Nesta terça feira o administrador Emerson Braz conta as suas impressões da recente visita guiada que fez ao Maracanã.
Maracanã: O estádio sem alma
Não sou chato, juro. Longe disso, mas dessa vez acho que serei…
No último mês de fevereiro passei alguns agradáveis dias com as Bias no Rio de Janeiro e para confirmar o amor que minha pequena tem pela cidade, sempre que vamos fazemos passeios novos e nos divertimos muito. O escolhido da vez era o Maracanã.
Gosto de estádios, reconheço. Frequento os paulistanos desde que nasci. Algumas incursões ao interior com histórias sempre saborosas e algumas loucuras em outros estados. Sempre que sei que alguém foi em algum que não conheço faço um monte de perguntas sobre o entorno, acesso, comida e etc. Museus de estádios me fascinam, a destacar o Museu do Futebol do Pacaembu (obrigatório no assunto). Meu pai esteve recentemente numa visita guiada no Estádio do Dragão no Porto e ficou de queixo caído, bem como meu amigo Luciano foi aos dois existentes em Manchester e disse o mesmo. Sendo assim o Maracanã não passaria incólume nessa viagem que tinha como cereja no bolo ver nossa querida Beija-Flor ensaiar na Sapucaí.
Fomos de metrô ao estádio. Ponto positivo no Emersômetro… Acho muito legal ter acesso via transporte público e isso é sempre exaltado quando o “fã de esportes” acompanha os grandes jogos pelo mundo moderno. Gostei do acesso pela rampa da UERJ, aquilo deve ferver em dia de jogo.
Fizemos uma visita guiada ao valor de 30 reais. Em Portugal meu pai pagou 10 euros, mesmo patamar. A lista de gratuidades no Rio de Janeiro gera sempre sorrisos de paulistas, vi isso em todos os lugares que fui. É sensacional. Entramos, achamos tudo muito bem arrumado, fomos de elevador à tribuna de honra onde Blater fará o discurso da final da Copa, provavelmente precedido de uma vaia à presidente da República, fomos aos camarotes vips, aos hospitalits centers, cabinas de imprensa, descemos aos vestiários, área de aquecimento e etc. Tudo lindo, pomposo, grandioso, bem feito, limpo e etc.
Mas… E daí?
Estávamos no Maracanã, poxa. Um estádio de futebol. E as referências a ele quase não existem. Como é que a guia responde que a “Fifa mandou tirar o museu devido a querer usar o espaço” Como??O museu??? Cadê a calçada da fama??? Cadê o vídeo dos gols??
O Maracanã tem 64 anos. Não nasceu ontem. A referência aos três maiores que já passaram por ali não ocupa mais que dois metros quadrados. Garrincha é lembrado por seus pés e sua cara. Pelé, o maior de todos os tempos pelo pé, uma bola e a rede dos mil gols. Zico, o maior artilheiro do estádio, com uma estátua de 1 metro e meio no máximo. Como assim? Não se joga uma história no lixo.
Quem é a Fifa pra dizer o que deve ter ou não no estádio? Ele já foi sede de uma copa do mundo. Cadê as touradas de Madri? O Brasil já fez 5 jogos da Copa de 50 lá e não tem uma foto. Cadê a referência ao que todo mundo chama de maior tragédia da história? (No museu do futebol em São Paulo , tem uma sala escura com os gols… é uma porrada… narração do Luis Mendes…) Já tivemos abertura do Pan de 2007 e ?? E os times do Rio, os grandes jogos, os grandes nomes. O maior público da história do futebol em 69?
Onde? Cadê??
Sabe o que somos informados? Que por 120 reais podemos ver o jogo dentro de um camarote, com ar condicionado, comendo dois tipos de massa e tomando refrigerante. Nesse momento percebi que não estava onde eu queria. Eu estava em algo lindo, perfeito, que funciona, sem dúvida. Mas sem vida.
Sem alma…
Nos chamam a atenção de termos ar condicionado até o último metro antes dos jogadores saírem para o campo. E? Posso dar uma cambalhota no gramado? Estrangeiros, Brasileiros de todo lugar embasbacados com o tamanho fazem os mesmos comentários que eu e minhas Bias fazemos.
Não adianta, não sou chato. Mas esse dia teve que ser. Até na pobre lojinha vemos esse “coxismo enraizado”. Um visitante menos avisado ia perguntar quantos times tem no Rio. Estádio aconchegante e de primeira temos no mundo inteiro. Países que fazem grandes competições geralmente aliam essa oportunidade para poder ampliar recursos ao futebol. Mas aqui ou destruímos o que temos ou fazemos um monumento ao desperdício ou ao vácuo.
Faz dois meses o jogador Eusébio foi velado dentro do Estádio da Luz, do Benfica. Pessoas que já foram à “Catedral” dizem que em cada centímetro do estádio é lembrada a gloriosa história do Time. Old Trafford é o mesmo e todos eles desembocam numa loja para que sua paixão seja transformada em uma fonte de renda inesgotável ao clube. O Barcelona tem milhões de visitantes !!
Os clubes do Rio precisam imediatamente se posicionar em relação a isso. Tem uma joia dessa e simplesmente achar o prédio bonito é lamentável. Se ajoelhar a pedidos internacionais idem. Mas o Maraca resiste, lindo. Entretanto urgentemente precisam lembrar a Mario Filho que ele tem muito o que contar a todos os que apreciam o esporte bretão.
Belo texto Emerson. Morria de vontade de conhecer o Maracanã antes de sua reforma. Agora se tiver a oportunidade certamente irei, mas não mais com a mesma paixão. Tive a oportunidade de conhecer a Bombonera e fazer uma visita guiada, lá é como na Europa. Aqui temos um lampejo de como se administra a paixão do torcedor. Oxalá um dia possamos ter um clube com esse pensamento.
Abraços.
tem que ir e levar Carol! você vai ter noção de tudo isso… é lindo , mas…
Emer, meu amigo de longa data, excelente comentário.
É triste saber que por interesses de espíritos tacanhos, o descaso e principalmente a falta de respeito jarretam a história do melhor futebol do mundo. Levando em conta a curta memória do nosso povo, não demora muito para serem esquecidos os grandes momentos do sexagenário Maraca. Lamentável!!!
Isso apenas afirma a velha máxima que: “Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado”.
Forte abraço!
Totalmente verdade… e pra você que viveu nos EUA mostra mais ainda
Fato !!!!!!
Boa tarde Emerson, boas observações e constatações, infelizmente para a fifa o que interessa é o nome FIFA, o restante é mero coadjuvante.
Lembro-me de jogos inesquecíveis no “maraca”, de clubes como meu Palmeiras fazendo 4 a 1 no Flamengo de Zico, Junior, Adilio e tantos outros craques rubro-negros, do fim da fila interminável do Fluminense com gol de barriga de Renato Gaucho de gols que só Romário sabia achar nas redes do estádio.
Falar de Pelé, Rivelino no “Flu”, Dé no Botafogo, Roberto Dinamite, Claudio Adão e ficaria escrevendo tantos nomes de craques que “tocaram musica com os pés”. Afinal apenas lembrando o saudoso João Saldanha:
“o futebol brasileiro é uma coisa jogada com música”
Até mais e parabéns pela coluna!
eu estava no Maracanã nestes 4 a 1 que levamos do Palmeiras. Estou ficando velho…