Em mais um texto da cobertura especial de Carnaval do Ouro de Tolo, o advogado Rafael Rafic aponta as melhores escolas da segunda noite de desfiles da Série A na Sapucaí.

Escolas de Niterói são as favoritas na Série A

Neste sábado, segundo dia de desfiles da Série A, se apresentaram nove escolas, entre elas as duas favoritas do pré-carnaval: Viradouro e Estácio. Seguem minhas impressões, lembrando que a frisa Ouro de Tolo esteve mais uma vez localizada na Fila A do Setor 3.

Tradição – Momento de humor da noite. Para começar, o presidente da escola, Nésio Nascimento, veio à frente da escola escondendo o braço numa pífia tentativa de imitar o seu pai, o histórico Natal da Portela. Pela primeira vez vi a escola sem o seu tradicional Condor em lugar algum do desfile. Na parte plástica, tivemos mais um desfile típico da Tradição: horrível. Fantasias extremamente simples e incompletas. Várias “inintendíveis”. Quanto aos carros, uma simplicidade extrema com acabamentos porcos. Três dos quatro motoristas estavam completamente visíveis. Evolução, salvo uma cratera aberta na frente do carro 3, tranquila. Harmonia bastante irregular, com alas cantando muito e outras simplesmente ignorando o ótimo samba do primeiro título da Beija-Flor. Bateria salvando ao menos um quesito. O samba-enredo é ótimo mas estava muito acelerado, nem eu na frisa aguentei acompanhar. Briga para não cair.

Alegria da Zona Sul – Um desfile bem agradável. Ótimo samba, boa bateria. Fantasias muito bonitas, enredo claríssimo. Uma comissão de frente bastante criativa, com uma coreografia linda representando remadores em um grande barco. A melhor do grupo. Carros um pouco mais pobres, com alguns problemas de concepção, mas nada comprometedor para o objetivo da escola. O grande senão, como sempre, foi a sua harmonia pífia. Salvo duas alas, ninguém na escola cantava mesmo com este ótimo samba. O grande problema da escola ocorreu no último carro, que não conseguiu fazer a curva para entrar na Sapucaí de forma alguma. Após cinco minutos de tentativas, a escola tomou a atitude correta e desistiu de entrar com o carro. Isso penalizará a escola, porém ainda sim menos do que se ele entrasse e acabasse com a evolução da escola, que veio bem no setor 3. Levando em consideração os desfiles vistos até então, não creio que a escola seja rebaixada caso não seja despontuada por alguma obrigatoriedade não cumprida por conta da quebra do carro, mas passará sufoco e a continuidade na Serie A não é garantida.

curicica2União do Parque Curicica – Passou bem a escola apesar do samba sobre a cachaça ser um porre. Escola fez o dever de casa e apresentou uma plástica boa para o nível que esta Série A apresentou. Carros simples, mas com bom acabamento, apesar de algumas falhas. Destaque para o terceiro carro com aquele efeito batido de guarda-chuvas girando, neste caso todos vermelhos. Enredo explicado razoavelmente. Harmonia com a maioria dos componentes cantando, apesar de algumas poucas alas sem canto. Evolucão limpíssima. Bateria com boa apresentação. O ponto fraco foi o samba mesmo. Desfile para meio de tabela e Curicica vai se firmando na Série A aos poucos.

Caprichosos de Pilares – A Azul e Branco levantou a Sapucaí esquentando com o grande “Saudades” de 1985 e foi a escola que entrou pisando mais forte na avenida até aquele momento. Porém, uma série de problemas foi aparecendo à medida que o desfile se desenvolveu. Para começar, o abre-alas desacoplou bem na nossa frente e abriu um belo buraco entre os dois carros. Como os tripés foram proibidos na Série A, acho difícil da escola escapar da punição por excesso de carros. Ainda falando dos carros, alguns destaques vieram faltando em três deles. Especialmente o abre-alas tinha problemas de acabamento, não muito diferente dos outros carros. Muitas fantasias vieram com partes faltando e pelas informações recebidas duas alas sequer entraram por falta de fantasia. Sem contar o problema advindo do abre-alas, evolução boa. Assim como a harmonia. Bateria estava tocando frevo, de tão acelerada. A mesma tocou a absurdos 160 bpm. Por fim o samba, tão criticado por mim, teve sua melodia bem melhorada e passou bem. Eu mesmo cantei bastante. Ninguém se lembrará quando ler este texto, mas serviu bem ao desfile. Por todos os problemas, prevejo uma colocação no fim da tabela para a Caprichosos, mas não vejo riscos de rebaixamento.

viradouro2Unidos do Viradouro – Pintou a campeã? Desfile fortíssimo. As melhores fantasias e os melhores carros do grupo até aquele momento, com bastante luxo. Enredo muito bem passado. Comissão de frente com boa coreografia e fácil leitura. Uma excelente harmonia, apesar de não ser perfeita. Evolução fantástica. Samba-enredo bom apesar de ser massacrado pelo criminoso andamento de frevo característico da bateria da Viradouro. Os únicos pontos negativos do desfile foram justamente o andamento da bateria (facilmente acima de 160 bpm), uma atravessada da mesma na parte final da pista (fica mais fácil errar nessa velocidade) e a totalmente desnecessária saudação integralista feita na frente do abre-alas na polêmica parte “Anauê” do samba.

Estácio de Sá – A escola não entrou com a mesma pressão da Viradouro, mas quesito a quesito, pode brigar com a agremiação de Niterói. As fantasias estavam belíssimas, algumas com qualidade de Especial até. Mas os carros alegóricos não estavam no mesmo nível da Viradouro, especialmente o carro 4, que, apesar de estar na temática do fim do enredo, foi de um mau gosto absurdo. Sem contar o motorista aparente abaixo do ótimo leão do abre-alas. Harmonia muito boa, apesar de uma rateada no setor 3 da escola. Evolucão boa apesar das longas paradas para apresentação de comissão de frente e Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Samba interessante. Bateria acelerada, mas com bons desenhos de naipe, tendo um desempenho bom e constante no desfile. Se a Estácio pode ganhar da Viradouro, é na força destes quesitos.

Acadêmicos de Santa Cruz – Desfile modorrento, chato. Uma comissão de frente “inintendível”. Fantasias regulares. Carros alegóricos de mau gosto, especialmente o último, que me fez pensar que em Jundiaí tinha terremoto. O samba é muito ruim, disputando com a Rocinha o título de pior da Série A e a bateria foi a pior que passou aqui. Foi a única em que tive alguma dificuldade em distinguir os surdos, alias. Harmonia em bom nível e evolução sem problemas no setor 3 apesar de já ter conhecimento de problemas enfrentados pela escola na parte final da pista. Não deve cair, mas pode passar sufoco.

padremiguel1Unidos de Padre Miguel – A surpresa geral. Escola entrou muito forte, desenvolveu o difícil enredo sobre enigmas com ousadia, criatividade e maestria. Fantasias luxuosas e bem acabadas, os carros compuseram o melhor conjunto alegórico que passou na Série A. Comissão de frente muito bem concebida. Não havia sequer um componente sem cantar o samba, na melhor harmonia da Série A. O samba é bem gostoso e a bateria pesada deu show. Era desfile para o título. Porém, a evolução acabou com qualquer chance da escola. A evolução foi lentíssima o tempo inteiro com três momentos em que a escola ficou totalmente parada por muito tempo. Para piorar, a escola ainda estava grande. O resultado foi o que o último componente da escola entrou na avenida quando o relógio já marcava 45 minutos. De repente a lentidão se transformou em uma correria desenfreada em que a última ala atravessou a Sapucaí em meros nove minutos. Mas a irregularidade da evolução foi facilmente percebida por todos os módulos e a escola deverá ser bastante despontuada. Sem contar os reflexos disso em quesitos próximos como harmonia e conjunto. Apesar disso ainda é desfile para top 5 ou até top 3.

Acadêmicos do Cubango – Se o principal do desfile é o samba, a Cubango é campeã. O samba confirmou todas as expectativas e “passou o rodo” em toda a Serie A. Se ele não for Estandarte de Ouro, eu desisto de vez desse prêmio. Quanto aos quesitos, a Cubango também passou bem. Fantasias bem feitas, escola cantando bem (apenas inferior à Unidos de Padre Miguel), evolução perfeita. Não pude ver muito da comissão de frente, mas estava bem paramentada. Bateria também muito bem. Os dois problemas da escola foram os carros, que além de terem sido feitos para desfilar de noite quando a escola já entrou de dia, não eram tão luxuosos ou criativos como Viradouro e Unidos de Padre Miguel e o fato da escola desfilar de dia estando toda preparada para um desfile noturno. O último carro também passou todo apagado, apesar disso não fazer muita diferença com o dia claro. Mesmo não tendo pisado com a mesma pressão da Viradouro, numa comparação quesito a quesito, não descartaria a Cubango pela disputa do título.

Considerações finais: em um ano de nível técnico sofrível, Viradouro e Cubango são favoritas ao título, com Estácio correndo por fora. Para o rebaixamento, para mim, Rocinha e Tradição são inevitáveis com Alegria e União de Jacarepaguá disputando para escapar.