Hoje a escola enfocada na série é a Caprichosos de Pilares (onde desfilei em 2011), pelas lentes de seu diretor de tamborim Eduardo Silva.

“Deixa serenar, ôôô.. que eu te aqueço com o calor do meu amor”

O início

Eu comecei bem tarde no samba. Minhas lembranças começam em 91 – 7 anos de idade – com o globo d´água da Mocidade. Aí passa um ano, quase dois, e me vem à mente um dos primeiros CDs que meu pai comprou, o do carnaval 93. Gostava muito do samba do Estácio, da Mocidade… E tinha bronca do samba da Caprichosos, que falava do “Mengo no Maracanã”. Então minha memória aponta de novo para Padre Miguel, 96, com o moleque jogando vídeo game, Luiza Ambiel, e claro, o sambaço, inconfundível.

E foi só a partir de 98 que comecei a acompanhar com mais assiduidade. Comprava jornais uns 15 dias antes dos desfiles pra saber das novidades, acompanhava os encartes que vinham neles, e ficava acordado o quanto podia pra assistir. Ia à rua de noite mesmo, numa dessas com festa e barraquinhas, no subúrbio, comprava uns belisques e pronto, estava feliz. Onde morava (e moro até hoje)  vários vizinhos também gostavam, então era fácil engatar horas falando sobre as Escolas. E eu, claro, torcedor da Mocidade Independente. E minha relação com ela era apenas isso: paixão platônica.

Torcia muito. E secava muito também: as concorrentes. Era aquela coisa pura, de torcedor mesmo. Quase futebol. Quando comecei a ter acesso à internet votava nas enquetes, salvava as fotos em disquetes… E isso durou até o carnaval de 2005. Quando você começa a acompanhar mais de perto, a inocência tende a ficar mais de lado. E eu começaria a acompanhar mais de perto ainda em 2006.IMG-20130519-WA0006Caprichosos

Eu tinha uns amigos em Pilares, e numa dessas andanças, em um domingo, a Caprichosos estava ensaiando na Av. João Ribeiro. A Escola se preparava para o desfile de 2003. Até então acostumado a ver apenas bateria de bloco ou de torcida em estádio, ver aquela orquestra foi maravilhoso.  Foi ali que tudo começou.

Só fui conhecer a quadra no carnaval seguinte, quando a Escola falaria sobre a Xuxa. Era um frenesi danado. Muita imprensa, quadra cheia… Mas o que mais me chamou a atenção foi num dos ensaios o saudoso Jackson Martins descer do palco e ficar brincando com as pessoas que estavam ali assistindo ao ensaio. Era essa alegria que eu não conhecia vendo na Tv!

A estréia

Em 2005 a Acadêmicos da Abolição começou a dar aulas de percussão. Já tinha decidido pelo tamborim, mas esse instrumento não seria ensinado. Aprendi a tocar caixa e o tamborim foi sozinho mesmo e, como todo mundo lá desfilava também na Caprichosos, na cara e coragem, fui ensaiar com a bateria de Mestre Louro, já em dezembro. E verdade seja dita: eu era muito ruim. Mal sabia segurar o tamborim, mas estava sempre nos ensaios. Fiquei na “reserva” e aos 48 do segundo tempo, Mestre Louro resolveu me dar uma fantasia e assim fiz minha estréia. Rebaixando a Escola.

E aí que vem o choque. Estava acostumado a ver a quadra cheia. Primeiro com Xuxa (2004), depois com o pessoal do Espírito Santo (2006), onde até índio foi à quadra. E a Escola cai, e todos somem. Ok que tem o problema da administração da Escola, mas teve ensaio de não ter nem cantor. Público, muito menos. E eu ali. E tive sorte de ter um diretor de bateria que pegou uma galera que estava começando (e eu tava nesse bolo), e ensinava, desde o 0 os fundamentos do instrumento.426050_10151432929652010_530333122_n

Chovendo ou não, estávamos lá, fazendo amizades e aprendendo, acompanhando o cotidiano da Escola. E foi nessa adversidade que aprendi a amar a Caprichosos. Afinal, aquilo ali é carnaval. O desfile é só um detalhe. Carnaval é você ensaiar, encontrar amigos, se divertir, ensaiar na Sapucaí, errar, sorrir, enfim… Dizem que o melhor da festa é esperar por ela. Tá aí um exemplo bem prático do ditado.

Em 2008, a emoção de ver a Sapucaí gritar “é campeã!” com a passagem da Escola no Setor 1. O choro compulsivo no primeiro box em 2009 (misto de emoção e tristeza pelo nível estético da Escola). A emoção inenarrável de ver a Sapucaí inteira cantar (e brincar com) o samba de 2010. Até chegar novamente a dor de ver a Escola bem feia, em 2011, além de uma tendinite atacar bem na hora da bateria subir, e fazer um desfile praticamente inteiro chorando, de dor e tristeza. E foi um ano diferente, onde participei também como integrante do departamento cultural. O que foi bem legal, por enxergar a Escola sob outro ângulo. Mas aí veio o banho de água fria. Grupo B.

Presidente novo, um dos mestres de bateria saiu, assim como o diretor de tamborim (e meu professor). Caramba, convite pra ser diretor de bateria. Tocar o barco sozinho. 30 ritmistas sob minha responsabilidade.  Nunca esteve entre minhas prioridades, mas eu vendo ali a possibilidade de todo o trabalho que começou em 2006 ser jogado no lixo com um diretor de fora, tive que aceitar o convite e aí é mais um prisma a ser conhecido.16363_10151411077593996_933932429_nRenascimento

A Caprichosos, mesmo no Grupo B, tornou-se outra Escola com a nova administração. A comunidade, ainda desconfiada, retornava aos poucos. E é uma realidade que poucos conhecem. Eu sempre fui tímido, na minha, branquelo, e com um apito na boca. As pessoas olham diferente. Você precisa mostrar, a cada ensaio, que é capaz. E você precisa estar lá, toda semana, 1, 2, 3 vezes: quantas forem necessárias. Corre atrás das pessoas. Lida com gente bem humilde e com gente muito bem sucedida. Os meses passam, a ansiedade aumenta, e no fim… Tudo dá certo!

O prazer que se tem de criar coisas que daqui a décadas alguém vai escutar e você vai poder falar: “eu que fiz!”, é bom de mais. A bateria não só foi nota 40, como também ganhou vários prêmios, inclusive o tão sonhado Sambanet. Era a redenção. Aquela apuração em 2012 vai ficar pra sempre guardada. Sapucaí quase vazia, muita chuva…

O torcedor da Caprichosos não é, digamos, internacionalmente reconhecido por comemorar muitos títulos (risos)… E fazer parte ativamente de um deles é, sem dúvidas, inenarrável.

Em 2013 tive um problema de saúde que me impediu de tocar por quase dois meses, justo entre a escolha de samba e o ensaio técnico. E ensinar desenho rítmico de tamborim sem poder tocar é duro, viu?

Galera concentra├º├úo Caprichosos 1Mais uma provação; mas no desfile, modéstia à parte, mandamos muito bem. E provavelmente faço meu último carnaval como diretor de bateria agora em 2014. O lado pessoal e profissional precisa de mais atenção, e existem pessoas para as quais eu posso passar o bastão tranquilo. Aí não sei mais como vai ser.

Mas a paixão vai estar sempre lá. Porque sei que serei bem recebido pelo pavilhão e por aquela quadra não importa como eu esteja: duro ou com dinheiro, feliz ou triste… Afinal, amor incondicional é isso, certo?

“Pilares eu sou, azul e branco
Um elo de amor e união…”

(Acima, o samba da Caprichosos para 2014)

4 Replies to “Escola do Meu Coração: “Deixa serenar, ôôô.. que eu te aqueço com o calor do meu amor””

  1. Belo texto, parabéns!

    Mesmo que algumas escolas venham, gosto de aplaudir todas e valorizar seus componentes, porque sei que pelo menos uma pessoa como você, que se dedica para caramba e vivencia todos os momentos até o “dia D”, existe em cada uma delas. E “amores incondicionais” devem sempre ser exaltados.

    Boa sorte à escola!

    1. Opa, muito obrigado pelos comentários. O carnaval é mt mais que um desfile, embora tudo acabe convergindo pra ele. Abraço!

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