Hoje a segunda parte da série do estudante Leonardo Dahi sobre os sambas enredo de São Paulo.
Os sambas-enredo do Grupo Especial de São Paulo – Sábado
Prosseguindo com as análises dos sambas do Grupo Especial, agora com as escolas do sábado de Carnaval.
Pérola Negra
Enredo: “Caminhos segui, lugar encontrei – Pérola Negra, a suprema felicidade”
Compositores: Japonês, Rogerinho, Luciano, Guilherme Cruz, Fernando e André Ricardo
Intérpretes: Celsinho Mody e Mydras Schmidt
Voltando ao Grupo Especial após um absurdo rebaixamento em 2012, a Pérola Negra, comemorando 40 anos, vem falar da busca pela felicidade corroborando com a marca que deixou em sua última passagem na elite: grandes sambas.
Esse samba é diferente e, por isso, pode causar estranheza à primeira audição. Porém, ouvindo com mais atenção, fica clara a riqueza poética e melódica deste que é o melhor samba do Grupo Especial.
A primeira parte é absurdamente bonita falando da busca pela felicidade em tempos antigos. O refrão do meio, parte menos empolgante do hino da escola da Vila Madalena, também passa bem. Mas o ponto alto do samba é a parte final, especialmente o trecho que alude à própria escola, que é onde o enredo vai encontrar a felicidade: “a vida não teria sentido / sem você eu sei que não vivo / eterna paixão é o meu pavilhão”.
E então vem o ápice, o trecho que tem sido berrado pelos componentes da escola com uma garra ímpar (foi possível perceber na festa de lançamento do CD): “40 anos de samba, celeiro de bambas / vem cantar / a Madalena vai te emocionar”.
É ele que nos leva a um dos mais fortes refrãos de 2014: “chegou a Vila da felicidade / exemplo maior de comunidade / razão do meu viver, sou louco por você / Pérola Negra até morrer”.
Aliás, esse é um samba que é a cara da Pérola Negra: bonito, bem trabalhado melodicamente e com trechos que mexem com o componente. Tal como em 2013, com o sambaço da Nenê, devemos ter uma grande abertura no sábado de Carnaval.
Quanto aos intérpretes, após a aposentadoria do grande Douglinhas, a escola trouxe o excelente Celsinho. Carismático como sempre, ele tem mais uma grande interpretação embora parecesse ligeiramente rouco. Prata da casa, Mydras, ainda um pouco “cru” para a função de intérprete, leva o samba com correção.
Nota: 10,0.
Gaviões da Fiel
Enredo: “R9 – O voo real do Fenômeno”
Compositores: José Rifai, Ernesto Teixeira, Grandão, Preto, Cainã, Sukata, Netinho da Carioca e Max
Intérprete: Ernesto Teixeira
Apenas uma palavra: ridículo.
É um absurdo uma escola com a discografia que a Gaviões tem – a melhor do Brasil nas décadas de 90 e 2000 – ir com um samba desses para a Avenida. Ele não é só ruim: é tosco.
Com todo o respeito a esses grandes nomes da Gaviões, José Rifai e Ernesto Teixeira, o samba que eles compuseram com seus parceiros está muito, mas muito abaixo do que se espera de um samba. A começar pelo refrão principal, que não quer dizer nada com nada e tem um “gooooooool” mais narrado que cantado.
À parte esse refrão, a letra é razoavelmente boa, mas a melodia é um completo desastre do início ao fim. Tem subidas de tom forçadas, é truncada em umas partes, acelerada demais em outras e torna o samba difícil de cantar e de ser entendido. Falei da letra, ela ainda tem um erro no final que é “pedir licença” para homenagear Ronaldo Fenômeno ao dizer: “meu samba é uma singela homenagem”.
Não sei se estou sendo rigoroso demais por ser a minha escola, mas estou muito, muito decepcionado. É o pior samba do grupo com certa folga. Ernesto Teixeira não foi mal, mas também não brilhou ao cantar o samba. De bom mesmo só o alusivo: “ninguém melhor do que nós / pra soltar a nossa voz / sou Gavião e o meu grito é feroz…”.
Nota: 8,6.
Mocidade
Enredo: “Andar Com Fé Eu Vou… Que A Fé Não Costuma Falhar”
Compositores: Ana Martins, China da Morada, Douglas Sabião, Marcio Bueno, Rodriguinho e Victor Alves
Intérprete: Igor Sorriso
Esse é um samba do qual eu não tenho uma opinião consolidada. Falando sobre a fé, a bicampeã Mocidade Alegre tem um samba bem abaixo dos últimos dois apresentados pela Morada do Samba.
Primeiramente por conta do refrão principal, que é bem fraco e arrastado. O resto, não chega a ser ruim, mas é ligeiramente estranho. Ele dificulta o canto do componente, pois é um pouco “gritado”. A letra não é muito inspirada, mas resume bem o enredo. Gosto muito do refrão do meio e do trecho final da segunda parte.
É complicado explicar: não é um samba ruim, é até bom, mas é uma faixa que posso tranquilamente deixar de ouvir.
Nota: 9,5.
Nenê
Enredo: “Paixões proibidas e outros amores”
Compositores: Moisés Santiago, Gabriel Cacique, Luciano Rosa, Marcelo Careca e Gabriel Feijão
Intérprete: Agnaldo Amaral
Outro grande desastre, outra grande decepção. Após o apoteótico samba de 2013, a Nenê de Vila Matilde tem um sério candidato a pior samba de sua história nesse desfile sobre as paixões proibidas ao longo da história.
Apesar da faixa ter apenas cinco minutos e trinta e nove segundos, é um samba que não acaba nunca. Arrastado, tem uma letra que sente uma necessidade absurda de ficar citando o nome da escola o tempo todo e carrega uma melodia tão ruim quanto a da Gaviões. Isso sem falar em versos que beiram a tosquice como “Pierrot e Colombina num sonho real”.
É difícil entender, com todo o respeito a essa parceria cheia de nomes talentosos, especialmente o de Moisés Santiago, como a escola do Presidente Mantega não escolheu a belíssima obra de J. Velloso e Cláudio Russo.
Antes que eu me esqueça: gosto do Agnaldo Amaral, mas que interpretação horrível. Gritando o tempo todo, muito ruim. Uma pena.
Nota: 8,9.
Águia de Ouro
Enredo: “A velha Bahia apresenta o centenário do poeta cancioneiro Dorival Cayimmi”
Compositores: Vitor Gabriel, Rodrigo Minuetto, Rodolfo Minuetto, Cruz, Bruno Tomageski, Pelézinho, J. Corrêa e W. Silva
Intérprete: Serginho do Porto
Esse seria, com tranquilidade, o melhor samba de 2014, mesmo sendo mais um dos que não tiveram sua sinopse divulgada. Homenageando o centenário de Dorival Cayimmi, ele tem uma melodia gostosa, que nos remete à sambas que tem a Bahia como cenário principal.
A letra é muito inspirada e tem momentos de perfeita sincronia com a melodia e bateria do Mestre Juca, como nos versos: “tem batucajé no abaeté / mistérios do ar”. O refrão do meio também é fortíssimo: “na lavagem do Bonfim, bate o tambor / a saia da baiana tem axé / tem mironga no congá / ora yeyeô, mãe menininha do Gantois”.
Esse samba me conquista mesmo é na segunda parte, que já começa muito bonito: “e sobre as ondas do mar / o velho Ita partiu / sua viola a tocar / a dor que o negro sentiu (ah, sentiu) / poeta, cancioneiro / apaixonado pelo Rio de Janeiro / nos seus balangadãns mostrou / o que é que a baiana tem”.
Ele ainda faz uma referência muito bem sacada à homenagem feita pela Estação Primeira de Mangueira à este poeta em seus últimos versos: “desceu o morro da Mangueira / de verde e rosa só no surdo de primeira”. Enfim, um sambão que ganhou uma grande interpretação do Serginho do Porto. Só que…
Só que aí vem o refrão que leva o que era o melhor samba do ano a perder pontos comigo. Eu acho esse refrão absolutamente mal construído, a começar pelo “Cayimmi do meu coração”, que acho muito estranho. E aí vem o pior verso do samba: “supercampeã do povo”. Com todo o respeito, a Águia de Ouro nunca foi supercampeã de nada.
Nota: 9,8.
Império
Enredo: “Sustentabilidade, construindo um mundo novo”
Compositores: Leo Reis, Turko, Mody, Fabiano Henrique, Biel, Paulinho B.P. e Marquinhos
Intérprete: Carlos Júnior
A Império de Casa Verde nunca foi uma escola que teve no quesito samba-enredo o seu ponto mais forte. Aí anuncia para 2014 um enredo sobre sustentabilidade. Foi a deixa para o mundo do samba esperar mais um samba daqueles bem chatos, sonolentos, modorrentos.
Pois, gostemos da obra ou não, fomos surpreendidos. O samba pode não ser um “Sublime Pergaminho”, mas trata um tema difícil de se carnavalizar de maneira bem alegre. E não é um alegre bobo. É um samba alegre melodicamente, mas que, na letra, transmite bem as mensagens (essas, sim, chatinhas, mas aí é culpa do enredo) que o enredo espera passar.
Não é, insisto, um samba perfeito. Ele tem algumas subidas em tom desagradáveis e um refrão do meio ligeiramente arrastado e gritado, mas passa bem, muito bem. Deve ajudar a Império de Casa Verde a quebrar um pouco a imagem que construiu nesses anos todos. Destaque também para o jovem Carlos Júnior, que tem cantado melhor a cada ano.
Nota: 9,7.
Tatuapé
Enredo: “Poder, fé e devoção. São Jorge Guerreiro”
Compositores: Márcio André, Márcio André Filho e Vaguinho
Intérpretes: Wander Pires e Vaguinho (Part. Especial: Leci Brandão)
Sabe quando você pega birra de um samba porque gostava de outro concorrente? Então, eu gostava mais do samba do Lequinho da Mangueira na disputa da Tatuapé, mas ganhou esse daí.
E veja você: ganhou um samba defendido por um cara que foi anunciado como novo intérprete da escola no dia da final e composto pelo outro intérprete da agremiação ao lado de uma dupla fortemente ligada à União da Ilha do Governador, que foi lá se apresentar na final. Mas deve ser só coincidência.
Brincadeiras (ou não) à parte, meses depois, devo reconhecer que é um sambaço. Falando sobre São Jorge, ele deve segurar muita gente no Anhembi. Ele tem um refrão principal fortíssimo: “eu amanheço nos braços da fé / vim do clarão da lua, sou Tatuapé / canto forte em oração, meus inimigos não me alcançarão”.
A primeira parte é bem trabalhada e, no meio da mesma, há uma mudança na melodia que ficou muito bem construída. Outra mudança ocorre no refrão do meio, que destoa do resto do samba em termos melódicos, mas não compromete muito. A segunda parte é mais chorada e casou muito bem com os intérpretes. É um belo samba.
O excelente Vaguinho ganhou a companhia do sempre brilhante Wander Pires que, quando economiza nas firulas, fica ainda melhor. O samba ainda conta com a luxuosa participação de Leci Brandão que, desde que foi homenageada pela escola, ainda no Grupo de Acesso, em 2012, criou forte ligação com a Acadêmicos do Tatuapé.
Nota: 9,9.
Considerações finais: safra um pouco complicada, de nível bastante inferior às de 2012 e 2013 que, se tinha mais sambas de qualidade duvidosa, tinha um número bem maior de obras marcantes. São cinco boas obras, mas no máximo duas que possam ficar por algum tempo na cabeça de quem gosta de Carnaval. Eis os meus sambas preferidos, do melhor para o pior:
- Pérola
- Tucuruvi
- Leandro
- Tatuapé
- Águia
- Vai-Vai
- Império
- Dragões
- Mocidade
- Rosas
- X-9
- Tom Maior
- Nenê
- Gaviões
Que a vitória de Márcio André no Tatuapé foi armada todos sabem , e adiciono um detalhezinho : A disputa foi no cd e a escola nao divulgou os nomes dos compositores . Cada obra só era assinada por 2 pessoas , a terceira seria o intérprete Vaguinho . Essa é a forma que a escola paga ele
É, eles classificaram seis sambas após a audição e fizeram uma final. E já tenho visto gente que tem orgulho da obra que fez sendo que sequer aparece entre os compositores. Mas é um bom samba.
Isso de colocar o intérprete como autor não é novidade- se não me engano o Salgueiro fazia isso anos atrás
No caso do Vaguinho, ele compõe mesmo – ou pelo menos assina. Ele sempre ganhava os sambas na Mancha e saiu da Tucuruvi por ter perdido lá. Diga-se de passagem, ele também defendeu o samba vencedor do Márcio André Filho no Alegria e foi apoio do Wander Pires na disputa do Império da Tijuca, do Márcio André.
Que o autor da coluna me desculpe , mas eu acho o samba da Tucuruvi fraco demais
Facilmente pinta alí na parte de baixo da tabela
Só considero melhor que Nenê e Gaviões que são inaudíveis