Nesta sexta feira, a segunda parte da série sobre o carnaval de Manaus assinada pelo antropólogo Ricardo Delezcluze.
O que tem de diferente no samba de Manaus?
O que diferencia as escolas de samba de Manaus para o restante do país? Quais suas particularidades? O que tem aqui em Manaus no carnaval que não temos em outras cidades?
Essas foram algumas das perguntas a mim colocadas quando comecei a pesquisar as escolas de samba em Manaus. São questões que não necessariamente precisam ser respondidas. O que temos em comum com o carnaval carioca por exemplo explica muito e simultaneamente sobre os dois carnavais.
As escolas de samba pelo país se desenvolveram obviamente a partir da propagação do modelo carioca. E a propagação desse modelo é uma clara demonstração do sucesso do jogo, do modelo, da facilidade das regras desse jogo serem apreendidas bem como da adaptabilidade das mesmas aos anseios culturais nos mais diferentes rincões do país. Uma possível correlação pode ser feita com as regras do futebol e a paixão despertada por este esporte.
Tentaremos porém neste texto dar prosseguimento às questões e tentar respondê-las. Como expus no artigo anterior, o sambódromo é um dos signos dessa identidade do samba manauara. Um dos desdobramentos dessa singularidade representada pelo espaço de desfile é a demarcação das arquibancadas por escola como já citei. E essa demarcação é consequência de uma rivalidade um tanto quanto diferenciada entre as escolas daqui em relação a outras cidades.
Em Manaus é muito difícil uma escola ser madrinha da outra, como acontece no Rio. O único caso que tenho conhecimento entre duas escolas do Grupo Especial é da Aparecida apadrinhando A Grande Família. Há que se ressaltar que tomando a história das escolas de samba daqui, remontando a 1947, os embates entre A Grande Família e Aparecida pelo título deram-se em tempos recentes.
Para se ter uma ideia, não sendo um diretor ou representante de algum quesito chave é raro ver alguém com camisa de outras escolas em quadras alheias. Não encontrei um quantificador exato para comparar com o Rio, por isso abro a possibilidade de estar equivocado, claro.
Até pelo fato de ter encontrado componentes que circulam por várias escolas do mesmo grupo desembaraçadamente, especialmente compositores. Vejam que há até o caso de um compositor campeão e vice no Grupo Especial no mesmo ano: Marquinhos Negritude, campeão com A Grande Família e vice com a Reino Unido em 2009.
Outro detalhe é que o samba carioca também se construiu sob auspícios da rivalidade que veio a arrefecer com as constantes visitas das escolas umas as outras, coisa que as velhas guardas cariocas cultivam ainda hoje com suas belas festas.
Por aqui as visitas são menos regulares, especialmente de uma escola visitando/recebendo outra. Sempre houve festas em que uma escola recebia todas as outras simultaneamente. Como no Rio, a competição nesses casos se dá em outro grau: o de quem recebe melhor. É assim com a Festa das Bandeiras na Vitória Régia, com a Feijoada das Comissões de Frente na Reino Unido, com a Noite dos intérpretes na A Grande Família, entre outros. Uma escola recebendo a outra vi apenas no encontro entre Aparecida e Vitória Régia, na quadra da primeira. A reformada e belíssima quadra da Aparecida (acima) tem sediado esses encontros todos os domingos nesse ano. É algo nos moldes do Salgueiro recebendo uma coirmã no ensaio de sábado. O encontro da Aparecida com a Vitória Régia foi particularmente significativo. Ambas são as maiores detentoras de títulos da cidade. O tabu das cores foi quebrado na ocasião e o verde da Aparecida abrigou também o rosa da rival.
Poderia citar também as marcas dos artistas do Festival de Parintins. Elas vão muito além das alegorias que tem a mesma monumentalidade dos cenários em movimento do Festival. Sobre as alegorias há que ressaltar ainda a incrível inventividade que faz belas alegorias gigantescas caberem no exíguo orçamento das escolas.
No entanto, ao visitar as escolas vemos que os talentos do samba manauara alimentam também o festival. São ritmistas, compositores, cantores, dançarinos nativos da capital amazonense e criadores da arte dos bois, posteriormente mimetizadas no carnaval carioca.
E se no festival é vermelho para um lado e azul para o outro, nas escolas de samba vermelho veste azul na Unidos do Alvorada ou azul veste vermelho na Balaku Blaku. Disso provém marcas na linguagem do samba: o chocalho aqui é chamado rocar, as caixas recebem o diminutivo de caixinha e as bossas e paradinhas são consideradas “toques”.
Os enredos tem significado particular para o manauara. Os temas em geral percorrem coisas fáceis de se comunicar com o morador da cidade, que fazem parte do nosso cotidiano. No carnaval passado foram os centenários dos clubes de futebol Nacional e Rio Negro que passaram com a Vitória Régia e a Presidente Vargas respectivamente.
Em 2014 serão o centro antigo de Manaus na Aparecida; a baluarte e artista local Ednelza Sahdo na A Grande Família; o mercado popular da rua Marechal Deodoro pela Andanças de Ciganos; a Reino Unido contando sua própria história; a Balaku Blaku falando da Ilha de Marapatá; Unidos do Alvorada com José Aldo, o lutador de MMA; e por ai vai.
O que é fato é a paixão do manauara por samba. Isso a despeito de boi, ciranda, quadrilha ou qualquer outra festa. Estão aí o Samba Manaus, um dos maiores festivais de samba e pagode do Brasil; o Botequim da Kamélia, o Pagode da Resistência, o Butequim da Pareca entre outras rodas de samba que esbarramos em cada esquina da cidade. Manaus traz o samba no peito como vertente, como virtude e como vocação. Ainda que isso seja muito subjetivo, me perdoem, mas vejo como uma singularidade a mais.
Até a próxima!