Nesta sexta feira, dentro do pré carnaval do Ouro de Tolo, temos a estreia de uma nova série. O antropólogo e doutorando Ricardo Delezcluze inicia, como convidado, uma série  de artigos sobre o carnaval e o desfile das escolas de samba de Manaus, que durante muitos anos foi considerado o segundo mais importante do Brasil.

É fácil se apaixonar pelo carnaval de Manaus

Tenho essa mania de começar meus textos de forma auto referenciada. Acontece que tentei dessa vez fugir disso e buscar outro caminho, mas para ser simpático e tentar convencê-los a gostar do que gosto, penso ser uma boa estratégia. Hoje quero apresentar a vocês não apenas algo que gosto, mas que me apaixonei. Quero mostrá-los os encantos de Manaus e seu carnaval.

Tudo começou em 2010, quando de passagem para uma pesquisa no Festival de Parintins (aquele mesmo dos Bois Caprichoso e Garantido, o azul e o vermelho) desembarquei em Manaus. A cidade era uma desconhecida até duas semanas antes do meu embarque no Rio de Janeiro. Comecei a estudá-la naquela época meio que por tabela, na verdade meu interesse era Parintins. A festa do Boi sempre foi fascinante.

Há um elo que une o carnaval do Rio com o Festival de Parintins, que acontece no final de junho: os artistas que constroem impressionantes alegorias com movimentos e dão duplo expediente nos dois eventos. Depois, conhecendo as trajetórias das duas festas descobrimos que há muito em comum, mas isso é outro papo. Pois bem, de passagem por Manaus após um dia movimentado onde pude acompanhar o sorteio dos jurados para o Festival de Parintins, a noite um evento de um Boi de Parintins na cidade de Manaus me aguardava. O evento aconteceria no Sambódromo de Manaus e foi ali que se deu o encanto.

O Sambódromo da cidade de Manaus é conhecido também como Centro de Convenções de Manaus. O espaço é multiuso. Ali acontecem de paradas militares a concursos de arrancada de carros passando por shows diversos e procissões religiosas.

Acontece que o Centro de Convenções de Manaus não atende por Sambódromo à toa. Foi construído em 1991 com a finalidade de abrigar os desfiles das escolas de samba da cidade. A ideia das arenas festivas foi lançada em 1984 com Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro e nossa Meca do samba, a passarela do samba, a Marquês de Sapucaí.

O conceito chega a Manaus, que naquele período já tinha um carnaval muito forte e uma boa interlocução com o Rio de Janeiro. Já tinham passado por aqui Oswaldo Jardim e Shangai. Os sambas eram gravados por cantores conhecidos no Rio como Aroldo Melodia, Carlinhos de Pilares, Jamelão, Nêgo, Sobrinho… As baterias mimetizavam as das escolas cariocas e acrescentavam o seu tempero particular ao gosto do talento dos sambistas locais. Haviam escolas fundadas por cariocas também, graças ao intercâmbio militar.

A história das escolas de samba na capital do Amazonas remonta a um período bem anterior, porém. Vem dos idos de 1947 com a fundação da Escola Mixta da Praça 14 (Praça 14 de Janeiro é um bairro da cidade) por imigrantes maranhenses. Um pouco mais da história do carnaval daqui você pode saborear na obra referência do assunto: “É Tempo de Sambar” de Daniel Sales (quem quiser um exemplar pode entrar em contato comigo pelo e-mail delezcluze@gmail.com).

Voltando ao meu encontro com o sambódromo de Manaus, foi algo estonteante. Só não foi mais estonteante do que a primeira vez que vi Taynah, minha companheira de vida, em Parintins no dia seguinte. O evento do Boi aconteceu em um espaço conhecido como “ferradura”, duas arquibancadas monumentais no final da pista de desfile das escolas de samba (foto ao alto do post).

A pessoa que me apresentou o espaço teve que descrever tudo que acontecia nos desfiles diante do meu bombardeio de perguntas. Fiquei vidrado com a possibilidade de assistir a um desfile vindo em sua direção, sendo que no ponto mais alto da arquibancada talvez fosse possível ver a avenida inteira tomada por uma escola, da concentração à dispersão.

Com aquilo na cabeça voltei ainda no hotel em Manaus e pesquisei mais. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que trava-se simplesmente do “maior sambódromo do Brasil”.

Exatamente! Com capacidade para 100 mil pessoas, o sambódromo manauara já atingiu até mesmo um público circulante de 200 mil pessoas. Essa construção monumental, atrás do Estádio Vivaldo de Lima (atual Arena da Amazônia) e do Ginásio Amadeu Teixeira, localizada na Zona Centro-sul da cidade abriga ainda o Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro.

São 8 setores de arquibancada, sendo os dois últimos constituintes da já apresentada ferradura. Em Manaus não existem frisas nos dias de desfiles, apenas próximo do fim da pista há um espaço cercado com mesas e cadeiras na beira da pista. É um espaço pequeno se comparado ao tamanho do espaço que margeia a pista livre para a circulação das pessoas. Talvez isso explique tamanha capacidade de público.

Pesquisando um pouco mais sobre a significativa construção elaborei um projeto de pesquisa antropológica sobre as escolas de samba de Manaus e a cidade. Ali descobri uma faceta festeira da cidade que se espalha para além do carnaval. Em Manaus as pessoas saem do carnaval para o Boi-Bumbá de Parintins e de Manaus, para as cirandas locais e da vizinha Manacapuru.

Em Manaus acontece um festival folclórico em julho ou agosto com apresentações de quadrilhas juninas das mais diversas; danças internacionais como Kashemira, cigana e do Café; até mesmo grupos de dança afro competem entre si em apresentações de candomblé. Entrando em contato com estas festas e a dinâmica da cidade vemos a alta competitividade dos grupos e bairros, bem como a rica criatividade. Os sambistas manauaras são também brincantes de outras manifestações e isso, claro, se reflete nas escolas de samba.

Para se ter uma noção, cada escola de samba considerada grande tem uma arquibancada cativa para sua torcida. Como em Manaus a entrada para todos os desfiles é gratuita, não há um controle definido de quem fica em qual lugar. Isso foi algo que se acomodou com o tempo, naturalmente.

Assim, hoje um setor de arquibancadas é ocupado pela torcida da Reino Unido, outro pela da Aparecida, outro pela Vitória Régia, outro pela torcida da A Grande Família, outro pela Unidos da Alvorada, Sem Compromisso e assim sucessivamente. Cada torcida prepara uma festa mais bonita para recepcionar e incentivar a sua escola, mesmo que isso não seja um quesito julgado como acontece na festa dos bois de Parintins.

Muitos podem lembrar que as escolas cariocas tem suas torcidas, como a Guerreiros da Águia na Portela, mas vai além disso e é um processo anterior as torcidas cariocas. Você pode imaginar o que estou falando através da foto a seguir, tirada durante um desfile da Reino Unido da Liberdade com sua torcida Gigantes do Morro em ação durante o desfile.P1010131Bom, há muito mais o que falar sobre o universo apaixonante das escolas de samba de Manaus. Atualmente são 26 escolas divididas em quatro grupos e três dias de desfiles: quinta, sexta e sábado de carnaval. Espero voltar a escrever neste blog, se Deus e o Pedro Migão permitirem, apresentando as particularidades, as escolas, seus bairros, outras festas e assim transportar um pouco desse fascínio que sinto e começa na pista de desfiles desembocando no restante da linda cidade banhada pelo Rio Negro.

Até a próxima!

3 Replies to “Carnaval Manauara: “É fácil se apaixonar pelo carnaval de Manaus””

  1. Parabenizo ao jovem Delez. pela versatilidade de seu texto, sua acurada observação, e principalmente, pela sua dedicação em mostrar ao mundo, o carnaval das escolas de samba de Manaus e festas afins.

  2. Parabéns, Ricardo Delezcluze. Texto limpo e sem deixar escapar nenhuma informação. Realmente é muito fácil se apaixonar pelo carnaval manauara. Espero que, com sua ajuda, o Carnaval de Manaus volte a ser comentado pelo Brasil, como antigamente.

  3. Sim é verdade Manaus tem o maior sambódromo do país não na extensão da pista mais em volume o quanto pode acomodar pessoas utrapassa facil 100 mil pessoas, não podemos de deixar de comentar que o nosso carnaval já foi carnavaltransmitido para todo o Brasil através da extinta Manchete e pela Band, onde o saudoso Fernando Pamplona ficou surpreso com o nosso belo carnaval uma pena que atualmente não tem o mesmo destaque a tempo atrás!!! mais que é bonito isso é!!!

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