comecei a ir à praia sozinho, dividia a cozinha do ônibus com os garotos da favela mais famosa da Tijuca, o trocador sempre de olho para ver se a gente ia dar calote escapando pela porta de trás, mas a gente vinha de Ipanema até a Saens Peña cantando um samba que tão longe do Carnaval só os mais fanáticos já conheciam.
A escola ensaiava nas ruas do bairro e a gente ia assistir. A partir de novembro, nos bailes do Tijuca Tênis Clube a bateria que depois seria conhecida como A Furiosa às vezes dava uma canja no final, os mais enturmados eram convidados para tocarem os instrumentos, honra que sempre me foi negada. Mestre Louro (irmão de Almir Guineto, uma espécie de Zeca Pagodinho menos famoso) comandava aqueles sacros tambores, era paciente e amigo do meu pai, sempre fazia questão de presentear nossa família inteira com camisas e souvenirs salgueirenses.
Não sei se a proibição era de ordem legal ou familiar, mas o fato é que eu tive de esperar completar 18 anos para me alistar nas hostes salgueirenses, fazendo minha estreia em 1986 (vídeo abaixo). Naqueles tempos só dava Mangueira e Portela, as escolas então mais populares, a Beija-Flor sempre vinha forte com seu caminhão de dinheiro da família David, o Salgueiro era uma pálida lembrança dos seus tempos de glória.
http://www.youtube.com/watch?v=dv3ai49y3iI
E para dar a reviravolta, a escola teve uma ideia nem tão brilhante, nem tão original, mas que costuma funcionar: reviver seus antigos carnavais, homenageando Fernando Pamplona, carnavalesco que fez história nos anos 60, mas que a minha geração só conheceu pelos seus ácidos e muito mal humorados comentários na TV Manchete, especialmente contra o Salgueiro, que eu nunca soube se ele amava ou tinha mágoa (“e aí Pamplona, o que achou do desfile do Salgueiro? Detestei, uma cangalhada danada, escola lotada, harmonia horrorosa, alegorias mal acabadas, um desastre”)
Pois lá fui eu fazer minha estreia na avenida na homenagem a Fernando Pamplona, só que o Salgueiro esqueceu de combinar com o homenageado…. Sim, ele não apenas não desfilou como recusou a homenagem, isso já com o samba gravado. Isso deixou a escola em uma saia justa, porque não tinha como mudar tudo em cima da hora, então a homenagem ficou sendo aos “carnavais” que ele tinha feito para a escola. Para piorar, o enredo tinha um quê de literalidade: cada enredo do passado foi reproduzido ao pé da letra, ocasionando várias comissões de frente, vários casais de Mestre-Sala/Porta-Bandeira, enfim, uma montagem surrealista, complexa e que deu muito errado.
Mas para mim nada disso importava, eu estava em êxtase com aqueles 30 minutinhos de fama no Sambódromo, seguidos de uma longa festa do dono da ala, um sujeito corpulento e cheio de joias que meu primo mais velho, sempre metido nas coisas do samba, conhecia sei lá de onde. O cara armou uma recepção gigantesca no que hoje é o Terreirão do Samba, mas logo comecei a me sentir deslocado, porque tirando eu e meu primo, todos os demais moravam no morro ou pelo menos tinham morado lá um dia. Tomei 3 cervejas e parti.
Foi aí que tudo mudou. Umas 5 horas, dia raiando, metrô vazio, me sentei naquelas cadeiras do fim do vagão, onde os passageiros ficam de frente uns para os outros. E bem na minha frente senta uma negra alta, esguia, com a mesma fantasia que eu, também fugindo da festa dos componentes fantasiados de guerreiros africanos. Ela me reconhece pela fantasia, fala um “oi” protocolar e com a naturalidade de quem estivesse no sofá da sala, tira a imensa cangalha que tanto incomodava Fernando Pamplona e senta com os seios nus, só de saia, como se estivesse mesmo no meio de uma tribo.
O que faz um garoto tímido de 18 anos ao ver uma mulher de seus 30 anos, seminua, em pleno metrô deserto? Eu não tirava os olhos daqueles seios, por sinal muito diferentes das tetas da contemporaneidade. Eram seios de médio para pequenos, a auréola grande e muito escura, o bico meio espalhado, não eram espetaculares, mas não eram de se jogar fora, menos ainda diante daquele completo inusitado da cena. Fiquei alguns minutos paralisado com aquele erotismo inesperado, até que criei coragem para dizer a única frase que me pareceu possível para um approach de um cara meio sem jeito para lidar com estranhas:
– Você acha que o Salgueiro vai ser campeão esse ano?
– Que isso, garoto, tá maluco? Desfile horroroso, o pior em que já estive. Esquece isso, menor chance
A vida é assim mesmo, a gente se vale de subterfúgios para dizer o que pensa. Eu queria mesmo era dizer o quanto eu estava profundamente excitado, mas na falta de algo melhor, me saí com esse lugar comum. Ela, mais vivida, sutilmente me fez entender que, seja lá o que fosse que se passasse na minha cabeça, não havia a menor chance, porque o fato de uma mulher andar de seios nus não significa que ela vai dar para o primeiro tarado que aparecer; é só uma licenciosidade dos mágicos dias de Carnaval, onde os costumes e os pudores se afrouxam.
Claro que eu tive dezenas de outras experiências dignas de registro com o Salgueiro, desfilei outras tantas vezes, fui campeão com a escola, tem sambas memoráveis que a gente sempre canta por aí, tem a mítica vinculação com os moradores da Tijuca, o que não falta é assunto e samba.Mas quando o Migão resolveu bolar essa série onde cada colunista escreveria sobre sua escola de coração, eu entendi que era uma espécie de competição, que seria importante valorizar o conjunto da obra para que o leitor menos afeto ao dia-a-dia desse mundo tão impenetrável do samba pudesse perceber o que cada uma tem de melhor.
Pois na honrosa qualidade de representante da Acadêmicos do Salgueiro, que até os mais desavisados sabem que não é melhor e nem pior do que qualquer outra, é apenas diferente, vim aqui para mostrar justamente o quão diferente nós somos.
Dezenas de especialistas vão passar por aqui contando suas histórias, mas sou capaz de apostar que ninguém barra o Salgueiro: 7 comissões de frente no mesmo desfile, o homenageado que recusa a homenagem, uma festa monumental na saída com cerveja liberada e a passista que fica nua no metrô com a tranquilidade de quem escova os dentes. E tudo isso foi só o primeiro desfile.
Como não amar essa escola?