O jornalista Fred Sabino analisa o primeiro dia de desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro, marcado por apresentações muito irregulares, com momentos de brilho intercalados por erros e problemas de várias escolas.

Beija-Flor sai na frente em meio a desfiles irregulares

A primeira noite do Grupo Especial teve um bom nível plástico das agremiações e bons desenvolvimentos dos enredos, mas uma irregularidade muito grande nos quesitos de pista, com erros até primários em evolução e harmonia. O desfile mais competente da noite, pela excelência na maioria dos quesitos foi a Beija-Flor, mesmo tendo feito uma apresentação fria pelo limitado samba-enredo.

imperiodatijucaImpério da Tijuca

O Império da Tijuca abriu os desfiles com uma apresentação agradável com o enredo “Batuk”, do carnavalesco Júnior Pernambucano. O samba-enredo funcionou bem, principalmente no refrão principal. A bateria começou o desfile muito acelerada, mas aos poucos atingiu um andamento mais aceitável, principalmente pela ótima atuação do intérprete Pixulé.

A comissão de frente representou o “Dom de comunicação” com os ancestrais. Em termos de alegorias, o Imperinho teve um bom conjunto, com destaque para o carro do folguedo do Maracatu. Já o carro “Batuque Místico” (foto), que tinha uma enorme escultura de preto velho, sofreu para entrar na pista, mas conseguiram manobrar a alegoria a tempo antes que se criasse uma cratera depois da linha de início de desfile.

Gostei da maioria das fantasias, mas do meio para o fim havia um excesso de peso. Na ala “Sacopé” houve problemas, pois havia atabaques como adereços e diversos componentes não os levaram, o que descaracterizou o conjunto e pode fazer a escola perder pontos. O carnavalesco utilizou diversos tripés, como o belo elemento que representou os três reis magos, e adereços de mão, o que rendeu bom efeito.

Gostei da divisão cromática que pendia para as cores da escola no começo e foi ficando com tons mais diferentes do meio para o fim, quando o desfile ficou menos místico e mais profano, como no colorido carro “Manguetown” (que representava a diversidade de batuques em Pernambuco) e na alegoria “Batucada Imperial”, que homenageava a escola com a coroa (toda em verde) e esculturas de formigas, lembrando o Morro da Formiga. No entanto, em determinados momentos houve falhas de acabamento.

Não foi uma apresentação tecnicamente perfeita em evolução e harmonia, já que o abre-alas demorou a sair da pista e isso gerou um descompasso. Além disso, se as primeiras alas cantaram o samba a plenos pulmões, houve uma irregularidade no canto nas últimas, sobretudo na ala “Dança do Fogo”, em que alguns integrantes passavam praticamente mudos pela pista, enquanto outros cantavam. Mas foi um bonito desfile, a despeito de em alguns momentos as ideias terem sido um pouco confusas.

granderio2Acadêmicos do Grande Rio

Mesmo com um samba fraco, a Acadêmicos do Grande Rio conseguiu agradar com o enredo “Verdes olhos de Maysa sobre o mar, no caminho: Maricá”, que contava a história do município fluminense tendo como gancho o amor da grande cantora pela cidade e ainda passeava pelos aspectos do local.

A comissão de frente era formada por um gigantesco elemento alegórico representando um navio com um canhão que disparava um homem bala fantasiado de pirata rumo a uma rede que amortecia sua queda – o homem-bala foi o chileno Chachi Valencia, que trabalha nos Estados Unidos e Europa e foi descoberto pela escola em um show em Las Vegas (foto). Havia muito mais do que os 15 integrantes regulamentares, mas enquanto uns (piratas) ficavam escondidos, outros (carangueijos) faziam evoluções dentro do elemento. As fantasias da comissão estavam excelentes.

Mas, pro meu gosto, embora esse tripé tenha causado um bom efeito, achei um exagero, até porque parecia mais um carro alegórico do que outra coisa. A meu ver, isso descaracteriza o quesito comissão de frente, cujo objetivo a priori sempre foi o de apresentar a escola. Isso, insisto, apesar do ótimo efeito que a comissão tinha.

O abre-alas era muito bonito, grande e em branco, mas com iluminação colorida e muitos teclados e pianos, representando a chegada de Maysa à cidade onde resolveu ficar – havia ainda trechos de músicas da cantora com a caligrafia dela. A alegoria jogava muita água para cima e isso acabou deixando a pista molhada e perigosa para quem vinha evoluindo atrás. Gostei muito da alegoria que mostrava os jesuítas catequizando os índios da região.

granderio3O vazado carro da estufa de Darwin, com muito verde (grama sintética) e pessoas fantasiadas de borboletas, e a alegoria com uma locomotiva que simbolizava o progresso de Maricá também causaram ótima impressão. Agradou também o conjunto de fantasias, que estava luxosíssimo e de excelente gosto, principalmente os figurinos das alas das baianas. Fábio Ricardo também usou muitos tripés e adereços de mão, o que causou ótimo efeito.

O samba-enredo como se esperava não empolgou o público e a harmonia da escola esteve irregular, com algumas alas cantando mais e outras passando de forma mais fria. Já a bateria de Mestre Ciça voltou a ousar com diversas paradinhas, e teve uma atuação melhor em relação a 2013 – a rainha de bateria Christiane Torloni chegou em cima da hora à concentração, mas conseguiu desfilar desde o início e fez par de dança com Ciça em determinados momentos do desfile.

No entanto, apesar da ótima concepção do conjunto visual, a Grande Rio teve problemas de evolução, já que o enorme elemento da comissão de frente teve dificuldades para sair da pista por ter sido retirado pelo lado errado. A escola chegou a parar por mais de cinco minutos e depois correu, deixando a avenida com 81 minutos. De qualquer forma, a Grande Rio fez no conjunto um desfile bem superior a 2013, sobretudo nos quesitos plásticos, embora pela crueza do tema e ao fraco samba, não tenha empolgado. Porém, a volta no sábado das campeãs é bem possível e ficam os parabéns ao carnavalesco Fábio Ricardo.

saoclemente2São Clemente

Reforçada do grande carnavalesco Max Lopes, a São Clemente entrou na avenida para defender o enredo “Favela”. Mas, apesar alguns bons momentos na concepção do enredo, a apresentação da simpática escola da Zona Sul foi irregular, sobretudo pela forma até tímida como muitas alas evoluíram e a falta de um samba mais contagiante.

A comissão de frente foi interessante, com dois momentos distintos representando as transformações das favelas. Num deles, personagens antigos das comunidades, com roupas antigas maltrapilhas, e depois os personagens modernos como a periguete, o moto-taxista e o grafiteiro, que no meio da pista pichava num pano amarelo a palavra favela. Como no caso da Grande Rio, houve um grande tripé que compunha a comissão e de onde saíam os componentes para evoluírem na pista. No elemento as paredes dos barracos abriam e fechavam de acordo com os momentos da apresentação. Num deles, uma mulata sobre um queijo sambava à frente de um painel que simbolizava o M da Apoteose.

salgueiro2As primeiras alas simbolizavam a Guerra de Canudos, de onde saíram sertanejos que fundaram a primeira comunidade do Rio, o Morro da Providência. A alegoria que se seguia era grande, com ótima iluminação e quase todo em espuma, com uma escultura grande e bem realizada de Antônio Conselheiro e outras de cactos e sertanejos. Mas infelizmente houve o desacoplamento de um dos elementos, o que deve gerar perda de pontos. A alegoria que representou o Morro da Providência e sua construção foi muito bem realizada. O outro destaque em alegorias foi o elemento “Universo da Miséria”, que representava as favelas da Índia, com uma grande escultura de Madre Teresa de Calcutá. Os demais elementos não causaram grande impacto.

Gostei das alas que homenagearam escolas como Salgueiro e Mangueira e as fantasias no geral foram adequadas. Mas houve irregularidade em outros quesitos, principalmente em harmonia, com algumas alas sem ânimo, o que vai de encontro à tradição irreverente da escola. O samba não era mesmo dos melhores e, para piorar, a evolução foi bastante lenta devido à dificuldade de manobras das alegorias. Pareceu ainda que houve uma certa indecisão para a entrada da bateria no recuo. O último carro passou muito rapidamente pela pista e a escola apressou o passo para cumprir sua apresentação abaixo dos 82 minutos regulamentares.

mangueira4Estação Primeira de Mangueira

Quarta a desfilar, a Estação Primeira de Mangueira teve um desfile de altos e baixos. Curiosamente, se em outros anos havia sambas empolgantes e falhas no conjunto visual, neste ano aconteceu o contrário. Foi uma boa reação da Verde e Rosa, com o enredo “A festança brasileira cai no samba da Mangueira” muito bem desenvolvido pela carnavalesca Rosa Magalhães, mas ainda assim houve outros problemas.

A comissão de frente chamava-se “A Diversidade das Festas Brasileiras” era muito interessante, com a festa do encontro dos índios com os portugueses quando do descobrimento. Uma oca muito bem acabada se transformava em diversas saias e roupas para as mulheres (que trocavam de roupa na pista) e simbolizavam as transformações das festas brasileiras. Mais um grande trabalho do coreógrafo Carlinhos de Jesus na volta à escola que defendeu de 1998 a 2008.

De cara, deu para perceber o requinte habitual de Rosa Magalhães na concepção de alegorias e fantasias. Sem exagero, há muitos anos a Verde e Rosa não passava tão bem nos quesitos visuais. A ala de baianas esteve espetacular, com figurinos representando o mar com direito aos crustáceos. Outra ala extraordinária foi a que simbolizou as oferendas a Iemanjá e a própria ala destinada a ela.

A alegoria de Iemanjá (acima) era brilhantemente concebida, com iluminação impecável e tinha a velha guarda, além de uma discreta Rosa Magalhães como destaque, vestida de mãe de santo. Outra ala muito bem vestida era sobre a quadrilha de São João, com bela coreografia. A esperada alegoria sobre a parada gay, a exemplo das demais, tinha ótimo acabamento mas a concepção não foi tão feliz.

mangueira3A bateria de Mestre Ailton esteve em grande noite, com a firmeza característica e belas convenções, como por exemplo no momento em que o naipe de tamborins (que tinham uma iluminação em led verde e rosa) fez a marcação com os surdos um. Além disso, a rainha de bateria Evelyn era içada por uma grua e ficava acima dos componentes, num belo efeito. Não houve as exageradas paradonas de outros anos, o que ajudou a sustentar o ritmo e evitar problemas de harmonia.

No entanto, apesar da excelente atuação do cantor Luizito, surpreendentemente o samba-enredo não rendeu o que esperava, com um canto muito tímido de diversas alas. O público também assistiu ao desfile com frieza, exceto nos setores pelos quais passava a extraordinária bateria.

Houve ainda problemas sérios de evolução na parte final, já que o belíssimo carro com o pajé não passou pela torre por problemas na grua e teve a cabeça quebrada para vencer o obstáculo e deixar a pista (foto). Algo absolutamente inadmissível depois dos problemas do ano passado com o carro da libélula. Com isso, os componentes apertaram muito o passo para passar abaixo dos 82 minutos e conseguiram. Um belo desfile, mas desperdiçado por falhas bobas. Lamentável.

salgueiro3Acadêmicos do Salgueiro

O Salgueiro também fez uma apresentação bonita mas irregular com o enredo “Gaia, a vida em nossas mãos”, que contou a relação do homem com a Terra e a história da criação do mundo por intermédio dos elementos terra, água, fogo e ar. Renato Lage e sua esposa Márcia mais uma vez brilharam na concepção da maioria de alegorias e fantasias, mas o desfile foi ainda mais problemático do que o da Mangueira.

O bonito e extenso carro abre-alas (47 metros e acoplado) apresentou problemas na embreagem e, além de soltar muita fumaça, causou um buraco na evolução de cara. Além disso, a iluminação do lado esquerdo teve falhas, uma pena pela beleza do elemento, cujos componentes fizeram belas coreografias. Um deles era o grande Djalma Sabiá, único fundador da escola ainda vivo. O ótimo tripé da comissão de frente tinha um belo efeito com uma componente levitando.

As fantasias estavam impecáveis, com o uso de materiais diferenciados como palha, sobretudo nos primeiros quadros do enredo, e uma divisão cromática voltada para os tons de marrom. Depois, as cores penderam para o verde e amarelo da natureza, especialmente no extraordinário carro “Terra”. Em seguida, entrou em cena o elemento água, com um incrível carro com o dragão chinês com o poder de conter a fúria das águas, e uma lindíssima iluminação em azul a ponto de a pista ficar com luzes.

Depois houve mais problemas de iluminação no carro que simbolizava o elemento fogo. Depois de o carro percorrer boa parte da avenida apagado, as luzes só voltaram quando a alegoria passava pelo recuo da bateria. Mas logo em seguida, as luzes se apagaram novamente. No fim, numa alegoria que não me agradou e quebrou o conjunto, o Salgueiro falou sobre as formas alternativas de energia, como a solar e eólica. O desfecho deixou uma mensagem de preocupação com o futuro do planeta, com uma bela alegoria de uma enorme caveira sobre um globo.

Além dos problemas com alegorias, o samba-enredo, apesar de bonito, arrastou-se do meio para o fim do desfile. Com isso, o Salgueiro foi outra escola a apresentar harmonia irregular. Para piorar, o abre-alas voltou a apresentar problemas perto da torre e a evolução foi lentíssima. Para se ter uma ideia, a bateria só chegou ao recuo com mais de uma hora de desfile. Por outro lado, os ritmistas de Mestre Marcão, que estavam vestidos representando o fogo, tiveram mais uma grande atuação, com bossas e paradinhas precisas.

Mas infelizmente os problemas já mencionados atrapalharam irremediavelmente o desfile do Salgueiro e a escola teve de correr absurdamente para não estourar os 82 minutos regulamentares. Também conseguiu a duras penas e a luta salgueirense foi aplaudida pelo público na Apoteose, que finalmente cantou o samba com os componentes puxando grito de “campeão”. Mas se foi um desfile muito bonito, os problemas em evolução e harmonia devem atrapalhar a briga pelo título.

beijaflor4Beija-Flor de Nilópolis

A Azul e Branco não ligou para as vaias vindas dos setores 2 e 3 e, mesmo sem ter empolgado o público, fez uma boa apresentação nos quesitos para se consolidar como uma das favoritas ao título com o enredo “O astro iluminado da comunicação brasileira”, uma homenagem ao ex-diretor de operações da TV Globo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. A escola fez um passeio pela história da comunicação para culminar com a exaltação ao empresário.

Um dos pontos altos foi a ótima comissão de frente, que teve um tripé em forma de cenário com beija-flores simbolizando a comunicação e um tabuleiro de xadrez cujas peças eram os componentes simbolizando o jogo de xadrez no planejamento para a comunicação. A novidade ficou por conta da apresentação de Selminha Sorriso e Claudinho dentro da comissão, cercada pelos integrantes. Não só foi uma surpresa, como ajudou na evolução da escola.

A escola começou a contar a saga da comunicação desde a Mesopotâmia, passando pela China, onde foi inventado o papel, e Grécia, onde a oratória se consolidou. Gostei da maioria das alegorias, em especial a da imprensa. O carro em homenagem a Boni não me agradou tanto em concepção e foi recheado de globais que pagaram tributo ao empresário. Interessantes também as imagens de Boni retratadas em telas de led, tudo funcionando impecavelmente.

beijaflor3Este desfilou fantasiado de Chaplin à frente da bateria, que tinha a mesma fantasia. Boni se arriscou ao tocar tamborim e foi cortejado pela exuberante rainha de bateria Raíssa. A bateria da Beija-Flor passou praticamente “reta”, sem muitas ousadias, mas teve a melhor cadência da noite sem sombra de dúvidas e foi de extrema firmeza.

Isso permitiu que o limitado samba fosse bem cantado pelos componentes, já que Neguinho conseguia pronunciar as palavras sem atropelamentos. Houve um pequeno descompasso de evolução na parte final do desfile, mas, com o dia amanhecendo, a Beija-Flor terminou seu desfile como a melhor escola de domingo nos quesitos, mesmo sem empolgar tanto.

Minhas colocações de domingo levando em conta os dez quesitos:

1 – Beija-Flor
2 – Grande Rio
3 – Mangueira
4 – Salgueiro
5 – Império da Tijuca
6 – São Clemente

Fotos: Pedro Migão e G1

2 Replies to “Sabinadas: “Beija-Flor sai na frente em meio a desfiles irregulares””

  1. Bateria da Beija Flor foi a melhor do dia .
    Tocou uma cadência gostosa de samba , enquanto as outras tocaram um frevo transloucado.
    Mas em relação ao desfile num todo , o achei muito irregular
    Vou ressaltar tambem a diferença do desfile do Império pra São Clemente .
    A escola de Botafogo não escapa dessa vez

  2. Eu discordo que a Beija-Flor foi a melhor da noite.

    – As alegorias não estavam belas no geral devido aos designs de mal gosto na maioria dos carros alegóricos e a uma combinação de cores estranhas.
    – O abre-alas passou muito apagado e não impactou.
    – O enredo foi muito mal desenvolvido, já que o elo entre o Boni e a comunicação ficou mal resolvido. Ficou tudo muito disperso e era fácil se esquecer qual era a temática do desfile. A Grande-Rio e a Salgueiro foram muito mais felizes nesse quesito.
    – A atuação do Neguinho e da bateria (a melhor da noite, sem dúvidas) foram os pontos altos do desfile, mas não foram o suficiente para salvar o samba-enredo como o pior do GE até então. Não empolgou o público em momento algum e até mesmo sua comunidade aguerrida, que cantou o mediano samba do ano passado a plenos pulmões, parecia desanimada ao defendê-lo.

    Nesse ano, o Laíla errou a mão feio e o desfile em nada lembrou o do ano passado.

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