A coluna do jornalista especializado Fred Sabino trata do título mundial de Vettel e a punição da FIA à sua comemoração.
Vettel fez zerinho, mas quem leva zero é a FIA
A conquista do tetracampeonato da Fórmula 1 por parte de Sebastian Vettel no Grande Prêmio da Índia não foi surpresa alguma. Afinal, o carro da Red Bull é bem melhor e o alemão está em excepcional forma. Enfim, um título incontestável, de um piloto que está em estado de graça, amparado por um grande time.
Mesmo com um título teoricamente fácil, Vettel ficou bastante entusiasmado e resolveu proporcionar um espetáculo ao público que estava na reta dos boxes do circuito de Buddh. Ele deu os famosos zerinhos (na Inglaterra conhecidos como donuts) na linha de chegada, desligou o carro, subiu nele, reverenciou a máquina e, no melhor estilo Helio Castroneves, subiu a grade para saudar a torcida.
A imagem foi muito bacana, sem dúvida bem mais interessante do que as batidas fotos de bandeirada (até porque foto de bandeirada com Vettel na frente não é novidade) e estampou as homepages de todos os sites especializados em automobilismo e as páginas dos jornais na parte de Esportes em inúmeras publicações em todo o mundo.
Com certeza a Fórmula 1 ficou satisfeita com tamanha exposição, certo? Errado…
O artigo 43 do regulamento da categoria é até claro: “Depois de receber o sinal de fim de corrida todos os carros devem continuar no circuito diretamente ao parque fechado após a corrida, sem qualquer atraso desnecessário, sem receber qualquer objeto e sem qualquer assistência (exceto a dos fiscais se necessário).
Vettel foi chamado pelos comissários para esclarecimentos e recebeu a chamada admoestação, e a equipe Red Bull foi multada em “módicos” 25 mil euros (aproximadamente R$ 75 mil).
Ué, mas antigamente o Ayrton Senna não pegava uma bandeira? Em 2011 o Felipe Massa não fez uns zerinhos após a corrida em Interlagos? Em Valência o Fernando Alonso não parou o carro para saudar a torcida espanhola? Sim, isso aconteceu. Mas por que tanto rigor agora?
Até existem explicações. A Federação Internacional de Automobilismo quer evitar que nessas comemorações se pegue algum peso extra para colocar no conjunto carro/piloto para a pesagem e, com isso, a aferição seja deturpada propositalmente. A FIA, também zelosa em relação às questões de segurança, quer evitar incidentes, pois já imaginaram se muitos pilotos resolvem fazer zerinhos na volta aos boxes?
Tem ainda, claro, a questão comercial. Sabemos bem que as televisões do mundo todo têm intervalos comerciais a serem pagos e o tempo de satélite é sempre uma questão complicada. E a FIA não quer que a cerimônia do pódio, sempre com grandes propagandas, seja colocada em segundo plano, ou atrase.
Mas eu, assim como todo fã de Fórmula 1, quer que tudo isso se dane. O que interessa é o piloto estabelecer um contato mais humano com o público e, ao ser tão reacionária dessa forma, a FIA só contribui para que o público veja a Fórmula 1 com menos simpatia.
A categoria continua sendo o máximo de tecnologia, a geração atual com Vettel, Fernando Alonso, Lewis Hamilton e Kimi Raikkonen é brilhante, mas a cada dia que passa fazem de tudo para afastar do esporte o fã de verdade.
Enquanto isso, na Nascar, na Fórmula Indy e na MotoGP esse tipo de comemoração diferente é valorizada e até mesmo estimulada.
No fim das contas, o que acontece na F-1 é mais um retrato deste mundo aborrecido que vivemos hoje.
Fotos: Reuters e Nascar